quinta-feira, 3 de junho de 2010

Uma crítica à crítica preliminar

[por Emerson Araújo]

Há uma crítica literária preliminar, hoje, que não acrescenta nada ao projeto de formulação estética do fazer literário. Quando reafirmamos isso é fundamentado nos arroubos pretensiosos do crítico oriundo das lides universitárias, principalmente, dos cursos de letras mal estruturados curricularmente e que imaginam ensinar como fazer análise literária recheada de grifos e mais grifos descontextualizados.

Concordamos com Weslley Barbosa que chega ao cerne desta questão crítico/crítica quando diz: “Um crítico literário consciente deve primeiro buscar conhecer o que é o seu objeto de estudo, ou seja, a literatura. Uma tarefa que pode parecer fácil, mas não é, uma vez que esta é uma expressão artística que trabalha com a linguagem verbal (uma das coisas mais heterogêneas quando se fala em cultura ou sociedade)”. A crítica preliminar de plantão não tem consciência do que escreve/analisa, pois não é conhecedora do seu objeto de estudo, a literatura. Esta carência vem do banco escolar/universitário que superficializa institucionalmente os cursos de letras e que ausentam a literatura da formação destes futuros ensaístas pretensiosos e que modestamente Silas Corrêa Leite chama de pseudos-jecas pops.

A crítica literária preliminar não tem conhecimento pleno sobre o que pretende escrever/analisar porque não foi fornecida a ela durante a sua formação escolar/universitária, a matéria para esta análise, ou seja, a literatura. Para Weslley Barbosa ainda: ”Esse conhecimento só se efetua no contato com textos literários, de todos os tipos, de todas as épocas, de todos os gêneros e estilos. Depois, é necessário que se busque uma teoria... Ler muito sobre a literatura. Saber o que estudiosos renomados falaram sobre esta arte, qual o posicionamento deles sobre os textos, como se dá sua abordagem. Ler o que cada corrente teórica apregoa (o Formalismo Russo, a Semiótica, a Estilística, a Crítica Biográfica, a Historiografia, etc.), para depois escolher qual destas correntes norteará seus estudos, ou, utilizar elementos de todas (o que parece ser o mais sensato). Em seguida, já amadurecido teoricamente, o crítico volta ao texto, tentando aos olhos dessas teorias, buscar a essência do texto. O último passo, é verificar cada elemento encontrado dentro do todo da obra, de modo a encontrar o porquê de sua utilização, qual sua importância para o todo do texto, etc.”. É a falta desse conhecimento, de que nos fala o teórico, que deveria ser sugerido na formação de uma crítica competente que não conseguimos vislumbrar, ultimamente, seja em jornais, revistas especializadas ou que quer ser especializada, colóquios chatos, que volta e meia, invadem o mundo acadêmico universitário, nas semanas de letras de alunos que não conseguem apreender sobre as vanguardas artísticas do final do século XIX e início do século XX, salões de livros e outros espaços institucionais a serviço de uma mídia perigosa que patrocina o grifo fragmentado, o bacharelismo ínfimo das análises. A crítica preliminar, que é brasileirinha de nascimento, tem tomado estes palcos de que citamos ainda a pouco, para berrar para uma platéia/leitor sem profundidade no objeto da crítica suas teses da “crista da onda” em cima dos grifos do último filósofo existencialista subtraído da grande rede.

E concordando mais uma vez com Silas Corrêa Leite que diz: “A Nova Crítica Literária Brasileira, coitada, tem patetas de ocasião, cariocas postiços, gaúchos saradinhos, paulistas alocados e mais algumas mineirices de intelectualidades masturbatórias e, pajelanças Leminskianas. E ainda existem outros. Caetanear, por que não?. A crítica literária brasileira apanha de relho alhures e fica paradoxal: gosta de dar vexame, chuleia citações, agasalha pandarecos e, no final, alardeia uma saideira para todos, até porque ninguém é de ferro, e, depois da tempestade vem a leptospirose.” vamos desconstruindo esta superficialidade anêmica, a análise literária preliminar de plantão.

E sem querer ser professoral, fica um desejo como autor, por fim, de que a crítica e o crítico preliminares deixem as pretensões e as vaidades dos grifos e retornem a casa materna dos cursos de letras para aprenderem, pelo menos, o básico da decodificação literária, ou seja, a leitura das obras na sua essência estética.


[Emerson Araújo é professor e poeta]



Citações subtraídas de:
"O que é crítica literária" - Weslley Barbosa - in http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/949072
"A crítica literária brasileira" - Silas Corrêa Leite - in http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=163&rv=Literatura

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