sexta-feira, 26 de março de 2010

H. Dobal




O texto a seguir foi publicado originalmente em Poesia.Net, em junho de 2008.


Caros amigos,

Esta é a segunda vez que o poeta piauiense H. Dobal é destacado neste boletim. A primeira vez foi em agosto de 2004, na edição n. 82. Agora, infelizmente, como uma homenagem de despedida. O poeta calou sua voz no dia 22 de maio, em Teresina, sua terra natal.

Nascido em 1927, Hindemburgo Dobal Teixeira foi advogado e funcionário público. Residiu em Brasília, Londres, Berlim. Estreou em 1966, com o livro O Tempo Conseqüente, prefaciado por Manuel Bandeira, que já havia incluído poemas de Dobal em sua Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, de 1964.

Se até aquele momento H. Dobal podia ser classificado como bissexto, logo abandonou a categoria, pois produziu sete outras coletâneas de poemas: O Dia sem Presságios (1970); A Província Deserta (1974); A Serra das Confusões (1978); A Cidade Substituída (1978); Os Signos e as Siglas (1987); Cantiga de Folhas (1989); Ephemera (1995). O autor também publicou um livro de viagens, um de contos e dois de crônicas. Em 2005, saiu uma poesia reunida do autor, em edição da Oficina da Palavra, de Teresina, que — lamentavelmente — não se encontra nas livrarias.

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Ambientada na paisagem árida do sertão ou na cidade igualmente áspera ("com sua couraça de vidro, sua indiferença de mármore"), a poesia de H. Dobal trata, antes de tudo, da solidão essencial do ser humano. Não por acaso, o poeta diz que a cidade se movimenta no "suado compasso das solidões justapostas".

Tendo como pano de fundo essa solidão essencial, Dobal considera a passagem do tempo e, partindo dela, procede em seus poemas a um reiterado balanço de perdas e danos existenciais. Os amores que se vão, os artifícios para prolongar a vida e — apesar de tudo — a inevitabilidade do fim. E a solidão. Os campos calcinados. O sol. As cores do crepúsculo.

Outro aspecto que merece atenção na obra de H. Dobal é o elevado nível de concretude das palavras. Poeta substantivo, ele usa os seres e objetos ao alcance dos sentidos para expressar idéias e sentimentos. São sensações reais, angulosas, quase palpáveis. Veja-se, por exemplo, o fecho do poema "Crepúsculo": "Um sol poente / celebra o suicídio da tarde". Todas as sensações provocadas pelo pôr-do-sol nos são projetadas por essas palavras. Nenhuma prestidigitação, nenhum efeito pirotécnico. E tudo está dito. Ou melhor, sentido.

O poema "Lamentação de Pieter van der Ley no Outeiro da Cruz", que fecha a pequena seleta ao lado, merece registro especial. Integrante do volume A Cidade Substituída, esse texto faz referência ao período da invasão holandesa no Maranhão (1641-1644). O Outeiro da Cruz é o lugar, em São Luís, onde se travaram as batalhas nas quais os portugueses expulsaram os holandeses do Maranhão. A cidade substituída é a própria São Luís, onde Dobal trabalhou durante algum tempo.

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Para este boletim, selecionei poemas de H. Dobal contidos em Gleba de Ausentes – Uma Antologia Provisória, volume publicado em 2002 pela Corisco, uma editora de Teresina, também de alcance apenas local. Tenho um exemplar desse livro porque o garimpei num sebo. Mas, desafortunadamente (exceto no Piauí), a obra de Dobal não se encontra nas livrarias, nem nas escolas.

Com o passamento de H. Dobal, os piauienses perdem seu mais querido poeta. E o Brasil amplia sua dívida para com os bons poetas que habitam fora do eixo de interesse das editoras, da mídia e dos negócios de entretenimento.

Repito aqui o que já escrevi no primeiro boletim sobre a poesia dobalina. É estranho e injusto termos um poeta dessa magnitude relegado ao conhecimento quase exclusivo de seu Estado natal.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

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