domingo, 12 de julho de 2009

A obra móbil de Joaquim Cardozo




A OBRA MÓBIL DE JOAQUIM CARDOZO
por Manoel Ricardo de Lima
Caderno Idéias, Jornal do Brasil, 11.07.2009


Foi publicado recentemente pela Nova Aguilar, numa parceria com a editora Massangana, na conhecida Série Brasileira da Biblioteca Luso-Brasileira, o volume intitulado Poesia completa e prosa de Joaquim Cardozo. Um volume que aparece cercado por algumas discussões acerca dos créditos de organização, e que devem ser estendidas até o que aparece e não aparece no livro como indicação e lacuna, como serviço e falta etc. É fato que este volume cumpre um bom lugar de acesso, principalmente para a poesia e alguns textos esparsos sobre arte e arquitetura de Joaquim Cardozo, mas é fato também que, ao mesmo tempo, abre motivos de alerta para outras questões ausentes do seu trabalho aberto e amplo.

O começo da conversa toda está numa carta de João Cabral de Melo Neto para Clarice Lispector, datada de 08/12/1948, quando pede a ela que lhe ceda seu Coro de anjos para edição na Livro Inconsútil (aqueles pequenos livros que Cabral fazia em prensa manual). E avisa que vai enviar a ela a Antologia pernambucana que fez com poemas de Joaquim Cardozo. Diz: “Conhece V. a poesia de Cardozo? Soube que publicaram há pouco, no Rio, suas poesias completas, arrancadas do autor, que nunca publicara livro, e baseadas em textos 'fixados e estabelecidos' pelo poeta e por mim, quando estava no Rio (o poeta não tinha cópia de nenhum poema; e assim, meu trabalho foi: pedir aos amigos as versões que possuíam e submetê-las à memória do poeta que as corrigisse). Pois desses textos, num momento de añoranza da luz recifense, escolhi os mais diretamente pernambucanos e organizei-os numa antologia que tenho estado imprimindo. O próprio Cardozo não sabe de nada , nem da estrutura que dei ao livro (um tanto especial) nem do próprio livro. A ver se lhe agradará”.

O desejo de João Cabral em editar a poesia e todo o trabalho do também pernambucano Joaquim Cardozo tem a ver, diretamente, primeiro com a importância que atribuía a ele e depois como pauta do pensamento sofisticado e silencioso deste engenheiro calculista, poeta, dramaturgo, crítico de arte, de poesia e de arquitetura. Pensamento marcado por uma linha de variantes intensa que pode fazer o caráter institucionalizado e hierárquico das leituras já cumpridas do modernismo brasileiro se mover para outro lugar, mais longe e mais pantanoso, como o do esquecimento e o do deserto.

Num desvio de propósito, uma espécie de baixa sedução (seguindo Bataille), Joaquim Cardozo ajustava sua postura política a um gesto radical entre modesto e lúcido, como disse dele Oscar Niemeyer na Módulo, de 1961: “... o trato ameno e simples do homem inteligente – Cardozo é o brasileiro mais culto que conheço – incapaz de impor uma opinião com a intransigência das coisas irrefutáveis, apresentando-as sempre como sugestões pessoais, que julga justas e convenientes”. E acrescenta: “O homem simples que se situa, modesto e lúcido, diante do mundo transitório em que vivemos (...)”. Cabral sabia disso, por isso também manteve o desejo de publicação de uma espécie de obra completa de Cardozo até bem perto de morrer.

Este livro agora é, um pouco, o resultado disso. Os desdobramentos da preparação, do resultado e do projeto que ele parece traçar é que vêm carregados de alguns problemas. Tanto é que no dia 17 de junho deste ano, no Diário de Pernambuco, em matéria assinada por Thiago Correa, dá-se a ver uma teia conflituosa acerca da edição do livro, da organização e, principalmente, de algumas coisas que parecem muito localizadas.

Mas o dado é que em 2005, quando estive em Recife para recolher material de pesquisa sobre Joaquim Cardozo, encontrei Maria da Paz Ribeiro Dantas (pesquisadora e autora de três livros sobre o trabalho dele como poeta) e Everardo Norões (poeta que, naquele momento, concentrava esforços na organização deste volume). Morto João Cabral, a tarefa de organizar uma espécie de obra completa de Joaquim Cardozo caberia, num primeiro plano de ação, a Maria da Paz, tendo em vista a sua tarefa crítica cumprida até agora. Mas, ao mesmo tempo, a partir do esmero com que Everardo Norões cuidava do material recolhido entre várias pessoas, de Geraldo Santana a Paulo Brusky, da própria Maria da Paz a César Leal entre outros, a edição estava em boas mãos. A questão é que o livro saiu como se não houvesse um organizador. O mínimo que se pode fazer como compromisso é, quando há um, dar-lhe o devido crédito. Ainda mais quando dentro do livro há um texto que lembra que há organizador: “Como podemos constatar neste livro, organizado pelo poeta e crítico Everardo Norões.”, diz Marco Lucchesi na apresentação da poesia de Joaquim Cardozo.

Depois, toda a parte do teatro de Joaquim Cardozo (seis peças) foi retirada do volume – porque constava dele antes – descolando uma importância fundamental à construção de seu pensamento e de sua poética (que é por onde arma o seu procedimento, dos poemas às peças, da crítica ao relato etc). Isto também terminou por reorientar o título do livro e o livro, não mais obra completa, mas poesia. Com isso perdeu-se também o rigor minucioso do texto de João Denys Araújo feito para este volume. João Denys que já apresentara o teatro de Joaquim na pequena e charmosa edição de 2001 feita pela Fundação de Cultura Cidade do Recife em cinco volumes. Ainda, a parte relativa aos contos, ou relatos (textos muito mais próximos do testemunho, do comentário ou da anotação íntima e que não foram publicados em livro, mesmo que Joaquim idealizasse um conjunto), fixos assim apenas como contos podem incorrer no desajuste com a imprecisão ou com a necessidade conservadora de institucionalizar o impreciso ou de facilitar a linha mais tensa de um procedimento. Isto comparece numa solicitação, a de dar um lugar ao trabalho de Joaquim Cardozo. Lugar que ele mesmo preferiu marcar como “participação ausente”, para lembrar a expressão precisa que Carlos Drummond de Andrade usa no prefácio ao primeiro livro de poemas de Joaquim, em 1947. Tanto é que o primeiro texto de Joaquim Cardozo, “Astronomia Alegre”, publicado em 1913, um relato inacabado e fundamental p ara a compreensão de sua “luta cósmica” também não consta do volume.

Assim, do índice econômico até o desenho solicitante que atravessa alguns textos do livro, como o de “integrar” Joaquim Cardozo ao cânone do modernismo brasileiro, como o de reclamar uma atenção crítica que até então lhe foi ingrata ou um parentesco antecipador do concretismo etc, parecem remeter a um sintoma da necessidade de construção de um monumento. E Robert Musil nos lembra o descabido dessa condição, ao dizer que “não há nada no mundo tão invisível quanto os monumentos”. O trabalho de Joaquim Cardozo é um móbil incessante, tanto que ao lê-lo nessa clave comum de solicitação para o monumento se pode perder de vista alguma saída possível, alguma disposição para sair dessa mediocridade imperativa que tem assolado este tempo agora, este “tempo de alarme”. Ele mesmo disse: “Ninguém se lembrou que o silêncio pode ser uma energia ainda desconhecida e que sua concentração pode, ou se abafar inteiramente, ou explodir; (...). Ou mesmo, quem sabe, fora a própria materialização do silêncio. Se não a explosão, a implosão do silêncio.”




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Manoel Ricardo de Lima é escritor e professor de literatura. Autor de Quando todos os acidentes acontecem (7Letras), entre outros. Bolsista de Pos-Doc, CNPq, com pesquisa a partir de Joaquim Cardozo e Mário Faustino.



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