terça-feira, 21 de outubro de 2008

amálgama #4 - Outras palavras



- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.





DIÁLOGO
por Jeferson Probo




Leonardo era alferes secretário da Divisão Auxiliadora do Piauí e morava na fazenda Taboca, então pertencente ao município de Parnaíba. Lutou, bradou e proclamou. Um dia, ele chegou ao Brejo, depois foi preso e transportado no Sociedade Feliz:

- Leonardo, algo a proclamar?
- Queridos irmãos que habitais as fecundas margens do caudaloso Parnaíba por um e outro lado, dignai-vos atender as sinceras vozes de um patrício vosso, que todo unicamente se dedica ao vosso bem presente e ainda mesmo futuro.

- Leonardo, onde estão o brio e o patriotismo brasilienses?
- Irmãos, o meu coração se vê dilacerado pelo pungente punhal da mais intensa dor!

- O que quereis, Leonardo?
- Irmãos! Irmãos! Quereis ter a doçura que a força exigia de vós e por violência obtenha o que o dever, a honra e o patriotismo em vão, até agora vos têm tão instante e cordialmente persuadido?

- Como assim?
- A dor me embarga as vozes do sentimento, apenas respiro.

- Esperais algo?
- Quereis que a vossa adesão à nossa santa e comum causa seja obra de força? Pois sereis satisfeitos. Ei-la. Ela se apresenta. Um pé de exército de quatro a seis mil homens já devem ter feito em Oeiras o que cedo vereis; outro de dois a três mil homens vai fazer o mesmo em Campo Maior.

- E agora?
- No curto espaço de três dias tem visto crescer o duplo de seus soldados. Obtida a possível reunião das forças mencionadas, seguros de vitórias, marcharemos alegres a desalojar o nosso tirano déspota do seu último mal seguro asilo.

- E depois?
- Primeiro derramaremos a última gota do nosso sangue, depois gritai comigo: Viva a nossa santa religião! Viva a futura Constituição brasiliense...! Viva a nossa santa independência! Vivam todos os brasileiros honrados, briosos e intrépidos!

- Que vos falta?
- As minhas obras, pois que, segundo o Senhor Jesus, a árvore se conhece pelos frutos, porém, os meus ainda não podem ser apreciados pelo público, que os ignora. O talento, porém, também nasce às vezes demasiado cedo, ou demasiado tarde. Se nascem muito cedo, antes do seu século natural, passam ignorados; e a sua glória começa quando eles já não existem.

- Que vos prende a língua?
- Camões, que hoje é idolatrado pelos seus patrícios, foi desprezado dos seus contemporâneos, que o deixaram morrer em lastimosa indigência. Também eu, vim a este mundo demasiado cedo, ao menos para a minha província, onde por vários anos solicitei debalde a proteção pública e particular. Se eu me enganei na minha esperança, se ela foi mal fundada, o que não presumo, só a experiência me poderá convencer, e cujo resultado não está distante, eu o aguardo esperançoso, porém, impaciente.

- Que vos impede os passos?
- Limoeiro.

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