sexta-feira, 29 de maio de 2009

Impressões sobre “Saudade”, de Da Costa e Silva




Impressões sobre “Saudade”, de Da Costa e Silva
[por Alfredo Werney]


Saudade! Olhar de minha mãe rezando
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho... O caburé com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
a saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de Dor do Pensamento
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
As mortalhas de névoa sobre a serra.

Saudade! O Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando... E ao longe,
o mugido dos bois da minha terra...

(Da Costa e Silva*)


A obra de Da Costa e Silva, desde o seu preâmbulo, “Sangue” (1908), se mostra como um rigoroso exercício melopoético. Isso porque, em grande parte de sua poesia, os aspectos fanopaicos e cognitivos parecem estar sobrepujados pelos aspectos musicais. Em outros termos: a literatura dacostiana – inegavelmente influenciada por vertentes simbolistas – procura se pautar em uma estética na qual os sons são a base material do fazer artístico. As palavras, desse modo, ligam-se umas às outras, mais pela questão da afinidade fônica do que mesmo pelo sentido que procuram expressar. As construções frasais do texto são pensadas predominantemente com intuito de se atingir a precisão horizontal da música tonal: um arco melódico narrativo no qual se observa a alternância entre momentos de tensão/repouso.


“Saudade” é um poema que agrupa um conjunto de recursos fonoestilísticos e musicais de uma maneira virtuosística. Aliás, “virtuosismo melopoético” é uma expressão que, a meu ver, se adéqua muito bem ao universo da poesia dacostiana. Sendo que, algumas vezes, o poeta chega mesmo a exagerar (como nos poemas da fauna, em “Zodíaco”) e transformar um recurso literário em um mero truque lingüístico. O poema “Saudade” expressa - através de uma série de imagens dispostas de maneira quase que cinematográfica e de um ritmo lento, arrastado - uma intensa melancolia, este sentimento tão peculiar à nossa cultura de tradição lusitana. Para tanto, o poeta se utiliza de várias pausas, reticências, suspensões, orações gerundias, assonâncias – métodos que torna os versos largos (no sentido musical do termo), como as frases musicais de duração longa. E de fato, como nos mostra os estudos musicológicos da canção, as frases musicais de durações longas geralmente estão associadas à melancolia, tristeza e solidão. Um distanciamento entre sujeito e objeto.


O que realmente me impressiona nesse poema é o equilíbrio entre imagem/ som/ sentido que Da costa e Silva conseguiu atingir. Não raro, observamos que o sentimento de melancolia e saudade é tratado de maneira piegas pela nossa poesia e, mais ainda, pela nossa música popular. Da Costa e Silva conseguiu expressar a saudade pela sua terra natal de maneira extremamente rica e balanceada: as imagens soltas (o olhar de minha mãe rezando, o caburé com frio, as folhas lívidas ao vento, as mortalhas de névoa sobre a serra) se mesclam com o ritmo expressivo e com a sonoridade medida e pesada de cada palavra. A própria musicalidade do poema e a sugestão de suas imagens já nos impregnam de melancolia e de sentimento de perda e distanciamento das coisas. Numa leitura em voz alta desse poema é possível ouvirmos os sons do vento (gemidos vãos de canaviais ao vento), sentirmos o fluxo ininterrupto de um rio (cantigas de águas claras soluçando), sentirmos a dureza de um sentimento pela própria “dureza sonora” do verso (Saudade! asa de dor do pensamento). Todas estas colocações parecem confirmar o conceito de Valéry, para quem a poesia é “a hesitação entre som e sentido”. Em “Saudade”, podemos perceber a dança constante e precisa das palavras, que oscilam entre a expressividade dos sons e expressividade dos sentimentos.



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*Antonio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí. Estreou em 1908 com o livro de poemas Sangue. É considerado um dos mais importantes poetas do Piauí. Sua obra literária atingiu notoriedade nacional e é considerado, pelo crítico Oswaldino Marques, o primeiro poeta brasileiro impressionista.


Alfredo Werney é arte-educador, músico e pesquisador. Professor de violão da Escola de Música de Teresina. Instrutor e integrante da Orquestra de Violões de Teresina. Formando em Educação artística pela UFPI. É autor do livro "Reencantamento do mundo: notas sobre cinema".

Um comentário:

Marcelo disse...

Gostei muito da análise, melhorou bastante a minha fruição do do poema.