segunda-feira, 22 de março de 2010

Parabélum de Enéas Barros

[por Dílson Lages Monteiro]


Enéas Barros é uma das gratas revelações da literatura piauiense dos últimos anos. Tem produzido sem interrupções, estabelecendo liames entre história e literatura. Fazendo do texto, além de componente estético, o que não se pode negar em sua prosa de ficção, propôs-se a mergulhar pelo prisma da literatura, entre temas vários de relevância social, no que ficou sem respostas em um dos episódios mais cruéis registrados na memória coletiva do Piauí, o assassinato do motorista Gregório, na década de 20 do século passado.

Mergulhando em documentos e na memória oral, que reconstruíram os passos de Gregório e de seus algozes, Enéas refaz, em seu Parabélum, o tecido social do Piauí, e mais particularmente de Barras, nas primeiras décadas do século XX. O dia a dia de uma cidade sem grandes novidades que não os banhos no marataoã e a recreação de um povo festivo, que não a chegada de um automóvel e todos os desdobramentos reais e simbólicos advindos do inesperado atropelamento de uma criança. Porém, o escritor vai além da história em si, para ingressar precisamente na literatura ao construir, por exemplo, o perfil de personagens como Gregório, Monsenhor Lidolfo, Rosalice, Floretino, Severão, Maria Teresa e, com efeito, possibilitar reflexões sobre as relações de poder, sobretudo.

Gregório é o indefeso, incapaz de esboçar qualquer reação, a fim de atenuar o drama que vive. È o motorista habilidoso, servil, interessado apenas em cumprir o que a ele compete. Monsenhor Lindolfo, o padre que tenta evitar a injustiça, no que é seguido por Arimathéa Tito. Rosalice, a amante, numa sociedade em que era trivial “o homem de muitas mulheres”. Maria Teresa a namorada que sonha com o dia de amanhã. Floretino e Severão, perversos em sua condição de poder. Emocionam não somente pelas ações que vivem na condição que lhes é atribuída na narrativa, mas principalmente pela inserção deles em descrições dinâmicas e verossímeis dos espaços, originárias de sugestões que tocam a imaginação.

Nesse particular, o texto é límpido, linguagem leve e fluente, sem hermetismos de falsos arroubos vanguardistas ou de modismos literários: “Julho de 1927. As águas de março foram deixadas para trás. Com o final das festas juninas, renascia o verão plenamente abastecido da fartura que as chuvas irrigaram. A feira de Barras apresentava uma grande variedade de frutas e hortaliças, vindas de todos os rincões(...)”.

A isso se acrescente que Enéas é um típico contador de histórias. Interessa ao narrador principalmente construir os desdobramentos dos plots, para manter em suspense a atenção do leitor. Ele, a propósito, enfatiza isso em entrevista ao Portal Entretextos: “(...) Há um estilo que me acompanha, que me facilita escrever. Veja que o primeiro capítulo chama a atenção para a fuga do tenente, que ocorreu em 1928, quase oito meses após o assassinato. Esse capítulo ajuda a gerar uma expectativa no leitor. Os capítulos seguintes são fatos isolados que se cruzarão num momento futuro, para dar uma dinâmica à trama e levar à prisão e ao julgamento do assassino. Esse sistema de condução da narrativa prende o leitor, tornando a leitura agradável."

Por essas razões, leio e releio Parabélum. Leio e releio como o faço com textos que despertam o diálogo com a memória coletiva e fazem do próprio enredo um exercício de metalinguagem, a fim de superar a história pela força que somente a literatura é capaz de gerar.



publicado originalmente no Portal Entretextos

Um comentário:

Augusto Sampaio Angelim disse...

Acabei de ler o livro. Li numa estirada. Muito bom. Parabéns ao autor.