quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Nas cercas, no curral espantamento

_____________________Zila Mamede



NAS CERCAS, NO CURRAL ESPANTAMENTO
Uma leitura de Zila Mamede

[Adriano Lobão Aragão]


O Prato

[Zila Mamede]

Na casa escura, o prato campinava
dimensão magra de conviva e pasto.
Se lume de candeia refletia,
naquela toalha, o barro inerte branco

uma dor de menino sacudia
as miragens de pão que o habitavam.
Liberta de função a branca rosa
desarvorada lua se fazia

nas cercas, no curral espantamento
em que o menino reinventa reino
onde aboiavam prados. Infiltrava-se

na mesa neutra e vã o medo infante:
os dedos cavalgados por fantasmas
serenamente despedaçam luas.
___________________
In O Arado, 1959.



A pintura na América Latina sempre esteve ameaçada por duas classes de frustração: o provincianismo e o cosmopolitismo. A primeira é uma escravidão do tipo local, uma asfixia resultante de voar muito baixo, de confundir os galhos com o bosque, de converter a criação plástica num artesanato e num folclore, na fábrica de objetos pitorescos. A segunda é uma escravidão do tipo universal, uma asfixia por excesso de imitação e falta de invenção, por se dissolver dentro do capricho impessoal e dos imperativos que os grandes centros culturais propõem. Muito poucos pintores conseguiram conjurar ambos os perigos, criando uma obra desdenhosa dessas duas atitudes, cuja originalidade foi se forjando a partir de necessidades emocionais individuais orgulhosamente assumidas e de uma lucidez capaz de recorrer a tudo – o próprio e o alheio, o duradouro e o efêmero – para transformar em arte.” Assim referia-se Mario Vargas Llosa (Dicionário Amoroso da América Latina) à respeito da obra do pintor peruano Fernando de Szyszlo. Com estes mesmos termos poderia se referir a qualquer manifestação artística. A literatura, sobretudo. E nos apropriando das palavras de Llosa, poderíamos atribuir essa busca do que é essencialmente artístico, entre a aldeia e o mundo, entre a lírica personalíssima e as formas fixas da poética ocidental, também à poesia de Zila Mamede, poeta nascida em Nova Palmeira, Paraíba, em 15 de setembro de 1928 e falecida em 13 de dezembro de 1985, em Natal, Rio Grande do Norte, onde organizou e dirigiu a Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que hoje leva seu nome.

Pertence Zila àquela estirpe de poeta que não renega a tradição lírica, não foge da “forma”, ao tempo em que não se submete a ela, mas explora-a, transforma-a em instrumento e não em fim, tal como Carlos Drummond de Andrade (sobretudo em Claro Enigma), João Cabral de Melo Neto, Mário Faustino, Jorge de Lima (magistralmente em Invenção de Orfeu), Cecília Meireles e H. Dobal (A Província Deserta), dentre muitos outros, assim o fizeram. Os sete sonetos de O Arado, em um universo de 19 poemas, refletem menos o que é estruturalmente inerente a sua forma do que a dicção peculiar da poeta, e as sugestivas imagens que seus versos evocam. Publicado em 1959, no Rio de Janeiro, pela Livraria São José, O Arado constitui sua obra seminal, como bem caracterizou Hildeberto Barbosa Filho, em posfácio da reedição de O Arado, pela Editora da UFRN, em 2005: “No âmbito de sua poética individual, O Arado funciona como a obra canônica, na medida em que reflete, mais equilibradas e mais amadurecidas, as experiências do passado. O que vem depois confirma a qualidade de uma dicção lírica singular, mas não ultrapassa os ângulos de irradiação mais iluminados que vêm deste livro/chave.

Tomemos o poema O Prato como exemplo. Nada mais tradicionalmente clássico que o soneto decassílabo. E nada mais provinciano que a família e sua casa, o campo, a noite escura e seus mistérios, sua ambientação tipicamente rural. Essa é a paisagem de O Arado, mas nestes rústicos elementos, por vezes embalados em forma requintada, transcende as duas vertentes pela peculiar lírica de Zila. As dimensões do espaço interno (a casa escura onde se encontram prato, candeia, toalha, mesa) e o espaço externo (o pasto, o curral, a lua), não se opõem, mas se misturam (“Infiltrava-se / na mesa neutra e vã o medo infante”), ampliando sua simbologia alegórica (o prato e a lua; as miragens de pão e os dedos cavalgados por fantasmas despedaçando luas). Perde-se aqui as arestas que amarrariam o poema no provincianismo prosaico, à medida em que ganha através da metáfora a transformação artística, entre os dois “perigos” mencionados por Llosa. Algumas rimas surgem quase que acidentais, mas a musicalidade do poema se impõem de maneira intrínseca, característica bem própria da poeta, apoiada em sutis assonâncias (casa / campinava / magra) e aliterações (barro / branco), sem descambar para o exagero alegórico e meramente exibicionista.

A peculiaridade dos poemas de Zila estende-se além de seus sonetos, mantendo sua mestria em magníficos tercetos, como O Alto (o avô) e Banho (rural), e também se afirmando como uma poeta moderna, imprimindo sua lírica não apenas em versos metrificados, mas mantendo o prumo nos versos livres de Moenda e Colinas e Cabras, dentre outros.

Um livro breve, é certo, mas nisso também reside sua sutileza, como uma essência rara guardada em pequeno frasco, que aqui complemento com as palavras de Osman Lins, “o das verdades que se escondem em nós até que nos tornemos dignos de sua grandeza”.

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