quinta-feira, 18 de setembro de 2008

amálgama #3 - Mário Faustino: um mestre na zona tórrida do Brasil



- Publicado orignalmente em amálgama #3, maio de 2002.


por Elio Ferreira


“Que Santo, Santo, Santo é o Ser Humano
– Flecha partindo atrás de flecha eterna –
Agora e sempre, sempre, nunc et semper...”

(Mário FaustinoO homem e sua hora)


Mário Faustino dos Santos e Silva (1930-1962) nasceu em Teresina, Piauí. Faleceu num acidente aéreo nas proximidades de Lima, Peru, às 5h, na madrugada do dia 27 de novembro, quando o Boeing 707 – PPVJB, da VARIG, explodiu no ar causando a morte das 97 pessoas a bordo da aeronave.

Era um dos mais novos dos 20 filhos do casal Francisco dos Santos e Silva e Celsa Veras e Silva. Em 1940, mudou-se para Belém do Pará. Ali, a partir de 1947, colaborou no Suplemento Literário do jornal Folha do Norte, onde publicou seus primeiros poemas, traduções e contos. Em 1951, estava cursando Língua e Literatura Inglesas no Pomona College, na Califórnia, Estados Unidos, com bolsa de estudos adquirida em concurso do Institute of International Education. Nessa época, fez estágio no Los Angeles Mirror.

Em 1955, publica o livro de poemas O homem e sua hora. De 1956 a 1958, durante quase três anos, assina semanalmente os ensaios críticos de poesias no suplemento literário Poesia-Experiência, ocupando uma página inteira no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, fato inédito na história da nossa poesia. Posteriormente, esses artigos foram editados pela Perspectiva (São Paulo, 1977), com o mesmo nome da página, prefaciado por Benedito Nunes.

Faustino deixou uma produção literária relativamente vasta para sua pouca idade. A coletânea de seus poemas foi publicada postumamente sob o título de Poesia completa/Poesia traduzida (Max Limonad Ltda. – São Paulo, 1985, 325 páginas). Os livros estão dispostos na seguinte ordem: Últimos poemas, O homem e sua hora, Primeiros poemas e Poesia traduzida.

Leitor assíduo dos clássicos gregos e latinos, traduziu poetas de seis diferentes línguas, tais como: Horácio, Dante, Shakespeare, Goethe, Whitman, Baudelaire, Miguel Hernandez, Pound, Eliot, Cummings, Brecht e muitos outros. Realizou o que o poeta norte-americano Ezra Pound fizera com o seu famoso paideuma, ao reunir os grandes nomes da poesia universal, recuperando-os e propiciando aos escritores jovens, às gerações futuras, a oportunidade de conhecerem a obra desses autores. Mário Faustino é um exemplo genuíno de poeta Fabro, o que domina a técnica do fazer poético. Seguindo a classificação poundiana, inclui-se na categoria dos Mestres: “Homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores” (POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo: Cultrix, s/d: 42).

Foi um crítico competente e sincero. Influenciado pelo “Make it new” de Pound, reclamou do desleixe, da postura apática e pouco inventiva dos principais nomes da poesia brasileira da época. Apoiou os concretistas sem, no entanto, vincular-se cegamente às concepções estéticas do grupo paulista. Atualizou sua linguagem com as vanguardas, mas não aboliu o verso do poema; ao contrário, uniu a tradição do verso ao novo fazer poético. No prefácio da Poesia Completa, Benedito Nunes assinala que o poeta piauiense “preocupou-se tanto em captar a tradição poética, aprendendo em contato com ela, quanto se interessou em captar a sensibilidade do nosso tempo” . Talvez, em conseqüência de sua formação clássica, Mário Faustino, em Poesia-Experiência, comete um equívoco grosseiro quando faz restrições a “certas escolhas” de Manuel Bandeira, considerando de mau gosto a poesia de Langston Hughes, um dos mais significativos poetas norte-americano do Renascimento Negro. Mas Faustino era também um crítico em “progresso”, ainda entre os 26 a 28 anos de idade. É possível que mudasse de opinião em relação ao poeta do Harlem, autor da poesia que exprime o orgulho de ser negro e a idéia do “black is beautiful” que se espalhou pelos EUA, além de precursor do movimento literário da Negritude. Este eclodiu na França do final da década de 30, e início de 40, fundado por poetas negros das Antilhas e da África.

A publicação de O homem e sua hora, em 1955, marca o início de uma nova geração literária no Brasil, percebendo-se uma forte inquietação espiritual e a busca do belo, do eterno e do trivial metaforizados. A renovação do poema épico é evidenciada na estrutura e na linguagem narrativa, acentuando-se a interferência do eu-lírico na primeira pessoa da enunciação. Daí a delimitação cronológica e estética do início da Geração 60. Esta nova maneira de fazer poesia vai instigar o surgimento sucessivo de outras obras e autores que farão parte do caldeirão de vários segmentos e vertentes literárias que dominaram o cenário nacional dos anos 60 e 70. O metapoema também ocupa lugar de destaque no livro, emprestando ao discurso um caráter de manifesto poético.

O crítico piauiense Carlos Evandro Martins Eulálio considera que “Mário Faustino se inclui entre os poetas desvinculados da Geração 45, e que têm suas primeiras produções publicadas ainda na década de 50” (A literatura piauiense em curso. Mário Faustino. Teresina: Corisco, 2000: 33). Para o poeta e crítico cearense Pedro Lyra, Mário é, na poesia brasileira, o precursor da Geração 60, por sua obra de estréia, única publicada em vida, ter antecipado certas temáticas e ideais estéticos dessa geração. Faustino nasce em 1930 e “estréia dentro da faixa, mas nasce antes da data início” (LYRA, Pedro. A poesia da Geração 60. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995: 61). A faixa de nascimentos dos poetas dessa geração seria, segundo Lyra, de 1935 a 1955, existindo uma margem considerável de 5 anos antes, como é o caso de Mário Faustino, ou 5 anos depois da faixa geracional. O espaço temporal de 20 anos seria o ideal para agrupar os indivíduos de uma mesma geração, capazes de comungarem dos mesmos interesses, sentimentos de lutas e conquistas sociais ou individuais.

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Elio Ferreira é poeta, capoeirista, professor de literatura,
mestre em Literatura Brasileira pela UFC
e doutor em Teoria da Literatura pela UFPE.

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