sexta-feira, 27 de março de 2009

"Vejo minha obra em constante mutação"




Entrevista com Adriano Lobão Aragão
por Wanderson Lima

- Entrevista concedida em maio de 2004
- Publicada originalmente no site www.revistaamalgama.hpg.com.br e no jornal Diário do Povo


Seu primeiro livro, “Uns Poemas” (1999), apresenta traços evidentes de influência da estética marginal; seu trabalho mais recente – “Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra” –, segundo colocado no Concurso Torquato Neto da Fundac 2003, palmilha outro caminho e, segundo me parece, recebe influxo de autores como H.Dobal, João Cabral e Gerardo Mello Mourão, entre outros. Comente como e por que se deu essa mudança.

Adriano Lobão Aragão: Vejo minha obra em constante mutação. Esse é o único aspecto que me induz a continuar escrevendo: a possibilidade de trilhar outros caminhos, independente de serem avanços ou retrocessos. “Uns Poemas” foi escrito na sombra de uma estética dita “marginal”, principalmente (ou exclusivamente) dentro do contexto piauiense; e isso fica patente nas limitações facilmente encontráveis na obra. Há muita coisa que deveria ter sido mais desenvolvida, mais trabalhada, mas a pressa em publicar atrapalhou um pouco. Já existia a influência de Dobal em meu primeiro livro, mas a informação sobre as influências na transição para o segundo livro está correta. Poderia citar inúmeras outras, mas prefiro deixar esse serviço para os leitores que eu venha a ter. Porém, aceito o fato que foi através dessas influências que minha poesia buscou abandonar os pressupostos estéticos do primeiro livro e mergulhar na intertextualidade e na releitura.

Um dado novo importante de sua nova fase poética é o intenso jogo intertextual que você realiza. A maneira como você monta esses jogos denuncia um débito a T.S.Eliot. Você poderia explicitar melhor esse ponto? Qual o impacto da poética eliotiana em sua nova fase?

Adriano: Vi no Eliot dos “Poemas de Ariel” e “The Wast Land” elementos que gostaria de ver como funcionariam se fossem associados a contextos piauienses. Essa ânsia me perturbou por muito tempo e gerou alguns poemas bem mais “eliotizados” que preferi excluir e até agora permanecem inéditos. Após esse exercício, a influência já estava estabelecida de maneira que não precisei me preocupar com os resultados. Na primeira parte de “Entrega a própria lança...”, há trechos de poemas de Eliot reescritos, juntamente com Safo, Horácio, Gregório de Matos e outros; as fontes já não me interessavam mais. Os exercícios mais radicais estão na parte intitulada “A classe operária vai ao paraíso”, absolutamente composta por colagens.

Recentemente caracterizei a cultura literária piauiense como autofágica, o que decerto desagradou a algumas pessoas. Se alguém vier aqui para falar de Homero ou Dante terá um público minguado; mas se o tema for, por exemplo, Torquato Neto ou Fontes Ibiapina (sem querer desmerecê-los ou compará-los ao autor grego e ao italiano) o auditório decerto lotará. Você concorda com essa avaliação?

Adriano: Não apenas na literatura, mas em nossa cultura artística em geral, somos vítimas desse bairrismo besta. Aliado a esse aspecto, é necessário lembrar que vivemos numa província onde, com as justas e milagrosas exceções, escreve-se mal e fala-se demais. É inacreditável a falta de critérios justos nas “críticas literárias” que tentam produzir por aqui. Parece elogio de prefácio e orelha de livro. A seleção de temas e autores revela-se através de amizade, coleguismo, geração isso e aquilo, e o que é pior: costuma-se tratar mais de autores que de obras e literatura. Aliado a isso, falar de Eliot, Pound, Homero, Keats, Safo, é ser chamado de diluidor, pretensioso, traidor da pátria ou simplesmente ignorado. Creio ser mais saudável ficar quieto lendo Catulo e Sade.

Como professor de ensino médio, não se revolta em ver obras de valor literário mais que questionável, como “Traquinagem”, serem adotadas em vestibulares enquanto uma autora do porte de Alvina Gameiro é completamente esquecida?

Adriano: É o que mencionei anteriormente. Conviver com indicações para lá de absurdas é o mínimo. O desafio de formar leitores é bem mais complicado sob a sombra de um vestibular que reduz o trabalho do professor a treinar seus alunos a marcar cruzinhas em gabaritos, como se a vida nos trouxesse respostas prontas. Espero que essas cruzes não sejam de nosso futuro cemitério intelectual. Quanto a Alvina Gameiro, trata-se de uma das mais injustiçadas escritoras que tenho notícia, pela ausência de uma avaliação crítica substancial de sua obra. “Curral de Serras” é uma obra que tem muito a oferecer à nossa cultura, mas precisa ser mais lida e estudada. Poderia citar também o Leonardo das Dores, Álvaro Pacheco, Martins Napoleão...

Fale sobre a gênese da Revista e site Amálgama. A seu ver, em que Amálgama pode contribuir no contexto literário piauiense?

Adriano: Amálgama nasceu da falta de espaço para divulgação dos primeiros textos que escrevíamos, mais ou menos em 1996, quando passei a editar livretos reproduzidos por xerox. Mas a revista só passou a existir em 2002, quando convidei o poeta Hermes Coelho, o contista Sérgio Batista e os professores Jeferson Probo e Washington Ramos e iniciamos um trabalho que deveria misturar produção e jornalismo literário. Disso resultou um misto de revista e fanzine que é publicado, por enquanto, com periodicidade irregular. Nem todos continuam trabalhando conosco atualmente, a periodicidade continua irregular, mas já contamos com vários novos colaboradores, como Rodrigo Petronio, Aquiles Rique Reis, Delmo Montenegro, entre outros. Creio que a contribuição seja a de estabelecer mais um canal de debate e divulgação. De preferência que não seja associado a uma estética, a um grupo ou geração. A intenção é criar um espaço aberto. Porém, a falta de recursos financeiros e tempo hábil nos limita bastante. Se quiséssemos apenas divulgar “literatura piauiense”, talvez fosse mais fácil conseguir patrocínio, mas nossa proposta não se limita a regionalismo algum. É importantíssimo falar e divulgar o Piauí, mas não fazer dessa bandeira uma venda que nos impeça de discernir uma obra de arte de uma perda de tempo.

Por mero diletantismo, como você mesmo frisa, tem traduzido poemas de autores de língua inglesa, como Emily Dickinson. Que aprendizado tem tirado desse exercício?

Adriano: Isso é sério? Minhas traduções são apenas exercícios sem maiores conseqüências. Divulgo algumas no site Amálgama apenas para instigar comentários, críticas. Atualmente, trabalho como cummings e Keats. Cada um deles nos traz aprendizagens distintas. No caso de cummings, a organização gráfica influenciando o próprio contexto do poema é fascinante e praticamente intraduzível. O jogo entre a estética e o conteúdo é o que mais me instiga nessa didática.

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