quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

amálgama #6 - Haicai, haicais - Uma entrevista com Paulo Franchetti [parte02]



HAICAI, HAICAIS
uma entrevista com
PAULO FRANCHETTI


por Wanderson Lima


[continuação...]



Wanderson - Já existe um haicai “brasileiro”? Se existe, quais as peculiaridades deste?

Franchetti - Não sei se existe um haicai “brasileiro” para além da determinação da língua. Quero dizer: não acredito em uma essência brasileira que possa ser identificada no haicai ou em outra forma literária. Há um desejo de ser brasileiro, tanto no haicai quanto em vários outros produtos culturais. E existem vários modelos de haicai que desejam para si a qualificação “haicai brasileiro”. Em certo sentido, poderia dizer que o mais “brasileiro” modelo de haicai é o de Guilherme de Almeida, porque é único no mundo, com o seu título e seu precioso esquema de rimas. Além disso, o haicai guilhermino tem muitos praticantes, em vários estados do Brasil. Mas esse me parece o que tem menos de haicai e o que é menos interessante enquanto forma e enquanto prática e modelo. Também poderia dizer que o haicai tradicional, tal como praticado, por exemplo, pelo Grêmio Haicai Ipê, é o mais “brasileiro”, já que se faz inteiramente a partir de um inventário de nomes de fenômenos atmosféricos, plantas e animais da natureza brasileira. Mas justamente essa obsessão com o catálogo das palavras-de-estação (kigos) me parece muito japonesa e o resultado poético às vezes parece um tanto estranho, pois a naturalidade da expressão lingüística muitas vezes é sacrificada em nome do uso do termo correto, quase científico, constante do catálogo. Por outro lado, seria igualmente possível argumentar que o haicai que provém da matriz Paulo Leminski, com os seus trocadilhos e tom de slogan e de “sacada”, é mais “brasileiro”, porque corresponde melhor à imagem corrente: brincalhão, informal, esperto e afetivo. Entretanto, se essas características se encontram nos melhores poemas que Leminski denominou haicais, elas também se encontram no resto da sua poesia, e em muito poema breve que atesta a sua influência. Uma vez que não há recusa à personificação, à metáfora ou à exposição sentimental, o “haicai” leminskiano acaba restrito à indicação de filiação ou à intenção indicada num título ou projeto. Nisso, sem dúvida representa um processo extremado de assimilação brasileira do haicai, em que o haicai passa a ser apenas, como nome e como forma, uma indicação de origem. Se, sob cada um desses ângulos, cada uma dessas vertentes do haicai poderia ser muito “brasileira”, e se é impossível sintetizá-las numa só, ou mesmo encontrar um mínimo múltiplo comum entre elas, a afirmação da maior brasilidade de uma ou de outra acaba por ser menos um ato descritivo do que valorativo. De modo que a questão acaba por se despir de interesse real. E a pergunta sobre a “brasilidade” do haicai talvez deixe de fora tendências importantes. Um exemplo é um tipo de haicai que pode ser descrito como de inspiração “zen”, e que tanto pode provir da matriz leminskiana, quanto da tradicionalista, mas que delas se distancia por recusar tanto a metáfora, a personificação, a exibição técnica e a expressão direta do “eu” no poema, quanto a obrigatoriedade do “kigo” (palavra que indica a estação do ano) quase científico e a rigidez métrica. Nele, há poucas marcas que poderíamos identificar como “brasileiras”, exceto a extrema coloquialidade da expressão e a recusa a qualquer determinação formal ou temática. E, no entanto, talvez seja aqui, nessa vertente à margem de toda rigidez e de toda caracterização “brasileira”, que se localize muito do que hoje se faz de melhor no Brasil sob o nome genérico de haicai.



Wanderson - Entre os grandes haicaístas japoneses, Issa parece-me ser aquele mais aclimatável ao Brasil, dada, entre outros aspectos, a sua forma de humor. O senhor mesmo já frisou, en passant, pontos de aproximação entre Issa e Bandeira.

Franchetti
- Creio que Issa é mais assimilável pela sensibilidade média de hoje. Nos seus haicais, sente-se muito mais do que em Bashô ou Buson o caráter pessoal da experiência. Issa se refere a si mesmo em muitos textos, expõe mais claramente os seus próprios sentimentos. Quando lemos Bashô, o texto não é tão evidente. Depende de mediações culturais várias: é preciso, no caso dos haicais que vieram em diários de viagem, ler o texto em prosa, conhecer a situação em que foram compostos; e muitos dos seus haicais pressupõem conhecimento histórico e literário específico, pois são alusivos e retiram parte da sua força do procedimento de trazer para o momento rápido da percepção individual o pathos de um evento anterior. Buson, por outro lado, produz uma impressão de extrema objetividade. Já a poesia de Issa parece escrita por alguém que deixa transparecer a sua pessoalidade, por alguém que, no pequeno espaço do haicai, se lamenta, ri de si mesmo, condói-se da própria miséria, saboreia intensamente os aspectos agradáveis da sua vida de extrema pobreza, exibe uma grande ternura pelo pequeno, pelo desprezado, pelo marginal, e ao mesmo tempo busca uma expressão despojada, simples. Essas características me parecem torná-lo mais próximo da sensibilidade ocidental marcada pelo romantismo. E, para quem leu Manuel Bandeira, é fácil ver que alguns aspectos da descrição que fiz do haicai de Issa poderiam encontrar alguma correspondência na descrição da sua poesia.


[continua...]

Nenhum comentário: