domingo, 6 de junho de 2010

A crise da poesia brasileira contemporânea - considerações de um leitor cansado [parte 02]

[por Ranieri Ribas]

Publicado originalmente na revista dEsEnrEdoS, número 01, julho 2009










Se há uma crise, sob que aspectos ela se evidencia?

Tenho algumas considerações a respeito, muitas delas peremptórias e polêmicas. Olhando em retrospectiva o imenso debate da poesia brasileira no século XX – seja o modernismo de 1922, seja a geração de 1945, o concretismo, a geração de 1970, e tudo mais que se sucede até hoje -- percebo que algo se perdeu de vista, que estamos alijados da percepção de um fator crucial para o entendimento da poesia brasileira hoje. Perdeu-se de vista o fato de que a poesia é uma forma de manifestação verbal da experiência no mundo. Mais do que um conjunto de técnicas de versificação, espacialização, aliterações, metáforas e modos de projeção da linguagem (em verdade, o domínio de tais técnicas não é mais do que o “dever de casa” de qualquer poeta que se leve a sério) a poesia é uma manifestação da experiência – peculiar, intransferível e idiossincrática – da pessoa. A vida se dispõe numa relação metabólica e simbiótica com os objetos e pessoas do mundo e isto produz a experiência, a biografia.

A experiência, todavia, não está submetida às leis vontade. A experiência nos é dada, estamos dispostos sobre o mundo. Podemos buscar a experiência artificialmente, mas nada assegura que isso dará a quem se aventura uma forma privilegiada de vida ou um superávit de percepção. Por isso, diziam os antigos: Poeta nascitur non fit. Não se fazem poetas em cursos de letras. O poeta é um ser da experiência. Em nossa história literária, percebemos que poetas e críticos foram perdendo de vista o caráter decisivo da experiência na elaboração poética. A poesia seria para nós um experimentum, não uma decantação verbal da experiência pessoal.

O desfecho desta história de abandono e esquecimento é hoje, para nós, trágico. Há uma atmosfera geral de desencanto. Alguns vêem na pluralidade de vozes e estilos um alento, uma possibilidade de renovação. Cláudio Daniel e Luis Dohlnikoff, por exemplo, enfatizam que estamos diante de uma pluralidade poética sem precedentes e que isto, como afirmou Siscar, tem obnubilado a possibilidade de afirmação de critérios incontroversos de avaliação estética acerca do que se tem produzindo no Brasil em matéria de poesia.

Precisamos aqui efetuar um deslocamento do lugar de reflexão sobre estas questões, quais sejam, a pluralidade poética e a ausência de critérios incontroversos de avaliação. Devo dizer que a pluralidade dos modos de criação poético-verbal que ora assistimos é meramente uma aparência, um olhar para a superfície das cousas. Vejo, sim, uma assustadora unidade da experiência privada, pessoal, como se uma forma una de existência regesse o ethos que alenta a escrita da poesia brasileira atual. Os poetas se distinguem pela forma, pela preferência estética, porém, é como se a fala por eles proferida fosse oriunda de uma única forma de experiência da qual são escravos, títeres. A busca neurótica por temas novos, a elaboração formal sem espírito, a imanência rasteira, o olhar fenomenológico e desinteressado sobre os objetos do mundo: tudo isso se nos apresenta como uma repetição enfadonha de experiências iguais. Não se trata aqui de um problema estético, mas de uma questão que toca à experiência existencial de quem produz poesia. Por alguma razão que me é alheia, vivemos a época da falência da experiência da singularidade. Nossos poetas estão estéreis, repetem a si mesmos, desenganam-se em elaborações formais múltiplas porque se sabem impotentes para qualquer exercício de alteridade. O que aflige a poesia brasileira hoje é a sua radical unidade da experiência: poetas radicados em incubadoras urbanas, acadêmicos, alunos de letras, homens e mulheres de classe média, comodidade, narcisismo, hedonismo. Experiências humanas padronizadas[8].

Em um destes textos que avaliam a questão, Beatriz Bajo, seguindo a voga pós-modernista, afirma que a poesia brasileira hoje se situa no “sem-lugar”. Mas acredito que nossa poesia tenha sim um lugar hoje: “o lugar-comum”. Este seria, também, o fator causal primário que levaria a este tipo de poesia mediana (como a denominou Dohlnikoff), isto é, uma poesia desprovida de inflexão pública (como apontarei a seguir), na qual o jogo verbal parece ser a única virtude que pode um bom poeta ter. Dohlnikoff[9], ao afirmar que há certa “perplexidade fragmentária contemporânea” obnubilando a potência metonímica do eu-lírico dos poetas, tem toda razão, mas este fenômeno do “eu lírico apequenado” é apenas um efeito da falência da experiência na elaboração poética[10].

Como a experiência está fora do jogo, os debatedores se perdem na superfície da questão. E para ser cético, embora não queira ser, considero esta uma questão sem solução. Só nos resta esperar por Godot.

Uma segunda consideração acerca da poesia brasileira hoje tem um caráter mais substantivo, e eu diria até, mais normativo. O fato é que há uma completa ausência de inflexão pública na poesia brasileira atual. Denomino “inflexão pública” toda poesia que possa ser testemunho ou porta-voz de um ethos, uma poesia que ultrapasse a esfera do íntimo, do privado, do conforto doméstico. Uma poesia que não esteja submersa e cega pela escuridão narcísica do cotidiano, pela egolatria da percepção. Mesmo os bons poetas de hoje são surdos e mudos para qualquer tema que exija inflexão pública. Quando afirmo isso não quero designar qualquer compromisso ideológico esquerdista ou direitista. Esta visão é reducionista. Impor obrigações políticas a um poeta é estupidez. Eu me refiro à potência de testemunhar, ser um porta-voz privilegiado do espírito do tempo, ser o gênio guardião do tempo – genius seculi – porque esta é força maior do poeta, mesmo quando sua inflexão é lírica, não-épica. Quem lê, por exemplo, Drummond, através do enfoque da politização esquerda/direita, não pode compreender que ali se encerra um testemunho do espírito epocal. E isso vale para Celan, Pound, Eliot, Cabral, Gerardo, Jorge de Lima.

Quem é o poeta da poesia brasileira contemporânea nascido depois de 1960 que pode ocupar este lugar? Há alguns poetas que se voltam para temas como “problemas urbanos”, “violência urbana”, temas multiculturais de “minorias” étnicas, feminismo, etc. Mas isso é modismo acadêmico. Isto é “poesia social”, ou seja, é um subproduto mal-compreendido da poesia de inflexão pública. Um exemplo do equívoco que é o rótulo “poesia social” – isto é, um exemplo do modo como ele frauda a compreensão poética – é-nos dado pela recepção do poema-dramático Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Trata-se de um Auto de Natal, e por sê-lo está vinculado a uma tradição poético-católica multissecular. Esta tradição sempre manifestou uma forte presença em autores nordestinos, sobretudo alguns escritores, poetas e dramaturgos paraibanos e pernambucanos. É a partir desta tradição que surge a obra de Ariano Suassuna e do próprio Movimento Armorial. Não obstante, o Auto de Cabral fora lido pela esquerda brasileira como “poesia social” ou “poesia de denúncia”. Para os concretistas esta peça era a de mais baixa tensão poética na obra cabralina. Ambas as avaliações – uma de teor substantivista, a outra de teor formalista – julgaram a peça por aquilo que ela não é. Eis um exemplo do que a miopia teórica pode fazer.

Numa outra perspectiva, mais ainda tratando a questão da inflexão pública na poesia, temos o exemplo da poética de Paul Celan. Quando Celan fala, ele se remete a um espírito do qual é porta-voz. O problema do testemunho acerca do inefável, o inenarrável, não é uma denúncia de Auschwitz: trata-se da evoção de uma experiência e sua (im)possibilidade de declinação. Como experiência, a voz de Celan é uma metonímia dos que compartilharam daquele evento. Ora, esse conjunto de forças expressivas não pode ser subsumido em qualquer rótulo acadêmico de interpretação.

Não precisamos ir longe para saber com Heidegger e Hannah Arendt que os “temas sociais” na filosofia e na arte são resultado de uma invasão das demandas da esfera da vida privada em direção ao mundo público. Não quero com esta consideração sair em busca de um Homero hodierno para a poesia brasileira, mas o fato é que nada que se extravie da subjetividade ególotra tem importância para nossos poetas contemporâneos.

A poesia brasileira contemporânea é, por essa razão, demasiadamente burguesa. Quando me refiro ao termo “burguês” não quero com ele designar aquele conjunto de anátemas próprias do discurso marxista ortodoxo. Burguês aqui designa uma Ética, uma weltchauungen (visão-de-mundo), e esta visão se caracteriza pelo culto ao mundo privado (sobretudo a privacidade do cotidiano), pelo privilégio narcísico do “eu” em detrimento do “nós”, pela hipervalorização da individualidade e suas idiossincrasias, pelo culto do hedonismo fútil. Uma poética da intransitividade formal e da egolatria.

Este poeta burguês não pode falar em nome de ninguém. Por isto, só lhe resta a exibição rastaqüera de erudição gratuita, a descrição fenomenológica de cotidianos vazios. Não há peripécias, só introspecção narcísica. Não há história, só reminiscências. Este filisteísmo lírico é, portanto, um olhar para si mesmo e dizer-se como se o eu fosse tudo que há.

Não podemos chamar essa inflexão burguesa de “romântica” porque na tradição romântica há um substrato público que é o horizonte utópico que guia o subjetivismo do poeta. Este horizonte é a idéia de pátria. O romantismo é uma manifestação rediviva do ocasionalismo medieval, como bem percebera Carl Schmitt, e por ser ocasionalista, a estética e a filosofia romântica adquirem um caráter público que não caberia na enfermidade radicalmente burguesa que aflige a poesia brasileira hoje. Trata-se de uma poesia sem utopias, sem um horizonte que exceda a vivência de quem a redige.

Quando perguntaram a Cabral qual o maior elogio que sua poesia já recebera, ele afirmou ser uma crítica de Mário Faustino: “na poesia do Senhor João Cabral de Melo Neto há geografia, há física, há história” (cito de memória). Esta confissão cabralina, vinda de um poeta que tentou jamais se confessar através dos versos, revela que Cabral se orgulhava do caráter público de sua poesia. A poética de inflexão pública é o testemunho mais autêntico de um tempo e de um povo.

Uma terceira consideração que me ocorre – e aqui irei me repetir – diz respeito à barbárie daquele já mencionado submundo de autopromoção poética, ou seja, o mercado poético. Esta barbárie tornou não apenas fragmentária a comunidade poética como a fez fraudulenta[11] na sua capacidade de reflexão honesta acerca de autores “inimigos”. Sabemos que, desde as vanguardas, a arte tornou-se um experimentum, um artifício no qual os dispositivos teóricos de confecção poética – as bulas – passaram a ter precedência sobre as obras em si. Esta relação invertida entre teoria e arte gerou uma proliferação de experimentos[12]. Embora seja um fenômeno ordinário na história da arte no século XX, a proliferação de grupos e “igrejas poéticas” entre nós tornou-se distinta porque aqui testemunhamos a uma espécie de feudalização autofágica dos grupos. Estaríamos diante de múltiplas súcias endogâmicas, cada qual com suas revistas, suas editoras, seus dogmas estéticos, seu cânone, sua “poética”. Os autores se reverenciam mutuamente num cross-game de entrevistas e citações, produzem para si mesmos artifícios de celebridade.



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notas
[6] Embora se vejam como gênios ou seres especiais, os poetas são, antes de tudo, pessoas. Emprego o termo pessoa em consonância com certa tradição teológica: segundo esta, pessoa denota alguém cuja existência se constitui numa dada biografia, alguém que é protagonista de uma vida que se autoprojeta no mundo e cujas decisões se configuram em torno de outras pessoas que a cercam. A relação dialógica entre pessoas se dá sempre segundo a necessidade interativa e afetiva, e, conseqüentemente, as formas de interação se desdobram em múltiplas decisões que devem ser tomadas em cada percurso biográfico. A isto dá-se o nome de experiência: a continuidade das decisões biográficas que formam o caráter e o senso de responsabilidade da pessoa. A pessoa o é, e se realiza, em suas idiossincrasias, porém ela deve aprender a negociar suas decisões com o outro. Cada pessoa é um singular, mas não um mônada. à medida que as experiências se repetem entre pessoas, isto produz certa regularidade das formas de expressão diante da vida, aproximando-as segundo as formas de identidade intersubjetivamente compartilhadas. Estas formas se cristalizam como concepções de mundo, ou seja, como projeções do espírito na experiência compartilhada.
[7] A deliberada recusa da experiência como elemento crucial à criação poética na tradição crítica e pedagógica brasileira pode ser interpretada como uma forma refratária de subsistência do nosso positivismo cego e radical. Esta herança positivista se incrusta tanto nas reflexões críticas posteriores a 1922 quanto na vertente mallarmaico-poundiana do concretismo.
[8] Este argumento que ora apresento é nitidamente de origem diltheyseana. Cf. Wilhelm Dilthey, Poetry and Experience. Seleção de textos de Rudolf A. Makkreel e Frithjof Rodi. A introdução de Donald Levine ao seu Visões da tradição sociológica também me alimentou com longínquas idéias acerca da fragmentação da experiência no mundo contemporâneo.
[9] Segundo Dohlnikoff [...] “Grande parte dos poemas” está “na primeira pessoa do singular. Mas como esse eu, na perplexidade fragmentária contemporânea, não pode ser uma metonímia de um nós, assim como o foi em poetas tão distintos como Rimbaud, Baudelaire, Pessoa e Drummond, é um eu lírico apequenado”. Este argumento possui também, assim em Bajo, uma forte inclinação pós-modernista na interpretação do sujeito.
[10] Um diagnóstico semelhante ao que postulo aqui em matéria de poesia brasileira é aquele esposado por Alex Castro em seu polêmico ensaio sobre a escola urbana no romance brasileiro dos últimos 30 anos. Castro enfatiza a repetição enfadonha de lugares-comuns no romance atual (protagonistas apáticos, comportamento auto-destrutivo, falta de enredo, mulheres objetos, etc). O problema da repetição na poesia brasileira, bem como no romance brasileiro atual, tem, como podemos ora deduzir, um mesmo fundamento: o déficit da experiência, ou a padronização desta. Conferir em http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/urbana1.htm
[11] Um das manifestações do caráter fraudulento se dá pela imposição de certa geografia da consagração. Poetas como Nauro Machado e Max Martins jamais tiveram sua grandeza plenamente reconhecida porque preferiram ficar em São Luís do Maranhão e em Belém do Pará. Há casos mais críticos, como o de Hindemburgo Dobal (H. Dobal) do Piauí e Zila Mamede do Rio Grande do Norte, que jamais foram sequer mencionados, à exceção de críticos como Wilson Martins e Ivan Junqueira. A geografia da consagração é perversa não apenas porque reduz o horizonte de percepção da crítica, mas porque destitui do lugar soberano os critérios de avaliação relativos a excelência do poeta em favor de critérios relativos a origem deste. No Brasil, para ser um grande poeta, é preciso ter nascido ou vivido no Rio de Janeiro ou em São Paulo.
[12] Na poesia brasileira atual, como exemplo desse fenômeno, temos os neo-surrealistas, os herdeiros do setentismo, os herdeiros do concretismo, os neo-conservadores, os herdeiros da poesia práxis, etc.

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