quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Entrevista com Airton Sampaio [Parte01]

foto de M. Moura Filho



Em outubro de 2004, o escritor Airton Sampaio concedeu a Adriano Lobão Aragão e Herasmo Braga a entrevista reproduzida a seguir.

Airton Sampaio de Araújo é contista, novelista, cronista e articulista. Teresinense, publicou, individualmente, "Painel de sombras", contos, 1980, e "Contos da Terra do Sol", 1996, tendo participado de diversas coletâneas, entre as quais se destaca "Vencidos", contos, 1987, ao lado de J. L. Rocha do Nascimento, José Pereira Bezerra e M. de Moura Filho, e "Sob um CéAzultigrino", novela, em Concursos Literários do Piauí, 2005, além de várias premiações. Formado em Letras (1982) e Direito (1984) pela Universidade Federal do Piauí, é professor-mestre-adjunto no Departamento de Letras da referida Universidade.



Adriano Lobão Aragão - Em que aspectos o grupo Tarântula contribuiu para o desenvolvimento do conto na Literatura Brasileira de Expressão Piauiense?

Airton Sampaio - O Grupo Tarântula, que reuniu, na década de 1980, em Teresina, os contistas Airton Sampaio, M. de Moura Filho, J. L. Rocha do Nascimento e José Pereira Bezerra, consolidou, a meu ver, no Piauí, a idéia e, principalmente, a prática do conto como um objeto estético para além da "anedota" e do "causo", como era comum acontecer, inscrevendo no cenário literário piauiense uma contística de natureza marcadamente urbana e comprometida, em primeiro lugar, com a qualidade estética, tanto que, numa Geração numericamente dominada por poetas, como a nossa, o Tarântula se configurou, disso não tenho dúvida, como um esteio da prosa curta. Há, sim, uma certa verborragia em José Pereira Bezerra, dono de uma contística qualitativamente muito irregular, mas a infelizmente pequeníssima produção, em termos quantitativos, de M. de Moura Filho e seus contos pop, e de J. L. Rocha do Nascimento e seus textos lapidados à exaustão me deixam a lamentar que a literatura tenha perdido a ambos para a advocacia e a judicatura, respectivamente. Quanto a mim, ultimamente me tenho vinculado à experiência desafiadora do conto minimalista e devo lançar, ainda neste ano, o primeiro resultado dessa instigante vivência, que é o livro Segundas Estórias ou Contos-Vertigem, expressão, na verdade, de uma eterna ânsia pela síntese, o que sempre caracterizou meu trabalho, pois, em minha opinião, conto e brevidade são categorias umbilicalmente ligadas, embora não desconheça que há contos longos que são autênticas obras-primas e contos curtíssimos de baixa fatura. Então, o Tarântula foi, mais ou menos, isso: um momento singular em nossas vidas e, disso tenho consciência, um passo importantíssimo no sentido da evolução da contística piauiense, de tal sorte que se alguém quiser estudá-la, terá, sim, de dar no mínimo uma olhadela no Tarântula, sob pena de, sem esse micro, não compreender bem o macro, e vice-versa.

Adriano - Você mencionou a ausência de referenciais piauienses válidos em relação ao conto no Piauí, anterior à sua geração. É possível identificar exceções?

Airton Sampaio
- Ainda que não sejam exatamente referenciais, há sim bons contistas nas gerações anteriores, desde o naturalista Clodoaldo Freitas, passando pelos já modernos Francisco Pereira da Silva (contista de lastro, antes de optar pela dramaturgia) e Vítor Gonçalves Neto (talvez o melhor do Grupo Meridiano da Geração de 1945) e chegando a Geraldo Borges, este sem dúvida o grande prosador do Grupo Clip da mesma Geração de 1945. No entanto, gostaria muito de ter lido Contetos, livro do piauiense João Alfredo de Freitas publicado no Recife em 1892 e que, sem embargo de todos os esforços empreendidos, não conseguimos localizar. É que posso estar enganado, mas se o conteúdo desse livro corresponder ao seu provocante título, talvez esteja aí a primeira manifestação pré-moderna ou quiçá moderna da literatura brasileira de expressão piauiense, no conto. O que disse, então, não foi que o Grupo Tarântula da Geração de 1970 não tem antecedentes de qualidade, mas que foram os seus integrantes (Airton Sampaio, J. L. Rocha do Nascimento, José Pereira Bezerra e M. de Moura Filho) que ultrapassamos o à época hegemônico conto regionalista tacanho, na verdade meros "causos" ou "anedotas", isso sem mencionar os inegáveis passos à frente dados pelo parnaibano Paulo Veras, não-integrante do Tarântula e excelente escritor de narrativas curtas, precocemente falecido.

Adriano - Que escritores exerceram influência mais marcante em sua obra?

Airton Sampaio - Sem dúvida alguma que, no plano ultranacional, miro muito a Jorge Luis Borges e suas belas simbologias, principalmente espelhos, espadas e labirintos, enquanto no nacional meu olhar se fixa bastante em mestre Machado de Assis e seus mergulhos profundos pelo interior do pobre ser humano e desse inviável Brasil e no genial Guimarães Rosa e sua linguagem de alta voltagem poética. Já na esfera local, não identifico influência direta, embora, como ledor contumaz de autores piauienses, deva ter recebido influxos indiretos, difíceis porém de discriminar, pelo menos assim, de memória. Claro que há outras determinações, mas estas são, para mim, as mais evidentes.

Adriano - Um dos graves problemas em nossa produção local consiste na ausência de reedições, inclusive de obras de referência, abandonando conquistas ao ostracismo. Devemos isso à ausência de um público ou à falta de investimento?

Airton Sampaio - A ausência, entre nós, de reedições de obras de referência, como por exemplo a de Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, é, a meu ver, miopia do Estado, a quem, na falta de um parque editorial privado, e mesmo se esse existisse, compete sempre disponibilizar ao público essas obras fundamentais. Nos demais casos, a causa básica é exatamente a inexistência, no Piauí, de editoras privadas, até porque a única editora que tínhamos, a Corisco, ao que parece, faliu. No mais, é de lamentar que o Estado seja incapaz de cumprir um simples compromisso assumido publicamente, inclusive pela própria palavra do governador Wellington Dias, que não tem valido muita coisa, como no episódio dos Concursos Literários da Fundac de 2004, cuja obras, premiadas em janeiro entre pompas e circunstâncias, por descaso e incompetência jamais serão publicadas, a não ser que os premiados tomemos, para isso, medidas drásticas. O problema, pois, em meu entender, não está, pelo menos centralmente, do lado da recepção, mas no elo entre emissão e recepção: na editoração, divulgação e distribuição compromissadas e, acima de tudo, competentes. Isso, infelizmente, inexiste no Piauí.


[Continua...]

Nenhum comentário: