quinta-feira, 25 de setembro de 2008

amálgama #3 - entrevista com Paulo Machado e Francisco Miguel de Moura [parte3]

- Publicada originalmente em amálgama #3, maio de 2002.





[continuação...]

amálgama
- O.G. Rego de Carvalho, numa entrevista, declarou que o autor que não pertença à literatura brasileira não pertenceria a literatura alguma.

Chico Miguel - Quem disse isso?

amálgama - O . G. Rego de Carvalho.

Chico Miguel - Eu acho que o autor, para ser brasileiro, tem que ter a condição de ser um autor que tenha o nível dos grandes autores da literatura brasileira. A questão de ser divulgado pelo Brasil inteiro é uma questão de editora, que não tem nada a ver com literatura, mas com marketing comercial.

Paulo Machado - Eu entendo que existam literaturas nacionais. Eu não entendo nem que seja possível considerar a existência de uma chamada literatura regional, a literatura do norte, a literatura do sul, literatura do sudeste, do nordeste, considerando que o território a ser levado em consideração é o do Brasil. Então existe a literatura nacional, independente de onde quer que o autor tenha nascido, onde ele tenha vivido, onde ele venha a morrer. Existem inúmeros casos de autores que foram exilados e deixaram de estar dentro de seu território nacional e por essas razões não deixaram de ser autores nacionais.

Chico Miguel - Aí eu concordo. É o que ele escreveu, não onde ele está nem onde nasceu. É onde ele escreveu.

Paulo Machado – Retomando a minha idéia, nós estamos tratando de literatura, uma arte de se expressar através da língua. Essa língua deve ser uma língua nacional, com suas variações...

Chico Miguel – Justamente! Essas variações é que dão feição às literaturas regionais.

Paulo Machado - ... com suas variantes dialetais e com os enfoques paisagísticos naturais e humanos de cada região, são reconhecidas como obras literárias e passam a ser obras da nação brasileira e os autores são autores brasileiros. Então, Graciliano Ramos é um autor brasileiro não porque ele tenha feito um enfoque voltado para a região nordeste e a paisagem e o homem nordestinos estejam presentes na obra de Graciliano, ou a língua portuguesa de expressão brasileira, trabalhada em termos de linguagem, tenha conseguido a identificação na forma de se expressar dos nordestinos. É uma obra nacional porque conseguiu chegar ao patamar de alcançar literariamente o Brasil, assim como Guimarães Rosa, com diversos outros autores. Eu compreendo as posições de O.G. Rego como positivamente radicais em determinados momentos, mas têm sido de ótima contribuição que a gente tenha conseguido progredir. O que faz com que O. G. seja um autor nacional é a qualidade da obra, e por isso, Francisco Miguel, é que defendo o mesmo ponto de vista em relação a Mário Faustino. Ele nasceu em Teresina, e sua migração para Belém do Pará não foi voluntária. Eu defendo didaticamente que seja positivo para nós a inclusão do Mário como autor piauiense.

Chico Miguel - Eu acho que cada qual tem seu ponto de vista, e o meu já está em livro [Literatura do Piauí]. O.G. Rego de Carvalho, para você ter uma idéia como ele é contraditório, ele escreveu Somos Todos Inocentes para mostrar que era autor piauiense. Mas isso são questões de menor importância, digamos assim. O que importa mesmo é a literatura. Se a gente for radical mesmo, não existe nem literatura brasileira. Existiria apenas literatura ocidental. É tudo uma questão de ponto de vista.

amálgama - Paulo, quem é o lobo?

Paulo Machado - O título do livro, Tá Pronto, Seu Lobo?, como não poderia deixar de ser, é uma criação metafórica. Qualquer leitor que proceda a uma leitura apurada dos poemas que constituem o livro irá identificar uma pista, exatamente no poema Postulado, onde está dito que: fazer poemas é fácil / como amordaçar um lobo. Eu não estou tratando do lobo mamífero. Todas as dificuldades criadas pelas estruturas de poder, inclusive as estéticas, precisam ser desafiadas por quem se dispõe realmente a fazer poesia. Acho que não precisa nem explicitar que fui irônico quando disse que é fácil fazer poemas, e quem faz sabe que não é, e muito menos colocar uma mordaça no lobo.

amálgama - Como o senhor vê a inclusão de seu livro na lista de obras adotadas para o Vestibular 2003 da Universidade Federal do Piauí?

Paulo Machado - A inclusão ou não de uma obra literária em qualquer lista, de qualquer tipo de exames, tem uma única coisa positiva. Talvez seja a questão de foco e que determinado grupo de consumidores, leitores, que no caso seriam involuntários, porque não estariam fazendo opção, teriam suas atenções voltadas num determinado momento para aquela obra. Mas a receptividade da obra não vai depender disso. Portanto, eu não considero que seja mais nada do que isso. Há um enfoque transitório, mas o livro, obviamente, não permanecerá eternamente na lista, independente do valor que tenha.

amálgama - Mas, de qualquer forma, não seria um reconhecimento do valor de sua obra?

Paulo Machado - Eu não sei. Nunca me foram explicitados quais os critérios utilizados, nem quais as pessoas que procederam à escolha. Não sei se foi por estar bastante emocionado, mas me surpreendi, no momento do relançamento do livro, por não ter conseguido identificar entre os presentes nenhum representante da UFPI, ligado ao Departamento de Letras, que possa ter indicado a obra para o Vestibular.

amálgama - Chico Miguel, a Academia Piauiense de Letras exerce alguma função social aqui em Teresina?

Chico Miguel - A Academia tem que se cuidar para não ficar ultrapassada. São questões financeiras, questões de mudança dos tempos, e o principal é criatividade. Mas a criatividade depende dos homens que fazem a Academia. Isso tudo é cíclico, porque a economia também é cíclica, o mundo está numa mudança terrível. Mas acho que a Academia vai se superar. Acho que tem condições de superar.

amálgama – A Academia não estaria, nesse momento, iniciando um processo de estagnação semelhante àquele da geração que sucedeu a geração de sua fundação?

Chico Miguel - Eu vejo que sim, mas quero acreditar que não.

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