quarta-feira, 1 de outubro de 2008

amálgama #3 - outras palavras [02]

- Publicado originalmente em amálgama #3, maio de 2002.





As plantas de cobre
por Adriano Lobão Aragão


No limiar do quintal, meu avô enterrava cobres. Naquele fim de terreiro, traçava seus planos de plantar riquezas. Meu pai dizia que a única coisa que meu avô trouxe pra casa foi essa mania de mexer com terra. Ele não sabia dos cobres que a terra encobria. Um dia, descobri a serventia para esse dinheiro colhido às escondidas. Por quase tudo que conseguia desenterrar, as meninas maiores da rua de baixo ficavam nuas. Mesmo quando a colheita era fraca, ainda era possível ver um seio nascente, ou tocar levemente suas pernas. Meu avô não tinha noção da ciência dos valores do comércio. Comprava castelos que ninguém via.

- Vovô, cadê seus castelos?
- Não posso trazer. Seria muito dispendioso...

Então apontava o horizonte, seu único valor significativo, mesmo dentro de nossa pequena casa. Depois que meu avô foi enterrado, não tinha mais coragem de desenterrar o dinheiro. As meninas sumiam dentro de suas roupas. Abandonava meu destino o tesouro de um morto. Poucas plantas nasciam e o horizonte se perdia longe de casa.

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