segunda-feira, 22 de junho de 2009

Breve antologia de Alda Lara




Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu em Benguela, Angola, 09 junho de 1930. Foi casada com o escritor Orlando Albuquerque. Viveu em Portugal desde a adolescência, onde frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Faleceu em Cambambe, Angola, em 30 de janeiro de 1962. Sua obra completa tem sido organizada e editada por Orlando Albuquerque.


Curiosamente, ao ler As Belas Meninas Pardas e Testamento, é a poesia de Cecília Meireles que me vem aos ouvidos. A segunda estrofe do primeiro poema evoca Motivo e todo o conjunto me transporta ao Romanceiro da Inconfidência. O poema Rumo me remete ora ao Antero de Quental das Odes Modernas, ora ao Fernando Pessoa de Mensagem, sobretudo o último poema da seção O Encoberto. Interessante ouvir essas possíveis reminiscências de uma brasileira e dois portugueses pulsando nos versos de uma poeta africana, que a mim insinuam que é possível darmos as mãos.






As Belas Meninas Pardas


As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trabajadas.
Direitinhas. Aprumdas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...


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Testamento


À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhamdo algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...


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Rumo

É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro ...
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro!
Caminhemos...





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