segunda-feira, 29 de setembro de 2008

amálgama #3 - Stultifera navis - O programa estético como fator secundário na geração-70

- Publicado originalmente em amálgama #3, maio de 2002.





Stultifera Navis
O Programa Estético Como Fator Secundário na Geração-70
por Ranieri Ribas


O livro “A História da Loucura” de Michel Foucault relata em seu primeiro capítulo os métodos de exclusão aplicados aos loucos na idade média. A análise, contudo, não se restringe a relatar os fatos históricos, busca compreender o significado social e humano da loucura, bem como a concepção patológica deste problema, visto de formas várias ao longo do transcurso histórico. Os insanos eram postos num navio, a nau dos loucos, e vagavam a esmo pelos mares. Esta prática constituia-se num método de exclusão dos desatinados do convívio social e, concomitantemente, remediação da cidade quanto à presença da insanidade.

Em que sentido esta discussão diz respeito à poesia e a geração-70? Respondo: Navilouca. Não por acaso a revista, cujo título remete-nos aos loucos da idade média, representou um emblema desta geração. Os loucos medievais assim como os poetas desta geração permaneciam numa situação paradoxal de exclusão e participação do mundo. No caso dos membros da geração-70 a exclusão circunscrevia-se as questões político-estéticas, e era voluntária na medida em que os partícipes punham-se numa posição crítica e revolucionária contra o mundo, consolidando o movimento como uma forma de contracultura. A participação decorria do fato qual, embora exclusos e a esmo numa Navilouca imaginária, o projeto político destes autores configurava uma postura reivindicatória orientada por uma escolha ideológica marxista.

É evidente a predominância do vocabulário político quando nos referimos a esta geração. E isto não é casual. Este era um período em que a poesia estava pautada mais por um programa político do que, a rigor, por uma doutrina estética. Por força do contexto histórico, caracterizado pela repressão e pela ditadura, seus autores formularam uma poética anti-repressiva e libertária — ou que pelo menos consideravam libertária — cuja função, por óbvio, era eminentemente ideológica. A libertinagem estética confundiu-se com uma ignorância canônica, avessa ao legado tradicional da poesia e aos movimentos contemporâneos de vanguarda. A.C. Secchin em seu “Poesia e Desordem” refere-se ao orgulho de um autor-modelo desta geração quando este descobre por outrem que sua dicção poética assemelha-se a de Oswald de Andrade (caracterizada pela opção coloquial-irônica no registro de episódios cotidianos). Segundo Secchin, a postura deste autor-modelo seria orgulhosa por ignorar a poética Oswaldiana ou qualquer outra referência de literatura institucionalizada. Indubitavelmente, esta posição de ignorância sectária, embora hipotética e generalizante, fez-me crer ser este o período mais decadente da literatura nacional moderna. Decadente porque sua produção textual permaneceu afogada numa plataforma política juvenil, idealizada por poetas imaturos e reunidos por uma causa comum, política, em detrimento de uma causa poética.

Como prova de meus juízos posso garantir, dando nome aos bois, que os representantes de tal geração, para sobreviver poeticamente migraram para outros plantões estéticos, sobretudo para o Concretismo. Paulo Leminski e Torquato Neto, por exemplo, assumiram publicamente a influência concretista; no Piauí, Rubervam Du Nascimento comprova empiricamente esta hipótese. Aqueles que permaneceram fiéis ao programa subliterário da geração entraram em defunção e nada mais têm a dizer num país que se tornou democrático e adquiriu a prerrogativa da liberdade de expressão. Talvez pudessem renovar a agenda do programa político-estético em que se fundamentavam, colocando na pauta outras questões sociais como reforma agrária, distribuição de renda, exclusão social, etc. Contudo, tal manobra não ressuscitaria ou atualizaria a proposta da geração porque seu programa estético sempre esteve destituído de autonomia, ou melhor, sempre foi refém do programa político. Por outro lado, é possível duvidar da existência de tal programa, uma vez dito que nunca se formulou, aqui ou alhures, um manifesto estético definitivo dos critérios e referenciais poéticos deste movimento. Publicizaram-se, deveras, muitos panfletos de ordem política anti-repressiva, adornados por imperativos revolucionários comunistas. Poesia? só por motivações político-ideológicas.

Afinal, quem tem ou teve como referência à poesia de Chacal e Waly Salomão? Torquato Neto, certamente o maior arauto deste período, produziu sua melhor poesia sob influência concreta, como no poema “Arco/Artefato”. Um outro flanco dos autores setentistas migrou para uma proposta mais amena, afeita a uma dicção drummondiana. A revista “O Carioca”, editada por Guilherme Zarvos e Chacal, é talvez o principal veículo dos refratários deste movimento, sustentando — anacronicamente — a porra-louquice oca de predicados estéticos característica destes autores.

Ana Cristina César (“Retratos do Rio”) afirma em seu estudo que a geração-70 “era marcada por um quase desprezo pela cultura erudita, crendo que assim dessacralizaria a literatura”. Nesta afirmação é possível resumir o relicário de anátemas produzido por uma poética que se pretendia iconoclasta, mas reverenciava Marx e Freud como os deuses da hora; que desprezava a literatura institucional, mas acabou por canonizar Torquato Neto e Paulo Leminski. A recusa da hierarquia poética institucional significou apenas uma substituição de ícones (a palavra deuses é muito forte), institucionalizados dentro do discurso marginal.

É possível afirmar, apoiado aos argumentos sobrescritos, que este movimento teve um valor estritamente histórico, e, portanto, não se estabeleceu como força estética. Por óbvio, esta análise é suscetível de ser solapada, como qualquer outra que o valha, uma vez que parte de dois perigosos pressupostos. O primeiro refereÀse a pressuposição qual: o movimento ocorreu de forma homogênea, desprezando a individualidade autoral. O segundo pressuposto insufla uma possível movimentação organizada da geração. Quanto a primeira acusação, de supressão dos indivíduos pelo grupo, respondo com a segunda pressuposição: sim, o movimento de 1970 arregimentou-se de forma razoavelmente homogênea, sobretudo em questões políticas. E isto ocorreu por uma questão de autodefesa e autopreservação. A plataforma política foi determinante neste caso porque funcionava como uma base de consenso. Todos se contrapunham a ordem política ditatorial e todos pretendiam transformar o exercício poético num instrumento de contestação.

Quando proferiam seu ideário revolucionário anarco-comunista nutridos por uma visão maniqueísta do mundo, estes autores evidenciavam uma postura romântica. Esta postura reproduzia-se não apenas em seu formato ideológico, mas também em sua dramaticidade estética exemplificada nas performances públicas, em bares e praças. Poder-se-ia detectar aí uma influência beatnik, mas não endosso tal leitura. Primeiro porque o movimento beat empreendeu uma releitura do surrealismo, movida por ácido lisérgico e combinada a uma postura nômade-zen de vivência. A geração-70, embora compartilhasse do comportamento zen, desconhecia a fantasmagoria surrealista, gostava do poema episódico, não do monumental. Preferia reclamar dos preços no supermercado a falar das tentações de Santo Antão.

A literatura piauiense tem uma contribuição no estudo desta geração: “Anos 70: porque essa lâmina nas palavras?”. José Pereira Bezerra, deveras, empreende mais um exercício de catalogação de nomes e obras marginalizadas pela editoração (indisponíveis no mercado por causa das confecções mimeografadas) do que uma leitura analítica do movimento. Ao caso piauiense, cuja tradição beletrista se revela pela reverência acadêmica prestada pelos herdeiros de 1945 a autores piauienses como Álvaro Pacheco (Bruno Tolentino propõe uma revisão nacional de sua obra) e Da Costa e Silva (louvado por Merquior), a geração-70 resultou num sopro criativo e construtivo por propor um discurso antiinstitucional. Porém, reverberando a insipidez nacional do movimento, omitiu-se quanto apresentação de uma crítica fundamentada, baseada em opções contracanônicas (propor o nome de Leonardo das Dores como referencial poético, por exemplo). E mais, omitiu-se quanto a empreender uma ação revisionista que atacasse o florilégio literário aqui instituído sem incorrer em discursos poéticos panfletários. Optou pela ignorância como se esta fosse a própria liberdade. E Hoje, alguns dos membros de 1970 aderiram às láureas deste institucionalismo consagratório das academias (Elmar Carvalho), liquidando os resquícios de rebeldia da literatura piauiense, outrora dita marginal.

Não obstante positiva, no caso do Piauí, a influência dos setentistas foi insuficiente em um sentido: o problema do discursivismo poético. É sabido que em termos de uma proposta antidiscursiva, presente em todos os movimentos de vanguarda nacional posteriores a 1950, a geração-70 significou um retrocesso. Era confessional, discursiva e ignorava com orgulho qualquer cânon, ainda que não-institucional. Este veio confessional-discursivo se reproduziu de forma exponencial no caso do Piauí, desconhecedor historicamente de propostas literárias radicais. O único movimento moderno a reverberar por estas paragens até os anos de 1970, o modernismo, consolidou sua influência de forma marginal, sem ruptura da preponderância Parnasiano-simbolista (Cite-se o livro “Pedra em Sobressalto”, de Francisco Miguel de Moura, por sua dicção modernista pioneira). Esta constatação, repito, agrava-se por reafirmar a total omissão para com os movimentos de vanguarda (Concretismo, Futurismo, Surrealismo, Poema-Processo, Poesia Práxis, entre outros) pela literatura piauiense.

É possível detectarmos hoje os herdeiros diretos da geração-70. Refiro-me às edições Não-ser, cujo programa “anarco-existencialista” revolve-nos mais a um projeto político-filosófico que propriamente estético. Este imbróglio entre poesia e filosofia sempre produziu poetas equivocados. Imaginam que o exercício poético deve discursar sobre alguma causa nobre (a morte, o suicídio, o ateísmo, a desgraça, etc. — toda sorte de temas românticos), ou que deva produzir frases célebres, profundas do ponto de vista filosófico, ou ainda, surtir frases de efeito. Ao ser interpelado por um filósofo que escrevia poemas, Mallarmé o retrucou: “a poesia não é feita de idéias, meu caro, mas de palavras”.

É factível afirmar que o movimento da geração-70 representou a primeira tentativa, efetivamente consolidada, de trazer para o Piauí as inovações estéticas da poesia moderna. Ainda que omissos ou ignorantes, em princípio, aos movimentos radicais de vanguarda, os membros da geração mimeógrafo empreenderam uma fissura na literatura local, aberta agora aos experimentos da arte moderna. Digo então aos velhacos conservadores: este processo é irreversível, não é possível arrefecê-lo.


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Ranieri Ribas é cientista político e poeta,
autor de Os Cactos de Lakatus.



Nota: Gostaria de agradecer a Rogério Newton por incitar-me a pensar sobre o tema Geração-70, num encontro que tivemos na cidade do Rio de Janeiro. Ressalte-se, outrossim, o total dissenso entre nós quanto aos argumentos por mim expostos.

2 comentários:

EMERSON ARAÚJO disse...

O nome do historiador/contista da geração 70 é José Pereira Bezerra, hoje, Bezerra JP.

EMERSON ARAÚJO disse...

Vou dizer uma coisa sobre a geração de 70 aqui no Piauí e que ninguém sabe. É um ledo engano considerar que os seus próceres não tinham conhecimento do estético, não liam, não propunham. Lemos muito Maiakóvski, Neruda, Thiago de Mello, Ferreira Gullar, Oswald e Mário de Andrade, Garcia Lorca, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, João Cbaral de Melo Neto, Os irmãos Campos, Drummond, Borges, Machado de Assis, Alencar, ssis Brasil, O.G. Rego de Carvalho, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, etc. Agora, o nosso discurso era anticadêmico, sim, politizado sim, mas, acima de tudo, antiacadêmico. Não éramos preso a nenhuma linguagem, tudo foi possível para desbancar a visão oligarca, também, da literatura piauiense e fizemos de uma forma ou de outra, fizemos. Reparando uma injustiça, o livro de Bezerra JP sobre a geração discute sim o estético/semântico da geração é só ler de uma forma mais apurada.