sexta-feira, 26 de setembro de 2008

amálgama #3 - O desopilador de fígados

- Publicado originalmente em amálgama #3, maio de 2002.


O desopilador de fígados
por Josué Antonio Hernandez




Gabriel Garcia Márquez, em prefácio de seu livro Doze Contos Peregrinos, declarou encontrar maior dificuldade em escrever contos. A narrativa breve requer muita concisão, exige bastante do escritor. Cuidados como esse não parecem preocupar Melquisedeque Viana. Publicando a segunda edição de seu livro Contos e Recontos, concisão e criatividade são termos inexistentes, apesar de “aumentada e reescrita”. Trata-se de trinta contos onde o autor parece subestimar constantemente o leitor. Utiliza um estilo primário. Ao invés de escrever simplesmente “microfonia”, citando exemplo do conto A prova radiofônica, prefere “... o fenômeno conhecido como microfonia.” Essa linguagem prolixa é estendida por todo o livro. Esperar o que de quem afirmou no prefácio que seus contos “visam apenas a desopilar os fígados das pessoas...”?

E lá se foram Teixeira e Gilvan, rezando o primeiro para que o segundo nunca o encontrasse entre os sonegadores da Receita Federal, que jamais o fôra. Somente assim Gilvan viria a saber que se tratava de um quase vizinho seu, morador apenas a duas ou três quadras e que nunca o havia cumprimentado antes, dadas as esquisitices suas (dele, Gilvan).” Parece que o autor não sabe o que fazer com suas próprias palavras. Talvez por isso mencione tanto um certo Teixeira. “É este o pseudônimo deste meu amigo, exímio contador de estórias, que o leitor já conhece de outros contos anteriores, tal como o da cachorra Baleia”. Com certeza, não deve ser o Graciliano Ramos.

O enredo dos contos acompanha o nível rasteiro da linguagem. Inicia com a história de uma cachorra chamada Baleia, que nada tem a ver com a de Vidas Secas, envenenada por um velho comerciante, Lula, por causa de um bacalhau. “Palmas ao cadáver e vaias ao velho Lula foram as manifestações finais do enterro”. Segue-se um episódio patético sobre uísque falsificado, a tara de um bancário por sua empregada doméstica de 16 anos, tudo superficial e desinteressante.

Pelo menos as primeiras linhas de Antiga Metropóle (sic) transparece alguma sinceridade: “esta é apenas uma estorieta”. Trata de candidatos a um concurso da ESA que teve como aprovados “1.Fulano. 2.Beltrano. 3.Sicrano. 4.etc.” Quando acredita-se não faltar mais nada, surge um Decálago (sic) do Casamento Quase-Perfeito (“pois o perfeito é quase impossível”) com conselhos do tipo: “O homem, não sendo feio, não deve casar com mulher feia. Não é preconceito, mas uma pura realidade”. “O homem não deve trair a mulher, sem mais nem menos. Ainda mais com pessoa de nível inferior à da esposa”. Encerra o “decálago” com uma viagem a Paris (“mas para aqueles que podem fazê-lo financeiramente”). E que levem o livro de Melquisedeque na bagagem. De preferência o perca pelo caminho. Quem sabe aprenda que bons escritores não precisam de rebocos mal-feitos entre a ficção e a realidade.

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