terça-feira, 16 de junho de 2009

Breve antologia de Da Costa e Silva




Antônio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885. Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda e jornalista. Faleceu em 29 de junho de 1950.



O primeiro livro de Da Costa e Silva, Sangue, é uma obra de evidente ortodoxia simbolista. Pelos temas, pelo vocabulário, pelas imagens, pela construção dos versos e pela musicalidade. Mas já revelava um poeta de dicção própria, personalíssima. Sem afastar-se dos cânones da escola, tal como difundida no Brasil por Cruz e Sousa, predomina em Sangue – escrito entre 1902 e 1908 – uma linguagem luminosa, arrebatadora e forte de um poeta que não esconde a sua sensualidade nem o sentimento diante da vida.
Alberto da Costa e Silva


Ao lado de Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva faz uma figura de quase clássico, faz francamente uma figura de vocação harmônica... Isso se deve, em grande parte, às qualidades específicas da música com que soube vestir as imagens percucientes que caracterizam tanto seus poemas. Sua musicalidade se situa à altura de Alphonsus de Guimaraens e faz dele como que o primeiro representante da nossa última geração simbolista, coisa que ele foi tanto cronologicamente quanto possivelmente de um critério de valor.
José Guilherme Merquior





Deusa Pagã

Casto Esplendor da Carne, quando assomas,
Na deslumbrante perfeição que trazes
No corpo excelso, bamboleando as pomas,
Sinto volúpias cálidas, audazes...

Coloco-te nas fúlgidas redomas
Do Verso, e no turíbulo das frases
Queimo-te o incenso de florais aromas:
– Cravos, magnólias, trevos e lilases.

Na doce extrema-unção do Sensualismo,
És tu a Fé suprema em que me abismo
Na comunhão profana dos Desejos...

Nossa Senhora eterna do Pecado,
Salve o teu vulto, angélico, sagrado,
Na peanha de fogo dos meus beijos!

[in Sangue, 1908]

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Visões da Morte

Almas tristes, sinistras e angustiadas,
Almas sombrias dos desiludidos,
Dos seres para sempre adormecidos
Na poeira azul das eras apagadas.

Almas doudas de amor, martirizadas,
Almas errantes dos incompreendidos
Que hoje descansam frios, envolvidos
No sudário das noites desoladas.

Castas filhas do Medo e do Mistério,
Duendes tremendos do Pavor, medonhos
Espectros que vagais no cemitério...

Quão semelhantes sois, mudos, tristonhos,
Nesse cortejo lúgubre e funéreo,
À Procissão de Passos dos meus sonhos!

[in Sangue, 1908]

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Rosa Mística

Primavera floral das primaveras,
Dos astros, dos rosais, dos passarinhos...
Alegria do verde dos caminhos
Florindo em lianas, fecundando as heras...

Do azul radioso das azuis esferas
Bênçãos de sóis, de orvalhos e carinhos,
Que a nudez solitária das taperas
Enchem de luz e cânticos e ninhos...

À vida, Íris do Amor e da Ventura,
Branca aleluia da Suprema Altura,
Primavera de pompas e de flores...

Maio! Sorri Nossa Senhora pelas
Torres altas e claras das Estrelas,
Braços abertos para os Pecadores...

[in Sangue, 1908]




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