quinta-feira, 27 de maio de 2010

[as cores naturais]

[adriano lobão aragão]




I
de uma árvore nem sempre
se percebe suas cores
como não se vê a cor da fome
ao comer uma fruta
ou ao fechar os olhos
de agonia

de uma árvore nem sempre
se percebe suas cores
quando nem frutos nem flores
nem folhas se fazem vivos
para perceber a cor
da vida

de uma árvore nem sempre
se percebe suas cores
quando nada mais se pode
extrair de vivo
e a inutilidade da morte
de uma árvore grita em silêncio
sua podridão



II
a cor de uma folha de papel
não é a cor da folha de uma árvore
nem a cor de uma folha morta
nem a cor de uma planta morta
nem a cor da morte

a cor de uma folha de papel
perde-se se nela se imprime
a tinta de qualquer coisa viva
como uma palavra esquecida
ou uma lâmina
que sangra as folhas
de uma árvore morta
de verbos e signos

a cor de uma folha de papel
não se imprime na ausência de uma árvore
ou na ausência de uma palavra
perdida nesse caminho
onde a vida em preto e branco
é mais antiga e nem por isso incolor
como um retrato antigo
reduzido em dois tons

a cor de uma folha de papel
é o que se imprime no corpo
dessa árvore sem vida
como um truque de mágico de circo
que não ressuscita mas encanta
certos olhos certos verbos certos signos



III
o que se vê de uma árvore
são seus gestos de folhas
não suas raízes que vivas ou mortas
não podemos distinguir
pois só a terra conhece seus defuntos

o que se vê de uma árvore
são seus gestos de folhas
o verde de suas folhas
e suas outras cores
como quem pinta
cada cena de sua vida

o que se vê de uma árvore
mesmo morta são as cores
que um artista reimprime
em sua casca adormecida
devolvendo à vida seus pertences


[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, 2005]

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