domingo, 30 de novembro de 2008

amálgama #5 - A vida é sonho



Publicado originalmente em amálgama #5, agosto de 2004.




A VIDA É SONHO

por Rodrigo Petronio


Pedro Calderón de la Barca nasceu no ano de 1600, exatos cinco anos antes da publicação da primeira parte do Quixote. Creio que o ponto central de A Vida é Sonho, considerada pelos especialistas sua obra máxima e também a que gozou de maior prestígio junto ao público e seus pares, seja o jogo entre os dados considerados reais, ou seja, tudo aquilo que cerca o protagonista Segismundo, e a hipótese sempre reiterada de que tudo talvez não passe de ilusão. É desse limiar entre res e uerbum, entre as palavras e as coisas, entre os fatos e a verdade poética que Calderón parece tirar a substância, a matéria-prima de sua peça. Qualquer referência à obra de Cervantes e à ilusão continuada de que padece o seu cavaleiro andante, não será mera coincidência. E talvez possamos dizer que não é ao Quixote, literalmente, que ela se refere, mas sim que ambas as obras ilustram exemplarmente a forma mental e os códigos artísticos de uma época: não expressam, de maneira instrumental, a realidade, mas fundamentam o real. E no que se baseiam essas afinidades?

Em primeiro lugar, em um tipo de distanciamento estóico que está o tempo todo quebrando a possibilidade de Segismundo tomar o que vive tal e qual. Encarcerado na masmorra pelo rei, seu pai, devido a uma premonição astrológica que o profetizava como o déspota que destronaria o poderoso, ele é submetido a uma simulação que, tirando-o do cativeiro e colocando-o no trono, quer testar se sua predisposição bestial confirma o que o sacerdote leu nos astros. Mas aqui há um paradoxo interessante: Segismundo se encontra em um estado bruto, adormecido sob uma aparência selvagem; mas quem o moldou assim não foi a Natureza, mas os anos de confinamento preventivo a que as crenças religiosas o condicionaram. Sob esse ponto de vista, a peça de Calderón é uma obra de inclinação moralizante: dá-nos, ao fim e ao cabo, a humanização do protagonista, que perdoa aqueles que o puseram na condição que estava e passa a crer que a virtude só é alcançada se domamos em nós o ímpeto e o instinto, e se obramos bem, proposta que está dentro de uma chave de pensamento próprio à Contra Reforma, com o qual o autor se afinava. Espécie de teatro de formação, com pontos tênues de contato com o que posteriormente seria chamado de Bildungsroman, romance de formação, a obra de Calderón ilustra e mostra, na trama dos personagens, algo passível de ocorrer na vida real, e nos dá também os exempla: o domínio das paixões e a retidão do espírito são o único caminho para a bem-aventurança.

O crítico espanhol Marcelino Menéndez y Pelayo sugere que os personagens Rosaura e Clarín não têm consistência, e que suas primeiras falas, no início da obra, são metáforas vazias que predizem todos os possíveis defeitos estilísticos que haja no seu decorrer. Mas Pelayo, ilustre detrator de Góngora e do gongorismo, que usa para a sua desqualificação, estes sim, os argumentos mais vazios e desinteressantes aos quais pode se dedicar um homem da sua erudição, parece não perceber que é justamente dessa construção de metáforas levada a um alto grau e da versatilidade do verso de Calderón que se extrai a condição poética de uma ação que transcorre o tempo todo entre a imaginação e o fato, e que dão os alicerces para os belos monólogos de Segismundo. Calderón nunca poderia ter escrito A Vida é Sonho se guiando pelo estilo claro, ágil, volátil e popular de Lope de Vega, e se devemos recriminá-lo pelo excesso de artifícios de que lança mão, por que não fazê-lo também em relação a Lope, em virtude da completa ausência deles? Pontos de vista.

Quanto aos personagens Rosaura e Clarín, são o contraponto de uma invenção a várias vozes. Se os motivos que os levaram ao castelo de Segismundo são às vezes pouco verossímeis e até mesmo obscuros, seria exigir demais de um artista querer que ele dê conta de desenvolvê-los com a mesma aptidão com que desenvolve o tema principal. Seria, em outras palavras, o mesmo que criticar Claudio Monteverdi por intercalar em suas obras orquestrais pequenos motivos que expiram em si mesmos.

Edmund Wilson diz que a obra demonstra a passagem alegórica das forças amorfas da Natureza e do embrutecimento às luzes da civilização, o que é uma interpretação sensível e justa. Só acrescentaria o seguinte: o próprio Calderón parece jogar, ainda que dentro de limites muito estreitos, com as próprias concepções de natureza humana e a sua contrapartida. Basta lembrar o excelente monólogo de Segismundo, onde ele compara a sua condição à da serpente, da ave, do peixe e do rio, e, em detrimento de sua humanidade iminente, parece equivalê-las, passagem que, por si só, já garantiria a inserção da peça entre as obras-primas da poesia lírica e dramática.
Atualizando o mito platônico da caverna, que serviu ao filósofo grego para demonstrar que, quando dentro destas, apenas podemos entrever as sombras que se projetam no seu interior e estamos presos às contingências do sensível, sem acesso ao sol atemporal da Idéia, A Vida é Sonho mostra o percurso de sujeição dos instintos rumo à beatificação concedida pelo perdão e o domínio de si. Diz-nos que a vida é efetivamente um sonho se não nos guiamos pela vontade de aceder à luz, que em um sentido amplo e metafísico é Deus, e em um restrito e político, os valores católicos e sua ética.


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Rodrigo Petronio nasceu em 1975, em São Paulo.
Escreveu textos críticos para revistas como Bravo!, Cult e Agulha.
Colabora com regularidade para a revista virtual Trópico e os jornais Rascunho, Estado de Minas, Jornal do Brasil e O Globo.
Publicou o livro de poemas "História Natural" e o de ensaios "Transversal do Tempo" (Prêmio João Emerenciano, do Conselho Municipal de Cultura do Recife, 2001).

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