domingo, 19 de outubro de 2008

amálgama #4 - Poesia e Escola

- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.


[continuação...]


o E N S I N O de P O E S I A
por Dílson Lages Monteiro



Lugar de poesia é na escola. Certo? Se se averiguar a relevância dela na formação do educando, a resposta, inevitavelmente, há de ser sim. Entretanto, vasculhando-se detidamente a prática vigente na educação brasileira, logo se observa – a poesia não habita, via-de-regra, o seio escolar. Por quê?

Micheletti, Peres e Gebara, citando pesquisa organizada por Lígia Chiappini, publicada no volume 2 da coleção Aprender a ensinar com textos, da editora Vozes, argumentam que o descaso ao ensino de poesia e às atividades relacionadas a este tipo de texto, decorrem basicamente das seguintes causas:

1. Freqüentemente a interpretação textual dada nos livros e materiais afins tem um caráter ‘impressionista’, ou seja, o autor das questões propostas ou dos comentários registra as suas intuições, as suas ‘impressões’ sobre o texto. É comum ouvirmos que a interpretação é livre.

2. Outro Obstáculo encontra-se no modo pelo qual muitos livros didáticos tratam o poema, pois os questionários propostos para a compreensão e interpretação dos textos acabam por solicitar apenas a identificação de dados referenciais, deixando de lado a expressividade dos componentes textuais.

3. Uma terceira razão reside no contexto em que aparece o poema na sala de aula: nas séries iniciais, para memorização da representação gráfica de alguns fonemas e ensinamento de atitudes valorizadas pela escola e pela sociedade; no ensino médio, nas aulas de Literatura, com um enfoque quase sempre voltado para o estudo das escolas literárias.”

Na análise da professora Alice Vieira, em O prazer do texto, perspectivas para o ensino de literatura, “não se incentiva a leitura de poemas, talvez pela ausência de metodologias adequadas, talvez pelo uso excessivo de metodologias importadas. Talvez por um desvio de objetivo do pensamento pedagógico, que aceita apenas as coisas que apontem para uma finalidade concreta e palpável”. Diante desse quadro, que alternativas podem lançar mão os professores para transformarem a poesia em ferramenta pedagógica do prazer e da criatividade?

A educadora paulista Zizi Trevisan, analisando de modo pormenorizado a questão, em pesquisa intitulada Poesia e ensino – antologia comentada, editora Arte e Ciência, fornece contribuição grandiosa para se reverter essa situação. Ela ressalta que o ensino da poesia deve levar em conta, sobretudo, o caráter estético do texto literário, a fim de criar condições para uma exploração acertada do fenômeno poético na sala de aula. Segundo ela, esse tipo particular de discurso, deve ser analisado como uma estrutura de natureza epistemológica, “capaz de gerar um distanciamento do real para um posterior questionamento crítico, filosófico, existencial...” Na prática, como isso ocorreria?

Para a autora, “a leitura estética (da poesia) deve, pois, ser vista como um processo dinâmico-relacional, porque ela produz a multiplicidade de acesso ao texto e a multiplicidade de acesso coloca a realidade textual sempre em nova perspectiva, desenhando, ao final, para o leitor, uma situação global do texto”. Assim, o estudo do poema deve priorizar a relação ritmo-imagem, por meio da qual é sensato explorar o humor, a (re)invenção da carga sígnica dos vocábulos, as relações intertextuais e, essencialmente, a imaginação e os sentidos.

Ler por esse ângulo é, como prega Alfredo Bosi, “recuperar a figura mediante um jogo alternado de idas e voltas: série de re(o)corrências. É referendar a semioticista Lúcia Santaella: “Com seus jogos de palavras, sob palavras, quase palavras, com suas aliterações e coliterações sonoras, com suas paronomasias, rimas e anagramas, a poesia cria fluxos e refluxos, antecipações e regressões de sentido que configuram processos relacionais, equações, diagramas internos animados pelas leis das correspondências, pela força da atração da analogia”.

Urge que a escola seja lugar, por excelência, da poesia. Dessa maneira, pensar uma nova prática para seu ensino é imprescindível, como indispensável uma prática que dialoga com a própria voz dos escritores, num “processo contínuo de realizações de significados a cada vez produzidos e modificados pelo leitor, em novas e diversas leituras”, Afinal, é nisso que reside o prazer de ler e o sentido social da relação ensino/aprendizagem da leitura.

Um comentário:

Patricia disse...

obrigada...

e uns abraços,