terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Led Zeppelin



Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra
[por Adriano Lobão Aragão]


Em entrevista concedida em 1973, Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, declarava que: “estava na hora de as pessoas ouvirem outras coisas a nosso respeito, e que não comíamos as mulheres e atirávamos os ossos pelas janelas”. (p. 330) Em suas 527 páginas, a biografia Led Zeppelin – Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra (Larousse, 2009, tradução de Elvira Serapicos), escrita por Mick Wall, pretendeu trazer à tona muitas “outras coisas” a respeito da banda; mas em se tratando do Led Zeppelin, seria impossível não permear o extremo hedonismo em que viviam fora dos palcos, a despeito do comentário de Plant. Mas para quem imaginar que o livro de Wall limita-se a uma série de episódios insólitos vividos por uma banda de rock que chegou ao limite de fama e dinheiro, é preciso acrescentar que o autor conseguiu ir além, compondo um retrato bastante franco de seus protagonistas, sua contribuição para a história do rock and roll e da cultura de massa do século XX, seu profundo impacto e influência na indústria do entretenimento, e as costumeiras polêmicas de plágio e ocultismo que acompanharam a trajetória da banda do guitarrista Jimmy Page.

As estripulias do Led Zeppelin nas turnês revelam-se as mesmas que diversas outras bandas promoveram, ainda que permeadas pelo exagero que sempre os caracterizou, como o grotesco episódio ocorrido na terceira turnê americana, em 1969, no hotel Edgewater Inn, em Seattle, quando uma groupie de 17 anos disse que gostava de ser amarrada e terminou com o nariz comprido de um peixe vermelho introduzido na vagina e a cabeça de um mud shark em seu ânus. O episódio transformou-se na canção “The Mud Shark”, que Frank Zappa lançou em seu álbum ao vivo de 1971, Fillmore East. Como diria o baixista John Paul Jones, “a turnê transforma você em uma pessoa diferente. Percebo isso quando volto para casa. Levo semanas para me recuperar depois de passar tanto tempo vivendo como um animal.” (p. 170) É conveniente lembrar que Jones é, incontestavelmente, o mais tranquilo e discreto membro do Led, e no auge da popularidade e hedonismo do Zeppelin, cogitou seriamente a possibilidade de deixar a banda, incomodado com o exagerado ritmo de trabalho e confusões. Curiosamente, parece que o baixista foi o único a escapar da série de tragédias que acompanhou a banda em seus últimos momentos, como se estivessem vivenciando uma maldição, o outro lado de sua meteórica ascensão.

O perfil pessoal da banda já poderia ser visto em seus primeiros dias, quando a jornalista Ellen Sander, da revista Life, acompanhou parte da segunda turnê americana, ainda em 1969 (embora preferisse estar com o The Who, banda bem mais famosa na época, também em turnê nos Estados Unidos naquele mesmo momento). “Page era ‘etéreo, efeminado, pálido e frágil’. Plant era ‘bonito de uma forma agressivamente obscena’. Bonzo ‘tocava bateria com fúria, quase sempre sem camisa e suado, como um gorila enfurecido’. Jones era o que ‘unia as coisas e ficava nas sombras’.”(p. 174) Ao final da turnê, vítima de uma agressão que poderia ter ser transformado em estupro, promovida pelo baterista John ‘Bonzo’ Bonham e alguns roadies, a jornalista foi salva pelo empresário Peter Grant e a matéria para a revista Life jamais seria publicada. No início de carreira, seria essa mais uma das diversas oportunidades de publicidade em larga escala perdida pela banda. Posteriormente, Ellen Sander escreveria sobre o incidente em seu livro, Trips: “Se você entra nas jaulas do zoológico, consegue ver os animais bem de perto, passar a mão no pelo e sentir a energia por trás da mística. Também sente o cheiro de merda bem de perto”. (p.175) Era 1969 e, ao longo da década seguinte, com o crescente sucesso e fortuna do Led Zeppelin, os excessos apenas aumentariam. E em relação a John, acrescente-se que “o baterista parecia ter dois lados: Bonham, o homem de família amoroso, generoso, que detestava estar longe de casa; e Bonzo, o bêbado, maluco e drogado que descarregava suas frustrações em quem estivesse na sua frente no momento. Uma espécie de Jekyll e Hyde, cuja personalidade se dividia mais depressa quando ele bebia.”(p. 340)

Entretanto, a relevância, tanto do livro quanto da banda, pode ser compreendida a partir de um depoimento de Mick Wall: “o Zeppelin ajudou a escrever o livro de regras do rock – o que você pode fazer: ser sempre colorido e inventivo, sempre ousando e usando seu talento elevado à máxima potência; e o que você não pode: as drogas não são uma ferramenta criativa, mas são uma força negativa de auto-destruição, por isso não se deve esperar até que seja tarde demais para perceber isso”.

O interesse de Jimmy pelo ocultismo revela-se um ingrediente essencial para a alquimia musical do Led Zeppelin. E neste ponto, o mergulho em forças ocultas do Led é muito mais orgânico e visceral que o trabalho de bandas como Black Sabbath e Iron Maiden, que vendiam uma imagem abertamente macabra, enquanto Jimmy imergia sua banda em elementos simbólicos da magia e do ocultismo, universos que, ao que parece, encara com ainda mais seriedade que sua própria música. Talvez, para ele, sejam até a mesma coisa; embora, no início dos anos 80, Jimmy estivesse mergulhado em heroína e consumido pela sua própria criação. O fato é que o misticismo do Led Zeppelin nunca foi teatral, mercadológico, mas ritualístico, e isso custou a eles diversas acusações de satanismo, incluindo a famosa controvérsia sobre tocar “Stairway to Heaven” ao contrário. Segundo Robert Plant, “você não encontra nada se tocar a música de trás para a frente. Eu sei, porque tentei. Não há nada lá... É tudo bobagem, essa coisa demônio, mas, quanto menos você dizia para as pessoas, mais elas especulavam”. (p.315) E segundo Page, “existe muita coisa subliminar ali. [Todos os álbuns] foram reunidos, há muita coisa deles – coisas pequenas que você não pega de primeira, às vezes até por muito tempo. Mas, quanto mais você presta atenção, mais você pega. E a ideia era mesmo essa, e isso é bom”. (p.313)

O voo do Led Zeppelin também se tornou essencial para diversas transformações nas relações empresariais do showbusiness, empreendidas sobretudo pelo seu obstinado e violento empresário, Peter Grant. Assim como o talento excepcional de Jimmy como músico e produtor, o carisma de Robert Plant, a agressividade de John Bonham e a eficiência discreta e exata de John Paul Jones, a presença de Grant garantiu ao Zeppelin as condições necessárias para que a ideia de Page em continuar um trabalho iniciado com os Yardbirds, então em processo de dissolução, pudesse ir muito além dos horizontes almejados.

Segundo Jimmy Page, cada álbum do Led Zeppelin deveria expressar o ponto em que estavam naquele momento. Assim, da urgência do primeiro disco e da ambientação folk de Led Zeppelin III ao depressivo Presence e o inconsistente In Through the out door, o livro de Mick Wall desvenda justamente as circunstâncias que definiram a musicalidade de cada faceta da banda, e torna-se mais interessante se a leitura for acompanhada pela audição dos respectivos discos.

Os plágios, releituras e apropriações indébitas, sua difícil relação com críticos e jornalistas (“Nada do que fazíamos agradava”, desabafa Page. p. 298), polêmicas que sempre acompanharam o Led Zeppelin também foram abordados por Wall, elucidando as fontes, honestas ou não, de diversos trabalhos, e como Jimmy Page recriava qualquer sonoridade que lhe consumisse a atenção, da canção de Jake Holmes, “Dazed and Confused”, que até hoje é indevidamente creditada a Page (e tida como um de seus principais hinos), a “When the Levee Breaks” (que embora fosse creditada originalmente como uma música de autoria do Led Zeppelin, tratava-se de uma releitura de uma antiga canção de ‘Memphis’ Minie e ‘Kansas’ Joe McCoy), com sua monumental bateria, um dos momentos mais grandiosos de John Bohnam, muito mais influente que em seu tradicional solo, “Moby Dick”. Definitivamente, a originalidade do Led não estava em suas composições, mas na intensidade com que as executavam; e justamente por isso, é este o seu principal legado.

3 comentários:

Mara Vanessa disse...

EXCELENTE!

Um dos melhores reviews que já li sobre biografias zeppelinianas. :)

Parabéns!

Adriano Lobão Aragão disse...

Valeu, Mara. A leitura foi inspiradora.

Lucas Felipe disse...

Valeu, professor! Sem dúvidas um grande esclarecimento a respeito dos formidáveis. Não conhecia tal biografia.