segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Borra de café

[Adriano Lobão Aragão]


O corte no dedo ainda arde. Distração. Pensamento solto, a faca erra seu caminho. Ainda arde. Há poucos dias quisera facas novas, trabalho mais fácil, fio mais cortante. Pensava se algum dia poderia perder um dedo. Talvez este? Quem sabe... Ele não sabe que gotas de sangue temperaram sua comida. Várias vezes. Sentiu-se estranha e feliz por isso. E esboçou um leve riso, pois realmente as coisas não são mais as mesmas. Não há o que lamentar. Com ajuda de sabão, conseguiu retirar a aliança. A estranha circunferência que ela preenche com seu dedo. Buscava lembrar o instante exato em que se cortara. Não conseguia. Percorrendo o pequeno corte passou a observar as dobras dos dedos, que no futuro novas rugas a elas se juntarão, assim como tudo que é inevitável. Na palma da mão, outras linhas. Uma senhora já as lera uma vez. Eram muito novas, ela e as irmãs. A velha disse coisas tão bonitas que teve medo de um dia cortar as mãos, mudar aquelas linhas. Bobagem. Alguns risos, algum dinheiro, foram embora as três irmãs felizes com seus destinos. Agora ela prepara café.

Continua esperando a água ferver. Ainda com a camiseta de dormir, um pé sobre o outro, o cabelo em desalinho, vestígios de uma noite mal-dormida. Em seus olhos via-se a necessidade de dormir. Bocejava durante o dia inteiro. Sentia dores de cabeça. Culpava a insônia. A inutilidade dos comprimidos. Deveria mesmo era voltar para cama. Talvez dormir. Talvez sonhar. A água quente na chaleira recebe o açúcar, o pó de café. Logo o marido terminará seu banho, precisará comer e sair. Busca nos grãos de açúcar um gosto doce na boca. O líquido atravessa o coador, acomoda-se no bule.

Breve, o marido acabara de beber seu café, comer seu pão com queijo e presunto e sair para o trabalho. Deve voltar no fim do dia. Ela caminha até o banheiro, é hora de se recompor. Põe ordem em seus cabelos, olha-se no espelho e acha-se simpática. Procura sorrir. Durante o jantar, perceberá que ela está sem aliança. Quando discretamente ele indagar, dirá que esqueceu na pia.

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