sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

amálgama #6 - Poesia: divindade obscura

- Publicado em amálgama #6, março de 2008




POESIA: DIVINDADE OBSCURA ou O SENTIDO DA POESIA HOJE

por Rodrigo Petronio




Perguntar qual o sentido de algo, de uma prática, de um objeto, de uma criação, de uma técnica, de um evento, de um valor, é perguntar qual a sua razão de ser e indagar sua existência. É perguntar qual a essência de seu fundamento, para falar com Heidegger. No caso da poesia, é perguntar qual a instância projetiva de seu ser-no-mundo, de que zona anterior a toda categoria e a toda formalização se origina seu sopro, de que boca inaugural brota a palavra que desvela o ser dos entes, de que região ela se precipita e cai no estado de ser, a sua mundanidade. E se é dela a primazia gnosiológica em relação à filosofia, já que ela é esse murmúrio anterior a todas as categorias, este dia que soletra a sua luz e que nos abre a própria possibilidade dos conceitos, pode-se restaurar, sem qualquer excentricidade profética ou inclinação messiânica, a velha correlação filológica, segundo a qual vate se chama tanto o poeta quanto o profeta.

Porém, perguntar o seu sentido é também indagar o seu telos, sua causa final, sua razão prática, sua dimensão enquanto técnica e artifício. É perscrutar o mistério semântico de sua inserção no mundo. Assim, ao agregar finalidade e sentido, talvez possamos pensar, com Octavio Paz, que a poesia, na medida em que compartilha a estrutura do pensamento mítico, faz a sua finalidade recair sobre a sua própria existência, e cria assim o curto-circuito entre seu valor e sua função. Produto humano entre artefatos puramente humanos, não se guia pela lei da utilidade, que é premente entre todos os artefatos, senão pela lei que a desloca de toda e qualquer aplicação imediata. Produto transcendental da voz das origens que a incendiou pela primeira vez, fogo cujo desempenho depende da combustão de cada novo poema escrito sobre a Terra, também não se esgota em sua enunciação, no seu efeito, na sua maquinaria sensível, na sua órbita de atuação, no seu centro de gravidade. Fogo autotélico, busca o centro de onde dimana sua força, mas também quer transcendê-lo rumo à integração radical com o Outro. Ação mundana e criação que altera a lógica da realidade mais palpável e ordinária, só pode alterá-la em medida proporcional ao seu mergulho até o âmago de sua condição de interioridade pura, pois só assim sua existência será efetiva como gesto, a sua potência será atualizada como obra, a sua suprema carência de sentido prático será iluminada pelo desocultamento da vista que enfim poderá enxergar o Aberto.

Talvez seja nesse campo de interrogações que possamos pensar a importância da poesia hoje. Desde a instauração do projeto humanista do Iluminismo, o homem creu piamente na evolução da técnica, e a colocou no lugar do bom Deus como instrumento da nossa felicidade terrena e da transmutação do mundo dentro do limite do impossível. Crente da ciência positiva, pregador do Evangelho do esclarecimento, paladino da dialética da História e sua incontornável ascensão rumo à supressão de todas as necessidades e de erradicação de todas as injustiças, o homem transformou estes valores em uma etapa necessária à construção da utopia de um mundo totalmente controlável. O sentido em direção ao futuro esteve durante todo esse tempo invicto: a flecha de luz rumo à consumação já não anunciava a vida sobrenatural de além-túmulo mas sim a glória terrena que se delineava possível no final do horizonte de nossas vidas. A subordinação da Natureza pela técnica, base de toda a concepção humanista, nos conduziria inevitavelmente a tornar a fonte transcendental da vida desnecessária. O sentido do mundo estava todo ele adormecido sobre o sentido do tempo, seta voando em direção ao paraíso deste mundo. Cada qual a seu modo, não foram outras as utopias de Feyerabend, Marx, Hegel. E Auguste Comte chegara mesmo a propor que a humanidade segue três etapas de evolução: a teológica, a metafísica e a positiva. Superadas as duas primeiras pela vitória triunfal da razão, caberia simplesmente a nós vivermos no gozo do mundo reduzido à sua pura transparência, sem qualquer espessura que não pudesse ser devassada pelo olhar devidamente educado pela ciência.

Com o fracasso desses projetos escatológicos da modernidade, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, e com as possibilidades mórbidas de manipulação da vida que a ciência positiva nos proporcionou, em seu louvor cego à neutralidade, todas essas concepções finalistas se tornaram inviáveis, para não dizer equívocas. Eis o ponto de viragem da lógica poética. Eis a importância da poesia nos dias de hoje. Restaurando-nos à temporalidade imanente do mundo tomado em sua duração, sem submetê-la às amarras dos sistemas e aos dogmas de uma felicidade postiça, ela nos devolve à esfera de atuação do mito e às margens esquecidas do pensamento. Funciona como linha-de-fuga por onde escapa o devir inapreensível da experiência viva e a vivência do instante existencial que mais uma vez se abre em leque. O futuro reflui de novo à sua origem pregressa, e é assimilado no tempo complexo do poema, simultaneidade de vários acordes vibrando à revelia de um mundo sempre na iminência de ser reduzido a ruínas.

É assim que ela pode dar o seu salto e propor a reinvenção do real: sobre o abismo do sentido subordinado à hipótese do futuro redentor que não é mais possível, ela finca raízes no presente, tomado em sua bela precariedade e em sua movência sem direção fixa. É desse húmus que pode germinar a possibilidade de um outro mundo. É dessa natureza auto-incidente que ela gera o seu mistério, que consiste em sua condição essencialmente ambígua. Assim, é desse movimento circular que se esgota em si mesmo mas que, ao mesmo tempo, produz em nós aquele amor à liberdade que está na raiz de todas as revoluções, que se pode conceber a hipótese de outra realidade. Não mais nascida dos sistemas filosóficos que canalizaram o rio do tempo em direção ao futuro de uma luz pia e redentora. Mas sim originária daquela matéria incandescente, daquela divindade obscura de que nos fala D. H. Lawrence, para qual não há explicação plausível e provavelmente nunca haverá. Mas que sempre estará presidindo a origem da vida e a sua manutenção eterna, no centro do turbilhão de sua metamorfose infinita.


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Rodrigo Petronio nasceu em 1975, em São Paulo.
Autor de História Natural, Assinatura do Sol e Pedra de Luz (poemas);
e Transversal do Tempo (ensaios).

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