sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Senhora das Dores

(ou São Sebastião amarrado à laranjeira)
(ou um samba-do-crioulo-doido para Leonardo)
[Adriano Lobão Aragão]


Dizem que a ema gemeu no tronco do Juremá. Jackson do Pandeiro foi à Limoeiro e gostou do forró de lá. Bem mais azedo que qualquer limão do paraibano era um outro Limoeiro, este em Portugal, que naquele 1823 nos legava ainda ácidos frutos. Que São Sebastião ajude Leonardo de Carvalho Castelo Branco, preso em Limoeiro, trazido do Brasil a bordo do brigue Sociedade Feliz, porque a vida insiste em nomear ironias. Triste epitáfio para quem almeja a liberdade nas terras do Piauí. Porém, canta Gilberto Gil, muitos anos depois, que mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar, pelo sim pelo não, pois milagres acontecem até mesmo entre os infiéis.

Talvez tenha faltado fé a Torquato quando abriu o gás de seu apartamento no vigésimo oitavo aniversário. Pra mim chega. Vocês aí: peço o favor de não sacudirem demais o Thiago que ele pode acordar. Mas nem ele nos acordou. Morrem cedo os que os deuses amam e os portugueses detestam. Para evitar isso, tem Leonardo a assistência do deputado piauiense Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, de nome mais longo que a valia, pois quem precisa de deputado quando se tem a devoção pela Senhora das Dores? Maior fé na santa que nos homens, pois esta prisão é obra humana, como humanas foram as mãos que amarraram Sebastião à laranjeira e puxaram o arco para flechá-lo pelo corpo. Não faltaria fé a Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, pois é tempo de promessas e esperanças. Ganharia Sebastião a santificação e Leonardo um novo nome. Se o santo não morreu na laranjeira, não poderia o piauiense apodrecer no Limoeiro.

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Janeiro 2002

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