quarta-feira, 9 de junho de 2010

A crise da poesia brasileira contemporânea - considerações de um leitor cansado [parte 04]

[por Ranieri Ribas]

Publicado originalmente na revista dEsEnrEdoS, número 01, julho 2009










Escrevi este ensaio porque me vejo como um leitor cansado, fadigado pela enfadonha repetição de faturas e recursos entre poetas brasileiros. Não há intervenção crítica possível que remedeie este contexto. Toda crítica aqui será estéril, mas necessária. Ao começar a redação me propus não ler nada a respeito antes que declinasse minhas impressões como simples leitor. Tomei também a decisão de não citar nomes e obras. Não por ser pusilânime, mas porque tal postura me demandaria um trabalho hercúleo de examinar cada caso apontado. Caso não procedesse assim, poderia ser injusto ou leviano com meus colegas. Assim, meu propósito se restringiu a captar a “estrutura geral”, o espírito que hoje (des)anima a poesia brasileira de novos autores.

Encerrada minha parte, saí em busca de artigos e reflexões sobre a questão. Três ensaios e um fórum me chamaram atenção. O primeiro de Marcos Siscar, o segundo de Luis Dolhnikoff e o terceiro de Cláudio Daniel[14]. O fórum – peculiar por se tratar de um acirrado debate entre poetas-internautas – é bastante relevante porque são os próprios poetas quem se posicionam[15]. Estes ensaios dão-nos a impressão de que o que está em jogo é uma inconclusiva emulação de gostos e preferências estéticas. Como tais gostos não possuem fundamentação racional, são manifestações de preferências privadas, pessoais, segundo a experiência estética individual de cada um, posso afirmar que estamos navegando em mar aberto, sem bússola.

O primeiro passo para elaborarmos um plano de navegação e compreendermos o que se passa na poesia brasileira hodierna seria demarcar bem o período e os autores a serem analisados. É melhor então que tratemos somente da novíssima poesia produzida no Brasil, especificamente, dos autores com menos de cinqüenta anos. Assim procedendo estaremos nos aproximando mais do espírito do tempo.

Como estamos em um movimento de reflexão sobre o espírito que move a produção poética recente, não podemos falar em nomes como Hilda Hilst, Nauro Machado, Ferreira Gullar ou Manoel de Barros: o espírito que os move, ou os movia, era outro, remetendo-nos a outro debate, outra época. Creio que o ano da publicação das obras não seja relevante para compreensão desse espírito. Importa o ponto de partida que moveu cada autor, não o ponto de chegada. Um livro de Hilda Hilst publicado em 1989, por exemplo, não reflete as angústias que afligem a geração que naquele período se projetava. Ademais, Hilst já teria nesta época algo em volta de sessenta anos e, com uma já consolidada maturidade poética e experiência de vida, estaria ao largo da celeuma literária do país da redemocratização. O espírito é de quem nasce na aurora do mundo, não de quem contempla seu crepúsculo.

Afirmo isso por discordar do procedimento de análise de Marcos Siscar. Segundo ele não podemos por ora compreender o movimento da poesia brasileira contemporânea tendo em vista que seu espectro ainda não cessou, está em pleno movimento. Subentende-se daí que seja necessário aguardar o crepúsculo do espírito para compreendê-lo. O reconhecimento das feições do espírito só seria possível ao entardecer, quando a coruja alça seu vôo. De fato, Siscar é bastante coerente com esta premissa hegeliana, exceto pelo fato de que os autores que ele perfila como porta-vozes do espírito são em sua maioria autores crepusculares, representantes de outra época, bem anterior ao espírito dos jovens poetas dos anos oitenta, noventa e do primeiro decênio. A exceção de Ana Cristina César, nomes como Sebastião Uchoa Leite, Hilda Hilst e Manoel de Barros – os quais Siscar utiliza como referência – deveriam estar circunscritos em outro contexto, não o que assistimos nos últimos vinte anos.

Em contraposição ao hegelianismo subjacente de Siscar, penso que não precisamos esperar a hora do crepúsculo para exercermos nossa capacidade de auto-reflexão e auto-crítica. Suspender o juízo ou contemporizar a esta altura da discussão é capitular diante da enfermidade da “crítica demissionária” a que se referia Paulo Franchetti. O próprio Siscar inicia seu texto distinguindo – com certa deterrence – entre análise crítica e juízo de valor. à exceção do que possa ser panfletário ou demasiado dogmático, toda crítica que queira se afirmar deve ajuizar claramente suas posições. O objetivismo deve estar a serviço do juízo. Qualquer postura que difira desta estará acrescendo um novo membro à fila dos críticos demissionários.

A tese mais forte de Siscar, entretanto, diz respeito a ausência de critérios incontroversos de julgamento estético-poético. Em verdade, creio, não há uma ausência destes critérios, mas uma proliferação deles, e tal proliferação resulta de um fenômeno curioso: a privatização da tradição. Os poetas contemporâneos – não apenas no Brasil, mas em todo o mundo – ao invocarem o termo “tradição” não estão se referindo a valores estéticos publicamente compartilhados, à uma Paidéia ou a uma Bildung, como era próprio aos antigos. Eles se referem a um cânone pessoal que a sua experiência de leitura elegeu. Isto é uma espécie de postura retórica na qual a argüição se vale sempre do discurso de autoridade, mas esta autoridade não é mais uma instituição pública impessoal – a Tradição, tal como era para os antigos – mas uma entidade personificada que se funda no puro Gosto. A privatização da tradição funciona assim como uma auto-ilusão ou como um princípio do prazer: é como se o mundo nascesse simultaneamente à experiência que o poeta vivencia. A história do mundo, neste cenário, não precede a experiência pessoal de que o poeta é portador. A sabedoria é substituída pela idéia de conhecimento cumulativo, o espírito é destituído pelas noções da técnica imanente. Neste contexto, quem julga se Torquato Tasso é relevante para a formação poética do neófito é o próprio neófito e sua experiência de leitura. Toda autoridade externa está destituída.

O multiculturalismo poético é um exemplo dessa privatização. Numa primeira leitura poderíamos dizer que o multiculturalismo implica a imposição de um cânone axiológico às questões de natureza puramente estética, ou seja, ele subjuga os valores norteadores da boa arte em favor de valores alheios a ela, de natureza ideológica, política e cultural. Ou seja, valores impostos por grupos privados para afirmação de identidades coletivas. à maneira de Nietzsche, poderíamos dizer que o multiculturalismo é uma política coletiva do ressentimento, e como tal, ele quer destruir a Tradição em seu caráter público originário. Para que servem rótulos como “poesia piauiense no século XX”, “poesia capixaba hoje”, “poesia negra” ou “poesia gay”? Para conceder valor estético a quem não tem. Para destituir os critérios do belo de seu lugar soberano e sub-repticiamente impor a arte uma demanda ideológica que lhe é alheia.

O multiculturalismo na poesia implica uma redução radical das esferas da experiência humana a uma única esfera, portadora da identidade do sujeito. O poeta enquanto pessoa se auto-entifica e abdica da sua completude humana, aliena o todo da sua experiência e de seu auto-reconhecimento em favor de uma “identidade” que se lhe impõe de fora, inautêntica. Trata-se de uma defecção dos modos de registro da experiência, reduzida a uma razão monocórdica e a um rótulo pré-definido.

Já o texto de Dohlnikoff traz uma importante discussão sobre o que seriam “grandes temas” ou “grandes questões” para a poesia. Ele diz que “Em termos internacionais, há a percepção de que as “grandes questões” políticas são a globalização, o “império” e a crise ambiental. E a crença de que as “grandes respostas” são o movimento antiglobalização, o antiamericanismo, o multiculturalismo e o ambientalismo”. Ao levar a sério tais “grandes questões” creio que Dohlnikoff esteja enredado numa velha mixórdia, que embora há muito superada, ainda exerce seu poder de confundir críticos e poetas. A questão é que não há “grandes questões” para a poesia uma vez que é o poeta quem concede voz aos objetos do mundo, não os objetos do mundo que lhe impõem uma dada fala. Poesia não é sociologia: eis a distinção. Para o poeta não pode haver uma imposição temática pré-definida porque ele só declina aquilo que lhe co-move. O poeta não pode ser poeta por uma força do artifício, ele é um testemunho, não um repórter ou cientista. O seu ato testemunhal tem voz própria, é um ato portador da vivência e da experiência que ali se encerra. Para o bardo a “grande questão” pode ser religiosa, como em Tasso, Dante, Claudel, Lowell, ou perceptiva, como em Ponge, Michaux, Malherbe, ou existencial, como em Celan, Ungaretti, Drummond, Jabès. A “grande questão” pode ser órfica, Mário Faustino, Jorge de Lima, Perse, Valery, Ovídio, ou mnemônica, Homero, Virgílio, ou cotidiana, Bandeira, Oswald, ou erótica, Hilst, Ovídio. Os temas políticos são “grandes” quando um poeta o toma para si a partir da sua experiência. Do contrário, eles se tornam temas pequenos, panfletários (aliás, os “temas políticos”, se é que existem – desconfio que não – são os mais suscetíveis à panfletarização).

Há alguns outros textos[16] que tratam do problema da crise da poesia brasileira e levantam várias hipóteses. A mais recorrente delas, como sabemos, é a de Haroldo de Campos, que se referia a uma poesia pós-utópica. Embora concorde com vários argumentos que Campos apresenta neste já clássico ensaio, não me agrada o uso prolífico deste diagnóstico – o mundo pós-histórico ou pós-utópico. Esta interpretação é demasiadamente tributária de Francis Fukuyama e muitos intelectuais utilizam-na sem qualquer senso crítico. A acusação de falência das energias utópicas no mundo pós-moderno é uma panacéia que encerra o debate no ponto em que ele deveria começar.

A questão da crise da poesia brasileira atual está ainda em aberto, até que a sombra do espírito se ponha na luz do arrebol e alguém venha dar nome ao nosso tempo, imprimindo-lhe alguma insígnia na qual nos reconheçamos. Até lá, seremos muitos personagens em busca de um autor.

Esta é uma geração que precisa aprender a escrever seus próprios poemas, ainda que seja depois de tudo, pós-tudo. Ainda que sejam mudos.



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notas
[13] A réplica de Siscar a Dohlnikoff a este respeito é magnífica. Ver em revistamododeusar.blogspot.com/2009/04/poetas-beira-de-uma-crise-de-versos-por.html
[14] O texto de Cláudio Daniel é importante, sobretudo, porque elenca um número considerável de novos autores descrevendo as peculiaridades de cada projeto poético desenvolvido.
[15] http://asescolhasafectivas.blogspot.com/2006/11/ninguen-de-ninguem-1-foro-o-que-voc.html
http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2653
http://www.germinaliteratura.com.br/sibila2005_acismadapoesia.htm
[16] Um exemplo é o pequeno artigo de Paulo de Toledo, o qual se apresenta mais como uma provocação do que uma análise propriamente. Cf. http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=1899

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