segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O que o Garoto Imobilizado Dizia


Ilustração de Gabriel Archanjo

Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002.




Por Adriano Lobão Aragão

As mãos do segurança imobilizam os dois bracinhos. A criança grunhe algo. Parece um bichinho feroz, porém muito assustado. Chora sem lágrimas, não articula palavra.

– Cala essa boca, porra!

A voz grossa do segurança explodia na cara do garoto enquanto um outro menino, Jaime, não conseguia seguir seu caminho. Sumiria em seu cotidiano confortável, não fosse a cena incomum para seus olhos. A mão de sua mãe o leva de volta ao seu mundo.

– Vamos, menino! Isso não é coisa pra ficar olhando!

Jaime queria saber o que o garoto imobilizado dizia, mas não tinha permissão para tanto. Não podemos traduzir aquela linguagem nem comprometer as oferendas que a mãe coloca em sua vida. E o que temos a oferecer ao menininho vagando no estacionamento do shopping em busca de pequenos furtos? Somente a mão forte que agarre seus bracinhos e leve-o para onde? A mão do segurança não assume o papel da Providência. Nem poderia. Diante de um shopping, não seria o segurança o operário do bem-estar comum.

Mas como acabar com esses pequenos mamíferos selvagens que vagueiam entre grandes dinossauros? Esse é o caminho dos pensamentos de Taís, irmã mais velha de Jaime. Sente-se incomodada demais com os terríveis trombadinhas. Tudo poderia ser simplificado, bastaria eles não existirem. Minha querida Taís, bote na sua cabecinha que, sim, eles existem e estão entre nós; mas lembre-se, não são extraterrestres. Ela pensa em suas inutilidades sociais. Não precisamos deles para estragar o dia, conclui.

Coisas humanamente negativas. Não tiveram essas crianças a mão forte que nos levou às oportunidades do progresso humano, do vaso sanitário ao emprego renumerado e à educação escolar. Porém, nossa educação revelou-se inútil nesses instantes. Diante do centro de compras, parece ser o emprego renumerado, ou a renumeração mesmo sem emprego, a única coisa que possui sentido. Um pequeno ladrão não deve subverter a ordem, e sim buscar suas migalhas no dia-a-dia quebrado.

Seus grunhidos advertem: ele é humano. Bem mais humano que eu. Uns o vêem como substantivo abstrato, como democracia, fome ou esperança. Para outros, é bem mais confortável observar o derramamento de sangue na Terra Santa e a fome na África pela tv, onde podemos nos comover como nos filmes ganhadores de Oscar em cartaz nos cinemas do shopping.

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