quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

os tempos e a forma

[adriano lobão aragão]

I
quando sair da água
estenda suas brânquias
pelo seu itinerário

quando voltar para água
deixe suas brânquias
em seus antepassados

recolha suas patas
como as patas das baleias
perdidas dentro de si



II
para voar asas
o céu é das baratas
por direito
mas nem os pterossauros
nem as aves
puderam perceber isso

restou para a história da aviação
o direito de posse



III
não se aprende
a longevidade dos anos
nem
a brevidade da vida
nos fósseis
arrastados entre os carros e o concreto
sim se aprende
a longevidade dos anos
bem
a brevidade da vida
nos fósseis
elevados de João Cabral a Gregório de Matos



IV
enquanto recolhia restos de plantas
foi de se perceber
o fóssil e o lixo

isso enquanto
passarinhos gorjeavam
depois que a revoada
de archeopterix passou

esse ponto quase sempre
passa despercebido
num carbonífero de lixo e fóssil



V
sendo pedra e osso
o caminho da espécie
ser osso e pedra
pra fazer parte do caminho

sendo a pedra matéria
prima para sobrevivência
ser lápide como
ossos navegando o oceano

sendo que deste oceano
restam apenas ossos e pedras



VI
quando as águas
invadiram esta terra
e um oceano pôde unir-se ao outro
nós navegantes do acaso
pudemos ver o horizonte mover-se
e enormes escorpiões voltarem ao mar
de onde tudo saiu


[in Poetas do Brasil 2000, 1997]

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