sábado, 20 de junho de 2009

Notas de passagem

(notas sobre poesia)
Alfredo Werney



Drummond é um poeta cuja obra se nos mostra em constante modulação. A cada livro que lemos deste poeta sentimos que ali pulsa uma veia irrequieta. Uma veia que busca incessantemente descobrir coisas novas. Cecília é uma poetisa que se nos mostra a mesma em cada experiência poética: versos redondos, fluentes, sonoros, sugestivos e extremamente bem construídos. É possível encontrar um verso mal feito na obra de Drummond, na de Cecília não. Por este motivo prefiro Drummond. A perfeição é enfadonha...


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É perfeitamente possível se elaborar uma poesia ao mesmo tempo hermética, rigorosa em seus aspectos formais e, paradoxalmente, extremamente comunicativa e de forte apelo oral. Mas, no que se refere à moderna poesia brasileira, só João Cabral conseguiu...


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Da primeira vez que li “I-Juca Pirama” fiquei surpreso com o efeito que o texto me causara. Eu percebi que não está apenas lendo sobre uma batalha entre índios, mas efetivamente estava no meio dela... Ouvia tambores, gritos, ruídos, sussurros... Gonçalves Dias me ensinou que na poesia a palavra não fala sobre as coisas: as palavras são as próprias coisas...


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Ezra Pound nos disse, imbuído de razão, que a poesia empobrece na medida em que se afasta da música. Estive pensado no caso da poesia concreta que se afastou da arte dos sons e se aproximou das artes plásticas. A meu ver, o resultado não foi dos melhores: a poesia perdeu sua força oral e não conseguiu atingir a força imagética da pintura e da escultura...


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Quando leio um poeta eu procuro sempre observar as imagens criadas por ele, a combinação dos sons das palavras, as idéias expostas, a beleza das metáforas, etc. Quando leio Octávio Paz e Alberto Caeiro não consigo pensar em nada disso. Simplesmente sou arrastado para o mundo que eles criam. Parece ser uma poesia que não passa pelo pensamento, ela atinge diretamente a nossa epiderme. Penso que esses é que realmente são os poetas natos...

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Dizem alguns poetas que a poesia é um ofício rotineiro, que exige muito mais "expiração" do que "inspiração". Eu continuo acreditando que há diferença entre um pedreiro e um poeta: o primeiro constrói o que já está foi previamente criado por um arquiteto, o segundo inventa seu próprio mundo para posteriormente construí-lo. Para construir não é necessário ter muita inspiração, mas para inventar sim...


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Por detrás do rótulo de “moderno” e “contemporâneo”, se escondem muitos poetas medíocres. Propõem a destruição do verso, quando, na verdade, ainda não aprenderam a fazê-lo. Um soneto de Camões pode ser pode ser muito mais contemporâneo do que um risco numa página (que muitos dizem ser um poema).


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Ser um poeta é um ofício muito difícil: tem que dominar a língua, descobrir imagens pouco usuais, preocupar-se com a sonoridade de cada palavra, criar belas metáforas, idéias interessantes, etc. Porém, há um caminho mais simples hoje em dia: tirar uma foto com uma biblioteca ao fundo, escrever “poemas” elogiando as belezas de sua terra natal e mandar para as fundações culturais publicarem. Esses são a maior parte de nossos “poetas” atuais...

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Muitos consideram Caetano e Chico como mero letristas de música popular. Jamais serão poetas! - asseveram alguns intelectuais. Porém, nunca vi ninguém questionar se Thiago de Melo e Florbela Espanca são realmente poetas. Se Chico e Caetano lançassem livros de poemas em vez de discos, seriam bons poetas... Por outro lado se Thiago e Florbela lançassem discos de música popular em vez de livros, seriam letristas. E letristas medianos, diga-se de passagem...


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O mundo de Mário Quintana é onde habitam as coisas miúdas, pequenas, tímidas. O mundo de Jorge de Lima é onde habitam as coisas grandes, eloqüentes, as vozes profundas e graves da nossa alma. Diante de Quintana nos sentimos grandes, pois temos a impressão de que a poesia é algo simples (que brota do nada) e que qualquer um pode ser poeta. Diante de Jorge de Lima nos sentimos pequenos, somos esmagados pela força sonoro-visual-espiritual de sua palavra. A poesia nos parece algo inatingível...


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Se Mário Quintana fosse músico seria um Debussy: leves sensações em vez de tensões fortes, sutilezas timbrícas, frases sugestivas, texturas sem peso... Jorge de Lima estaria mais para Wagner: tensões que geram tensões, texturas densas, frases cromáticas de forte teor dramático...


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Manuel Bandeira é talvez o mais musical de nossos poetas. Sua poesia possui uma espécie de musicalidade subtendida, como dissera certa vez um crítico literário. Bandeira não se conforma simplesmente em construir um verso com dezenas de assonâncias e de aliterações – que muitas vezes são apenas ornamentos gratuitos. Bandeira saboreia a cor sonora de cada vogal, tateia a textura de cada palavra, experimenta o ruído de cada consoante e dá alma às palavras através do ritmo...

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Da Costa e Silva, em seus “Poemas da fauna”, demonstrou um imenso virtuosismo poético. E de fato este poeta piauiense é o nosso versejador mais virtuoso. Porém, nos “poemas da fauna”, ele extravasou: trocou a poesia pelo puro artesanato do verso. A técnica se esgotou em si mesma...




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