domingo, 28 de setembro de 2008

amálgama #3 - O desencantamento do mundo

- Publicado originalmente em amálgama #3, maio de 2002.




por Magnus Pinheiro

A modernidade findou um processo, cuja origem se reporta a tempos bem remotos. A Filosofia o iniciara já na Grécia antiga, com Heráclito, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles, dentre outros. Este processo a que nos referimos é denominado de desencantamento do mundo. O mesmo corresponde à passagem do mito à razão, da magia à ciência e à lógica. Foi ele que, no seu curso, liberou as artes da função e finalidade religiosas, dando-lhes autonomia. A liberação das artes foi um bom acontecimento? Em parte, sim, até porque tiraram-lhes as amarras de então.

Entretanto, a partir da segunda revolução industrial, ocorrida ainda no século XIX, e prosseguindo no que se convencionou agora de sociedade pós-industrial ou sociedade pós-moderna – iniciada nos anos 70 do século recém-findo –, as artes foram submetidas a uma nova servidão. Servidão esta imposta pelas regras do mercado capitalista e, concomitantemente, pela ideologia da indústria cultural, baseada na idéia e na prática do consumo de “produtos culturais” fabricados em série. As obras de arte viraram mercadorias, como tudo que existe no capitalismo. Se o rei Midas transformava tudo em ouro, com um simples toque de mão, o capitalismo transforma tudo em produto de consumo.

A arte, depois de perder a sua luminosa aura religiosa, não se democratizou coisa nenhuma. A mesma, na verdade, foi massificada, sim, para o consumo mais imediatista possível, no mercado da moda e nos meios de comunicação de massa, transformando-se em propaganda e publicidade, índice de status social, prestígio político e controle cultural.

Assim, sob os efeitos da massificação da indústria e consumo culturais, as artes vêm perdendo três de suas principais características: de expressivas, estão tornando-se reprodutivas e repetitivas; de trabalho de criação, as mesmas vêm transformando-se em eventos de consumo, meras carnavalizações; e de experimentação do novo, o que se tem presenciado é a consagração do consagrado pelo modismo e pelo consumo.

É espantoso? É, para poucos, é claro! A galera mesmo – amorfa como é – nem se dá conta. Entretanto, é o que conta. E os produtores culturais, dentro dessa nova ordem, têm-se mostrados exímios. Eles sabem que a melhor receita é a do pão-e-circo. E a galera? Ora, “a galera aplaude e pede bis”. Gente “a galera só deseja ser feliz”. E ainda entoa: “Ai, ai, ai, ai, ai, é bom de mais!” e também atende, muito radiante, ao pleonasmo apelo: “Bota a mão no bumbum e vai descendo, descendo, descendo, até em baixo”. Deixar de segurar o “than”, ora, nem pensar! Afinal, o Faustão manda, o Gugu manda, a Hebe e o Raul Gil também mandam e outros idem, idem e idem. Como não segurar, gente?

Imaginar que essa galera venha a curtir um Guimarães Rosa, um José Lins, um Graciliano Ramos, uma Clarisse Lispector, um Manuel Bandeira, um Cassiano Ricardo, um Carlos Drummond, um Ferreira Gullar, um João Cabral de Melo Neto, um José Paulo Paes, uma Adélia Prado, uma Graça Vilhena, uma Carmen Ganzalez, um Mário Faustino, um H. Dobal, um Rubervam Du Nascimento ou qualquer outro escritor é algo insano. Essa galera costuma dizer, sem o menor constrangimento, que “ler é um saco, dá preguiça”. Também imaginar que toda essa geração, que faz dos shoppings os seus points favoritos e se amarra nos sandubas da Mac Donald, venha a se deleitar, por exemplo, com o Dialogue du Vent et de La Mer, de Debussy, ou com a Nona Sinfonia, de Beethovem, é esperar demais. Agora um pagode mequetrefe qualquer, desses tocados a todo instante nas FM’s da vida, é massa! Idem, idem, massa mesmo é umazinha dessas pseudo-sertanejas, coisa do tipo Zezé de Camargo e Luciano, Leonardo ou Chitãozinho e Xororó.

Gente, é preciso saber que a arte possui intrinsecamente valor de exposição ou exponibilidade. Isto sigifica dizer que ela existe para ser contemplada e fruída. Ela é essencialmente espetáculo, palavra que vem do latim Spectaculum e siginifica dado à visibilidade. No entanto, sob o domínio econômico e controle ideológico das “empresas de produção artística”, a arte vem transformando-se em seu oposto, ou seja, um evento para tornar invisível a realidade e o próprio trabalho criador das obras. Em outras palavras, em algo para ser consumido e não para ser conhecido fruído e superado, como deveria, por novas obras. É, portanto, lamentável saber que tem muita gente que teima e acredita que um show, com laser e fumaça de gelo seco e bumbuns à mostra de uma unzinha qualquer da mídia seja arte.

As obras de arte e de pensamento, através dos novos meios de comunicação, bem que poderiam ser democratizadas. Todos poderiam, em princípio, ter acesso a elas, conhecê-las, incorporá-las num processo educativo em suas vidas e, a partir daí, criticá-las. E os artistas e pensadores, por sua vez, poderiam superá-las, em outras novas criações artísticas. Mas, não! A Internet e, principalmente, o seu uso por toda essa moçada precisam ser repensadas.

Os produtores culturais e, em especial, os gestores da coisa pública devem ter em mente que a democratização da cultura implica – condição primeira, fundamental – na consciência de que os bens culturais – no sentido restrito de obras de arte e de pensamento e não no sentido antropológico amplo – são direito de todos e não privilégio de alguns. Democracia cultural significa direito de acesso à informação e à formação culturais, direito à produção cultural. Democratizar um bem público é dar-lhe higidez, porque o revitaliza a cada instante.

E isso é difícil? De uma certa forma sim; mas é preciso vontade política, pois a indústria cultural anda em via contramão. Ela acarreta o resultado oposto, exatamente, ao massificar a cultura. De início, ela separa os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado. Com isso, há obras “caras” e “raras”, destinadas aos privilegiados que podem pagar e consumi-las, formando uma “elite cultural”; e há obras “baratas” e “comuns”, destinadas à massa. Desse modo, em vez de garantir o mesmo direito de todos à totalidade da produção cultural, a indústria cultural promove a divisão social entre a elite “culta” e a massa “inculta”. E o que é a massa? A massa é um agregado amorfo, ou seja, sem forma, sem rosto, sem identidade e sem pleno direito à cultura. E a indústria cultural é essa coisa hedionda que cria a ilusão de que todos têm acesso aos mesmos bens culturais, cada um escolhendo livremente o que deseja, como se fosse um consumidor em um supermercado.

Magnus PINHEIRO

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