quinta-feira, 1 de outubro de 2009

“Sou exigente como leitor, como escritor e principalmente como editor”


7.ª pergunta para KENARD KRUEL


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série A/2009
Francisco José
Maria Clara Silva
Ulhiana Lopes
Rodrigo Holanda
Luis Felipe



Kenard Kruel nasceu em São Luís (MA). Bacharel em Direito, Licenciado em Letras Português e Inglês, presidente do Sindicato dos escritores do Piauí e da Associação Piauiense de Imprensa. É autor dos livros Torquato Neto ou a Carne seca é Servida (2001), Gonçalo Cavalcanti - o intelectual e sua época (2005), Djalma Veloso - o político e sua época (2006) e O. G. Rêgo de Carvalho - Fortuna Crítica (2007). Edita o blog Kenard Kaverna.


Qual dos seus trabalhos foi o mais relevante e o que mais lhe marcou?
A publicação do livro Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida, lançado no dia 14 de março de 2008, no Espaço Cultural do Nova Brisa, na Avenida Presidente Kennedy. Fruto de 30 anos de pesquisa. Dividi o livro da seguinte maneira: 1) dados biográficos; 2) antologia poética (do primeiro ao último poema de Torquato Neto, inclusive dando publicidade aos dois livros inéditos que ele deixou: O fato e a coisa e Pesinho pra dentro, pesinho pra fora); 3) fortuna crítica, além de um texto quase inédito sobre a cultura popular, publicado precariamente no jornal O Dia, em 1964, e cartas para alguns amigos, entre eles a cantora, compositora, jornalista Lena Rios, e o empresário musical Magalhães (dos Cartolas). Já está com a segunda edição quase esgotada. Foi revista e ampliada, em breve saindo a terceira edição.

O que o influenciou a seguir esta carreira de escritor e editor?
O meu pai (Antônio de Sousa Santos) gostava muito de ler. Ele se deitava numa rede com vários livros ao chão e passava o dia lendo, ouvindo música (Martinho da Vila era o seu cantor preferido). Meu pai faleceu em 1984, deixando este legado para mim. De ser um grande leitor. Aos 10 anos de idade, passei a freqüentar o jornal Folha do Litoral, em Parnaíba. Limpava o chão e os tipos do jornal. Ficava admirado quando alguém chegava com um texto para ser publicado. Mais ainda quando alguém se sentava à maquina e ali mesmo produzia o seu texto. Decidi que seria jornalista. Passei a escrever. E a importunar o pessoal do jornal para publicar o que eu escrevia. Tudo era jogado na sexta página. Até que um dia, abri o jornal e vi meu nome lá. Orgulhoso, fundei o meu próprio jornal – Batalha do Estudante, com a cumplicidade do seu Vicente Correia, que me emprestava a máquina de escrever, e da Cora (esposa do conselheiro Olavo Rebelo), que me dava o papel, o stencil e permitia que eu utilizasse o mimeógrafo do Colégio Estadual Lima Rebelo, onde eu estudava e ela era secretária. De jornalista para escritor, foi um pulo. Como escritor, eu me inspirei no poeta José Elmar de Melo Carvalho, quando este trabalhava nos Correios, em Parnaíba. Eu o visitava todos os dias. Ele, entre uma carta e outra, que ia colocando no escaninho, ia me limando na arte poética. Generoso, me passava livros, corrigia meus poemas, me honrava com recitais exclusivos. Com ele e mais o poeta Paulo Couto publiquei o meu primeiro livro (de poemas) – Em Três Tempos (1979), com capa do Vilson, impresso em Teresina, na Comepi. Atualmente minha área de atuação é mais biografia e pesquisa no campo histórico. Quanto a ser editor, o meu guru é o professor, livreiro e editor Cineas Santos. Uma frase dele me marcou profundamente: mostramos o nosso amor por um escritor, lendo-o, e, mais ainda, editando-o. Não me lembro das palavras exatas, no momento, mas o sentido é este. Seguindo os seus passos, criei a editora Zodíaco, que já lançou aos ventos da publicidade escritores locais, nacionais e até do exterior. Como não tenho obrigação com o lucro, edito quem eu acho que merece. E até agora tenho acertado nas minhas escolhas. Sou exigente como leitor, como escritor e principalmente como editor.

É difícil encontrar público leitor no Piauí?
Eu tinha esta visão até ser nomeado diretor da Biblioteca Pública Estadual Des. Cromwell de Carvalho (10 de dezembro de 2001 a 7 de março de 2002), no segundo governo Hugo Napoleão. Apesar da Biblioteca Des. Cromwell de Carvalho ser muito carente de livros (os existentes são por demais desatualizados, em se tratando da área didática), a freqüência ali é muito grande. E poderia ser melhor se o acervo fosse atualizado e o espaço oferecesse conforto. Como ser diretor da Biblioteca Des. Cromwell de Carvalho é ser diretor também do Sistema de Bibliotecas Públicas do Estado, passei a visitar as demais bibliotecas. Todas lotadas, todas as horas do dia. Antes, quando eu fui coordenador do Projeto Petrônio Portella, da Fundação Cultural do Piauí, idealizei o Projeto Livro nas Escolas, indo de escola em escola com livros de autores piauienses e outros. Sucesso total. Fui a Fortaleza, São Luís e Brasília. O Projeto Livro nas Escolas foi bastante premiado. Além de livros, mostrava dança, cinema, teatro, artes plásticas, entre outras manifestações artísticas e culturais. Percebi, assim, que temos público leitor, e exigente. O que falta é a realização de mais projetos voltados para o estímulo da leitura. Atualmente. Não temos isso.

Você acredita que a televisão atual e os video-games alienam a mente das pessoas?
Tudo que estimula o cérebro é bom. Infelizmente, a televisão brasileira, no geral, é da pior qualidade, em sua programação. Temos que sair catando um programa ou outro. Atualmente, o meu canal preferido é o 16, da Assembléia Legislativa. Deveria ser o 2, da TV Cultura. Mas, esse é como orelha de freira. Ninguém vê. Não tem nada na grade dele que me agrade, por exemplo. O Rodrigo Ferraz ainda não mostrou a que veio, depois de quase sete anos ou mais na direção da TV Cultura. Parece que não tem vida inteligente ali dentro. Quem achou que a TV Assembléia seria um saco, como eu, por exemplo, se enganou redondinho. Que bom. A televisão brasileira, por exemplo, é uma ilha repleta de urubus: se banqueteiam de carniça. Só há divulgação para assassinatos, estupros, sequetros, politiquices, catástrofes, Raramente há a divulgação de um lançamento de um livro, de um show, de uma peça de teatro, de uma dança, de um cientista recebendo prêmio por sua descoberta. Infelizmente, um imbecil disse que o que dá ponto no ibope é droga, sexo e sangue. E haja baixaria na TV brasileira! Os video-games fazem a meninada fluir mais em seu raciocínio. Eu mesmo, de quando em quando, me pego com um ou outro. Os pais, mais uma vez, neste momento, poderiam ajudar a separar o joio do trigo. Tanto no uso da televisão quanto no uso dos video-games. Tudo tem dois lados.

Você já se arrependeu de publicar alguma matéria? Se sim, poderia comentá-la?
De várias. Todas que eu, deliberadamente, ofendi as pessoas. Eu era um jornalista implacável. Uma por exemplo: comentando um livro do professor A. Tito Filho, passei a atacá-lo, de forma impiedosa, por meio de suas filhas. Eu não podia admitir que um cultor da língua portuguesa, como ele, registrasse suas filhas com nome das estrelas do filme E o Vento Levou. As filhas do saudoso mestre levam O'Hara em seus nomes. Ele foi à redação do Jornal da Manhã, chorou na minha sala, e disse que eu poderia atacá-lo sempre, mas que deixasse sua família fora dos nossos assuntos. Ver o professor A. Tito Filho chorar me tocou muito. Passei a amá-lo. Passei a freqüentar mais a Academia Piauiense de Letras. Tornei-me amigo de sua esposa, dona Delci, e de suas filhas. Amizade esta que ainda se faz muito presente em meu coração. Realmente, a família é sagrada. Esta foi a maior lição da minha vida. Ainda hoje vivo a me desculpar pelo grosseria cometida contra o professor A. Tito Filho.

Qual o seu livro preferido? Por quê?
Breviário dos Políticos, atribuído ao cardeal Mazarino. É uma obra atual depois de 300 anos, basta ver o acontece nas Cortes de Justiça, no Congresso Nacional, nos Palácios de Governo. Na sociedade em geral. Se não tem a popularidade — e a densidade — de O Príncipe, do Maquiável, o Breviário dos Políticos leva vantagem por não dar conselhos a um príncipe em particular. É um guia para aqueles que sonham conquistar o poder. Mazzarin sucedeu ao Cardeal Richelieu, o todo-poderoso ministro de Luís XIII, em 1642. Não tinha nem a classe nem a sabedoria de Richelieu, mas era esperto o suficiente para circular com desenvoltura pela Corte, a ponto de assumir a educação do jovem príncipe que o Mundo conheceu como Luís XIV. Vem dessa intimidade com o poder a matéria-prima para os conselhos que em 300 anos não perderam a atualidade. Dele, podemos extrair: “Mantém sempre presente estes cinco preceitos: simula, dissimula, não confies em ninguém, fala bem de todo mundo e reflete antes de agir”.

O que falta para o desenvolvimento e divulgação da cultura piauiense?
O Governo do Estado e a Prefeitura de Teresina atualmente não têm uma política compromissada com a cultura piauiense. Reconheço algumas ações isoladas. Estou confiante na atuação do Cineas Santos, na presidência da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Ele é do ramo. Tem muito prestígio com o presidente Lula, com o governador Wellington Dias e com o prefeito Silvio Mendes. Fez sua equipe, com pessoas talentosas, honestas e capazes. É esperar o resultado. O Piauí deveria levar vantagem na área cultural. Vejamos: em cada cidade hoje temos uma Academia de Letras instalada. Se elas funcionassem, o mínimo que fosse, haveria um pouco de agitação cultural no Estado. Mas, elas não funcionam. São casas de vaidades pessoais. A própria Academia Piauiense de Letras, quase centenária, não funciona porque vive das migalhas do Governo do Estado. São homens ricos, inteligentes, educados, mas pobres de ações. Além disso, os artistas e os intelectuais quando assim querem, apenas olham para os seus próprios umbigos. Podemos falar da cultura baiana, cearense, maranhense, mineira, carioca etc, mas, aqui, infelizmente, falamos da Maria da Inglaterra, do Albert Piauí, do Cineas Santos, do Pedro Costa, da Dora Parentes, do Ací Campelo, do Arimatan Martins, do Edvaldo Nascimento, do Jandaia, do Nonato Oliveira, do Mestre Expedito, do Mestre Dezinho, do Torquato Neto, do Mário Faustino, do Da Costa e Silva, ou seja, de individualidades. Não há um projeto coletivo. Um envolvimento geral. Engajamento total. "Teresíndia" se divide em grupinhos, ainda, infelizmente. Estou apostando nestes pontos de Cultura do Governo Federal. Esta é a maior novidade nos últimos anos, em termos de ação de governo. Falar da falta de espaços para a cultura piauiense nos meios de comunicação é chover no molhado. Como é também chover no molhado cobrar dos professores divulgação do que acontece nas letras e nas artes piauienses em suas salas de aula. Dessa forma, o que resta, meus caros e minhas caras, é acreditar que, em vocês, que ora entrevistam este velho urso hibernador em sua kenard kaverna, haja uma luz no final do túnel. Obrigado, e retornem sempre!

Um comentário:

Kenard Kruel disse...

adriano, obrigado pela boa divulgação. não se deixe de mim. beijos kenardianos.