quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Entrevista com Airton Sampaio [Parte02]

Grupo Tarântula de Contistas


Entrevista com Airton Sampaio

[Continuação...]


Herasmo Braga - No Piauí, há muito tempo se tem uma inquietação na formulação de um enquadramento de estilos literários procurando justificativas, às vezes falíveis, para relacionar determinados autores a grupos específicos. Procuram-se atribuir denominações a alguns poetas, escritores e críticos apenas por eles partilharem de um mesmo instrumento de divulgação, como a Revista Meridiano, por exemplo. No entanto, percebe-se em muitos trabalhos total independência, sendo pouco possível relacionar estilisticamente estas obras. O questionamento é sobre a relevância deste tipo de discussão, se há realmente esta necessidade e quais os motivos que a justificam?

Airton Sampaio
- Embora sem mencionar o nome, a pergunta quer saber, mais exatamente, sobre a importância ou não da periodização nos estudos literários. Ora, a periodização é um método de abordagem de cunho eminentemente didático, que, com suas vantagens e desvantagens, apenas procura oferecer uma visão geral e sistematizada de um dado fenômeno, sendo utilizado em quase todas, se não em todas, as ciências. Assim, na história, por exemplo, tem-se uma periodização que a sistematiza em Idade Antiga, Idade Média, etc, esta comportando uma Alta e uma Baixa Idades Médias, e assim por diante. No caso da literatura brasileira, há tal periodização já mais ou menos consolidada, com pequenas discordâncias aqui e ali. A literatura brasileira de expressão piauiense não teve a mesma sorte, se tomada como fenômeno específico, porque, após as proposições de Lucídio Freitas e João Pinheiro, os demais historiógrafos, se é que os podemos chamar assim, não as aperfeiçoaram, realmente caindo num subjetivismo tão extremado e anti-racional a ponto de se criarem categorias como "os escritores que ficaram", "os que foram embora", "os que já morreram", "os milenistas", etc. Isso não é, na verdade, periodização, mas embromação, por isso que, entre nós, ainda há, infelizmente, a discussão, evidentemente tardia, sobre a importância de uma periodização da literatura no ou do Piauí, já que, em essência, ela ainda não foi feita, mas, ao ser feita, implica necessariamente o trabalho com categorias como estilos de época, estilos de arte, gerações, grupos, movimentos, entre outros, que apenas, repito, dão uma visão geral dos fatos, tentando unificá-los, na medida do possível, embora, se há sempre quem não tenha participado de movimentos ou integrado grupos, os chamados "autores isolados", impossível dizer o mesmo quanto a um estilo ou uma geração: não existe artista qualquer fora de uma geração, a menos que ele seja um sujeito a-histórico, como Deus, nem que não seja praticante de um estilo ou de vários estilos, estes mutantes ao longo da obra ou mesmo concomitantes. Assim, não há grandes problemas, apesar de haver sim desvantagens, com a periodização, se feita com pesquisa e rigor, desde que se a tenha como APENAS UMA das diversas formas de abordagem, e não a ÚNICA. Há, por exemplo, Cursos de Letras que não trabalham mais a literatura brasileira diretamente com a periodização cronológica (Barroco, Arcadismo, Romantismo, etc), optando pela organização curricular por TEMAS TRANVERSAIS, de modo que, num dado ano, se estudam quaisquer textos literários de qualquer época ou estilo sob o comando, por exemplo, do tema "violência no campo e nas cidades". Mesmo aí, percebe-se que a periodização não desaparece de todo, pois subjaz a essa transversalidade. Creio, então, ser um incômodo decorrente de um narcisismo exacerbado (próprio de quem renega os influxos do coletivo) essa insistência em não se pertencer, quando evidentemente se pertence, a um dado grupo, que é, este, uma aproximação de pessoas com OBJETIVOS, e não estilos, SEMELHANTES. Eu, por exemplo, integrei --- e ISSO É FATO --- o Grupo Tarântula de Contistas, e nem por isso tenho o mesmo estilo nem o mesmo valor qualitativo dos demais componentes, tampouco poderei ser avaliado APENAS por essa pertença. Ademais, se é possível dizer que Oswald de Andrade e Plínio Salgado são da mesma Geração cultural, a Modernista, dizer que aquele pertenceu ao Grupo Anta seria uma heresia, pois os antropofagistas (Oswald, Raul, Tarsila, etc) não eram em nada adeptos do nacionalismo ufanista, de teor fascista, próprio da matiz ântica . Desta forma, se se considerar a periodização como UM método de abordagem, e não como O método, muitos equívocos e resistências, puramente ranhetas, se dissiparão.

Herasmo - Observando o contexto acadêmico das universidades federal e estadual, constata-se que não ocorre uma orientação para formação de pesquisadores em assuntos literários e sim, apenas para o ensino de Língua Portuguesa. Como você analisa esta caótica situação de termos tanto riqueza literária a ser descoberta e divulgada sobre a literatura piauiense e termos tanta carência de pessoas dispostas a estudá-la?

Airton Sampaio - Desconheço essa preparação para a pesquisa em língua portuguesa, pelo menos na Universidade Federal do Piauí. No entanto, o maior número de pesquisas nessa área, em universidades de outros estados (as duas nossas, infelizmente, são escolões dominados pela mera politicagem e, principalmente, pela falta de compromisso com o seu caráter público, tanto que até em simples cursos de extensão, notadamente no Departamento de Letras da Ufpi, cobram, como mecanismo covarde de complementação salarial, escorchantes men$alidade$, o que é vedado pela Constituição Federal), talvez se dê pelo espantoso avanço da lingüística no século recém-vindo. Não que os estudos literários não tenham evoluído, mas é certo que o fizeram de maneira mais tímida que as abordagens lingüísticas. Ademais, há que se atentar para a grande complexidade do texto literário em face dos demais --- e por isso existem os que dele fogem como o diabo da cruz. Para se ter uma idéia, um(a) certo(a) professor(a) doutor(a) em lingüística me deu duas informações que me estarreceram: uma, o último texto literário que lera o fizera há uns vinte anos, ainda na graduação, desonrando, assim, o exemplo de um Jakobson; a outra é que em sua estante não há sequer um livro de ou sobre literatura, certamente por achá-los desnecessários. Isso sem levar em conta o fato de, pelo menos na Ufpi, a literatura brasileira de expressão piauiense ser ministrada, segundo comentam, com base em referenciais teórico-historiográficos tão consistentes quanto as promessas salvacionistas do PT. Além disso, burocratizaram tanto o processo de pesquisa que há, por exemplo, que se formalizar grupos de estudos sob a coordenação de um doutor (quando a maioria só tem disso o título, hoje muito fácil de conseguir porque o doutoramento deixou de ser uma contribuição efetiva ao avanço do conhecimento numa dada área para se transformar, na verdade, em um mero segundo mestrado, de modo que há muitos professores com títulos de doutorado, mas raros doutores). A saída, então, é pesquisar, mesmo enfrentando todo tipo de obstáculos, à margem dessas instituições cheia de doutores e quase vazias de inteligência.

Adriano - Quais os principais entraves para o estudo e análise da Literatura Brasileira de Expressão Piauiense? Há uma politização do cânone?

Airton Sampaio - Há sim politização, maior ou menor, do cânone e do não-cânone. É que onde há homens, há, inevitavelmente, política, com p, mais comumente, ou com P, mais raramente, mas sempre política, porque a neutralidade inexiste, a apoliticidade é uma mera ilusão. Cito, apenas para ilustrar, a inserção de José Newton de Freitas, um poeta praticante de um romantismo tardio tão óbvio como o sol do meio-dia, como o introdutor do modernismo no Piauí. Ora, a quem interessa isso, senão, pelo menos, à família Freitas? Esta é a política provinciana e desbragada, com p. Mas outra política, com P, é inscrever Mario Faustino no corpus da Literatura brasileira de expressão piauiense, porque, teresinense de nascimento e poeta dos maiores, assim não o fazer é, no mínimo, incompreensão teórica ou mesmo burrice, e das enormes. Agora, para mim, o principal entrave para um melhor estudo da Literatura brasileira de expressão piauiense, além da politicagem miúda e das chicanas pessoais, é a falta de rigor, decorrente da desinformação teórica de quem sobre ela escreve, chegando-se, por exemplo, ao cúmulo de chamar-se de vanguardistas escritores tão próximos da vanguarda quanto Plutão do Sol, como Fontes Ibiapina, Magalhães da Costa, H. Dobal, etc, e de se confundir poetas trágicos com poetas que morreram tragicamente. Um outro é a dificuldade de contato com livros publicados e não mais reeditados, como ocorre, por exemplo, com Contetos, de João Alfredo de Freitas, dado a lume no Recife em 1892 e que, apesar dos ingentes esforços meus e de Paulo Machado em localizá-lo, até agora não o conseguimos, sendo mesmo uma pena que tal situação seja regra, e não exceção. No entanto, é preciso insistir no estudo responsável e não meramente mercadológico da Literatura piauiense, desde que não se esqueça de que a Literatura piauiense se instaura no âmbito da Literatura brasileira, a Literatura brasileira no interior da Literatura latino-americana e a Literatura latino-americana no seio da Literatura do Ocidente. Daí eu e Paulo Machado usarmos, por insistência pedagógica, a expressão Literatura brasileira de expressão piauiense, em vez de somente literatura piauiense, pois que não raro esta soa aos incautos como um dado isolado de uma realidade evidentemente muito maior que, se não levada em conta, torna aquela mais obscura e inexplicável.

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