quarta-feira, 27 de agosto de 2008

amálgama #2 - Lembranças da Meninice de Não Banhar

- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002




Lembranças da Meninice
de Não Banhar

por Jeferson Probo



Manhã de sábado no Mafuá. Eu carregava cesta cheia de tudo e pedia baladeira pra não estudar. Depois de algum tempo compreendi o porquê de tantos livros que Seu Lacerda lia. Ele falava:

- Menino só é gente quando tem termo.

Tardinha do dia, só dormia quando Dona Mundica coçava pezinho, tanto é que acostumei. Até hoje fico insone. Manhãzinha de domingo, na calçada da Pires de Castro, Seu Nezin gostava de cortar laranja e distribuir sonhos sem casca. Dona Corina fazia bife - só a conta - e todo mundo enchia o bucho. Eu malinava pra ganhar outro pedaço. Nessas conversas de pé-de-calçada, o vigia da casa de vovô falava que enchia sacos e sacos com muriçocas. Mentia tanto que dava tristeza no pensamento. No tempo de mangas pelos setembros de caju vovó reclamava:

- Menino, vai logo esfriar o corpo, isso dá fastio!

Naquelas equatoriais tardes, perambulava pelo Ipase procurando o Gerson Papagai, Toin, Júnior, Didi, Marcelo, Ricardo, Manel, Carlu Lulu, Pirrola, Carrola e o Balai. Tudo isso era para não ficar de pareia fora. Das primeiras coisas aprendidas na meninice, o par e ímpar era regra geral, pois não tínhamos um juiz para conciliar o "é nossa". Juntar dinheiro era coisa para merendar na garapeira. Além do pão massa grossa de todos os dias de alguns, lá tinha o que gente sabida chama de ciclo... a vida já se mostrava atrevida e previsível. A pureza de egoísmo que só a meninice proporciona fica para os registros nos devidos compêndios das lembranças.

Quem tinha tino de liberdade era o Andorinha. Ele meninava no caos e equilibrava nos muros alheios. Quando os fogoiós do Ipase Velho ocupavam a quadra onde jogávamos, era só chamá-lo. Andorinha fazia verão pra gente brincar de sonho. De tanto verão, Andorinha jaz no visgo. Os meninos sabidos de cuspe instigavam brigas na FUNABEM, casa abandonada de gente e de sofrimento. No terraço, usávamos meias como luvas de boxe, batíamos em nossas diferenças, em nossas raivas e em nossos medos. A bem da verdade, nada era de morte, era de vida.

Vez por outra, ficava no Mercadinho Econômico jogando conversa dentro com um amigo de Batalha - o Antero - que contabilizava números e sonhos num balcão. Presenciava pessoas escolhendo coisas e desistindo de outras. Vida era aquilo de quitanda. Amizade mesmo! aquilo de amigo! só na meninice. O que depois surge é blá, blá, blá... tapinha nas costas... blá, blá, blá...

Meninice era brincadeira de não banhar, de ser guábis na vida do tudo ou nada, equilibrar na infinitude dos muros para sonhar dentro das árvores alheias, passar cerol nas linhas tortas do destino, brigar pelos arco-íris de papagaios dependurados nos fios de meu Deus, pilotar carrinho de rolamento queimando pele no asfalto, decorar tabuada todinha pra depois jogar bola na praça.

Disso dou fé e a vida certidão.

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