sábado, 29 de novembro de 2008

amálgama #5 - O nu confesso



Publicado originalmente em amálgama #5, agosto de 2004.




O NU CONFESSO


por Adriano Lobão Aragão


Aos que se debruçam ante a poesia contemporânea, é recorrente a classificação poundiana de autores dentro da seguinte escala: inventores; mestres; diluidores; bons escritores sem qualidades proeminentes; beletristas; iniciadores de manias. Vencedor do Concurso Novos Autores, promovido pela Prefeitura de Teresina em 2000, Hermes Coelho, com o livro de poemas Nu (Fundação Cultural Monsenhor Chaves, Teresina, 2002), estaria, no máximo, como um beletrista; isto é, “homens que na realidade nada inventaram, mas que se especializaram em algum aspecto peculiar da escrita, que não podiam ser considerados como ‘grandes homens’ ou como autores que estivessem tentando propiciar uma representação completa da vida ou de sua época”. Ainda assim, é possível estarmos sendo por demais benevolentes, mas fica tal risco como incentivo por tratar-se de obra de estréia.

Coelho construiu uma obra exacerbadamente egocêntrica, voltada para um eu-lírico repleto de resquícios românticos, tendo o caráter confessional como elemento fundamental. Utilizando um processo de auto-investigação sentimental e de supervalorização do eu, deu continuidade à tradição do poeta-bardo: aquele que dedica-se à exposição de sua personalidade. O livro expressa um exercício de sublimação que reflete o próprio conceito de poesia romântica, avaliada a partir do que é capaz de reproduzir de uma experiência pessoal. O culto do contraste soa como mera alegoria e não uma incursão barroca, conforme se pode notar no poema Alma Barroca.

Tenho alma barroca –
oca, de barro formada –
cheia de tudo errado,
de frente, de lado, na mente,
pra me fazer diferente,
sendo calibradamente
um desequilibrado.


A base constante é o ego, como o poema Id assim o revela (novamente o contraste é pura alegoria), utilizando a palavra “eu” em fonte cada vez maior para encerrar a fórmula “eu > tu”. Lembrando que a palavra “eu” e o símbolo “maior que” estão impressos em tamanho exageradamente maior que a minúscula palavra “tu”. A tentativa de revelar este ego é a justificativa do título do livro, Nu, não se tratando, obviamente, de uma obra erótica em sua essência. Aliás, o corpo em si não é temática recorrente. Uma justa exceção seria o poema Show (Eu quero transar no Parnaíba / Ser pego gozando no teu canal / ...), um dos bons momentos de seus versos. Educado sob os rígidos princípios cristãos da Igreja Batista, conforme informa a orelha do livro, Coelho deixou de lado o que poderia fazer de Nu uma boa obra: o conflito religioso, quase totalmente descartado, restando apenas um fragmento, o poema Teologia.

Encontrei Deus –
fugi.


Mas retornando ao “aspecto peculiar da escrita”, expresso no já mencionado conceito de Ezra Pound, seria a preferência por versos livres imbuídos de trocadilhos e contrastes que remetem, quase sempre, a rimas enfadonhas (“Estou em falta / comigo / sem tigo” ; “(...) teu marfim / um querubim / pra você e pra mim”) ou a valorização de coincidências de significantes como se fossem “achados lingüísticos” (“A vida me leva / à força / à forca”) típica de herdeiros das brincadeiras semânticas popularizadas nos anos 70. Porém, a poesia desenvolvida naquela época estava sob a mira da polícia e da política, envolta na manifestação de denúncia e protesto, e na proliferação de poemas espontâneos, mal-acabados, irônicos, coloquiais, que falam do mundo imediato do próprio poeta. Apenas a esta última tendência está aliciada a poética de Coelho, descartando a vertente política. Os poemas D. Pedro I e Primeira Classe, ao buscarem tematizar de forma generalizante, respectivamente, a história oficial e as drogas, soam como corpos estranhos numa obra essencialmente confessional.

O mencionado descuido gerador de poemas “mal-acabados” é tolerável na poesia dita marginal de décadas passadas, descontando então a censura, perseguição ideológica e toda conjuntura política, mas não podemos mais contemplar uma série de fragmentos “a la Leminski” com os mesmos olhos infantis, pois são cada vez mais tênues os limites entre o nefelibata e o confessional.

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