domingo, 23 de agosto de 2009

O curioso caso de Benjamin Button



O Curioso Caso de Benjamin Button e Forrest Gump
[por Adriano Lobão Aragão]

A perfeição estética orquestrada por David Fincher em O Curioso Caso de Benjamin Button [The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008] chega a ser um caso à parte nessa película extremamente bem produzida, mas somente os méritos técnicos não fazem de um filme uma obra grandiosa. Entre o elenco, destaca-se a atuação de Cate Blanchet, como sempre. Mas, infelizmente, permeia o filme uma incômoda sensação de “deja vu”, na qual diversas vezes a estranha existência de Benjamin Button parece um revival da jornada de Forrest Gump (Forrest Gump, EUA, 1994), que, aliás, foi escrito pelo mesmo roteirista, Eric Roth (em Forrest, contou com o auxílio de Charlie Peters e Ernest Thompson). E por falar em roteiro, surge uma questão fundamental: era realmente essencial para história a leitura do diário de Benjamin Button em um quarto de hospital enquanto se aproxima o furação Catrina? É que os momentos mais irregulares do filme de Fincher acontecem ali, naquele espaço que Fincher e Eric Roth usaram para impulsionar a narrativa adiante, ainda que adentre pelos clichês do melodrama e outros artificialismos. De qualquer forma, Benjamin soa como um outro contador de histórias que, a exemplo de Gump, narra seu ponto de vista calcado na não compreensão da própria existência, ou numa compreensão bem pessoal. E daí desfilam outras semelhanças, como a relação com a fé e a religião; Gump cresceu numa pensão e Button num asilo; o envolvimento em guerras (Vietnã e II Guerra Mundial, respectivamente), sobrevivendo ambos a um fulminante ataque inimigo; a correlação entre o capitão do navio de Button e o tenente Dan de Gump é evidente, bem como o anão pigmeu e o soldado Bubba, ambos falastrões, cumprem funções semelhantes, como confidentes de um homem deslocado da sociedade dita “normal”; a paixão de infância vivenciada aos pedaços, em meio a trágicas complicações, como o acidente da amada de Button ou a doença da amada de Gump, mas é dessa relação que advém um filho, seu saudável legado. Enquanto o personagem de Tom Hanks, por suas limitações psicológicas, não consegue amadurecer, adentrar no mundo adulto, o personagem de Brad Pitt já nasceu velho fisicamente, um idoso-criança, e caminha para infância, onde todo amadurecimento que conseguir acumular terminará inevitavelmente no que deveria ser seu ponto de partida. Ao longo de toda sua trajetória às avessas, como o relógio inaugurado no início do filme, que gira ao contrário, emana a impressão de que Button é sempre o mesmo, como alguém que, por nascer velho, não lhe fosse possível amadurecer. No final dos dois filmes, resta uma criança chamada Forrest Gump vai à escola, porém, já não é o mesmo Forrest, nosso contador de histórias, mas seu filho; e uma criança chamada Button que inevitavelmente irá desaparecer. Enfim, não é uma má história. Leia o conto original de F. Scott Fitzgerald e confirme.

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