quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

amálgama #6 - Liberdade de Expressão: Mito ou Falácia? [parte04]

- Publicado em amálgama #6, março de 2008


LIBERDADE DE EXPRESSÃO: MITO OU FALÁCIA?
Reflexões sobre a produção e a dissimulação de sentidos

por Roselany Duarte


[continuação...]


Considerações finais


Como se vê, se por um lado os conteúdos implícitos subentendidos facultam ao analista uma apreensão bastante refinada dos mecanismos interpretativos, revelando a opacidade inerente aos conteúdos semântico-pragmáticos, por outro lado exigem um exercício interpretativo minucioso e responsável. Do contrário, estamos imputando a outrem conteúdos que na verdade fomos nós que criamos.

Para Ducrot, o ato enunciativo põe em cena um jogo sutil de responsabilidades que se firma no entrelaçamento entre o conteúdo explícito (o posto) e o conteúdo implícito (o pressuposto e o subentendido). O posto é aquilo que o locutor afirma, o subentendido é o que o locutor deixa a cargo do ouvinte e o pressuposto pertence ao domínio comum dos dois, exigindo deles uma relação de cumplicidade.

Sendo assim, “poder-se-ia dizer que o pressuposto é apresentado como pertencendo ao ‘nós’, enquanto o posto é reivindicado ao ‘eu’, e o subentendido é repassado ao ‘tu’” (DUCROT, 1987, p. 20).

Conforme Bakhtin (1981a), o discurso é a arena dos embates ideológicos. A reflexão sobre as informações implícitas, sem negar este postulado, acrescenta que esse embate nem sempre é direto. Aquilo que se diz explicitamente num discurso, fica exposto a controvérsias e objeções por parte do interlocutor (ZANDWAIS, 1990).

Em geral, é esse o motivo que leva algumas pessoas, comumente as de algum status social, a tornarem seus discursos lacunares, imprecisos. Assim elas podem se isentarem da responsabilidade pelo que dizem, afinal só podemos imputar culpa a uma pessoa pelo que ela disse, “somente aquilo que é dito pode ser contradito” (Id., Ibid., p. 12).

Portanto, a arena de embate ideológico encontra-se não apenas no que se diz, mas também no que fica implícito. Poucas pessoas enunciarão dizeres como “Sou racista” ou “Sou homofóbico”, mas o discurso do racista ou do homofóbico certamente deixará marcas que somente se dão a conhecer através de raciocínios dedutivos, que pressupõem, tanto análises das condições sócio-históricas de produção dos atos de comunicação verbal, como conhecimento das leis que governam a lógica das línguas naturais. (ZANDWAIS, idem, p. 13)

Os discursos que circulam na sociedade, ao contrário do que pensa o senso-comum, nem sempre objetivam transmitir informações. Às vezes os enunciadores querem é parodoxalmente dizer para não dizer ou dizer um pouco e esconder o muito. Para isso tornam suas enunciações opacas e lacunares.

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Roselany Duarte é professora universitária.
rosedeholandaduarte@hotmail.com



BIBLIOGRAFIA

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1981.
CHARAUDEAU, P. & MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2006.
DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2002.
FIORIN, J. L. (org.). Introdução à lingüística 1: objetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2002.
GRICE, H. P. “Logic and Conversation”. In: COLE, P. & MORGAN, J. (orgs.). Syntax and Semantics. Vol. 03. New York: Academic Press, 1967.
GUIMARÃES, E. Os limites do sentido: um estudo histórico e enunciativo da linguagem. Campinas – SP: Pontes, 1995.
KERBRAT-ORECCHONI, C. L’implicite. Paris: Armand Colin, 1986.
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MAINGUENEAU, D. Pragmática para o discurso literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MAINARDI, D. A tapas e pontapés - crônicas. 4° ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.
ORLANDI, E. P. A Linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Campinas - SP: Pontes, 1996.
ZANDWAIS, A. Estratégias de leitura: como decodificar sentidos não-literais na linguagem verbal . Porto Alegre: Sagra,1990.

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