terça-feira, 19 de agosto de 2008

amálgama #2 - Fontes Ibiapina - Folclore & Regionalismo [parte2]




- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002




por Abdenaldo Rodrigues e Adriano Lobão Aragão


João Nonon de Moura Fontes Ibiapina nasceu na fazenda Lagoa Grande, município de Picos, em 14 de junho de 1921. Segundo ele, “pego pra estudar já grande”, veio para Teresina matricular-se no Colégio Diocesano. Formou-se pela Faculdade de Direito do Piauí, exerceu a magistratura durante muitos anos. Foi professor, diretor do Colégio Rural e Artesanal Pio XII, Juiz de Direito e membro do Conselho Estadual de Cultura, da Associação Profissional dos Jornalistas do Piauí, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Primeiro presidente e um dos fundadores da Academia Parnaibana de Letras, fundada em 28 de julho de 1983 e oficialmente instalada em 19 de outubro, do mesmo ano. Na Academia Piauiense de Letras, ocupou a cadeira n° 9, cujo patrono é Alcides Freitas. Colaborou em periódicos, como “Opinião” (1953) e “Avante” (1952), sendo diretor desse último, órgão do Grêmio Centrista “Da Costa e Silva”, (Não confundir com o “Avante” de 1958, dos alunos do Colégio Estadual Zacarias de Góis).

Quando começou a escrever participava de concursos de contos promovidos pelas revistas “Cigarra” e “Alterosa”, nas quais chegou a ser vencedor. Essa fase está registrada em seus dois primeiros livros: Chão de Meu Deus (1958) e Brocotós (1961). Já como escritor consolidado, foi 1° lugar no VII Concurso Nacional do Clube do Livro com o romance Vida Gemida em Sambambaia e Prêmio Mobral com Lorotas e Pabulagens de Zé Rotinho.

A obra de Fontes Ibiapina pode ser assim apresentada: os livros de contos Chão de Meu Deus (1958), Brocotós (1961), Pedra Bruta (1964), Congresso de Duendes (1969), Destino de Contratempos (1974), Quero, Posso e Mando (1976), Mentiras Grossas de Zé Rotinho (1977), Lorotas e Pabulagens de Zé Rotinho (1979), Eleições de Sempre e até Quando (1985), os póstumos Trinta e Dois e Tangerinos (1988) e Dr. Pierre Chanfubois (1988), e os inéditos Amor Roxo, Mentiras de Verdade, Onde a Velha Mediu de Cócoras, Onde o Filho Chora e a Mãe não Ouve e Nas Capengas Rajadas. Os romances Sambaíba (1963), Palha de Arroz (1968), Tombador (1971), Nas Terras do Arabutã (1984), Curral de Assombrações (1985) e Vida Gemida em Sambambaia (1986), que circulou somente após sua morte, mais o inédito Pecado é o que Cai do Cacho. No folclore, temos: Paremiologia Nordestina (1975), Passarela de Marmotas (1982) e o póstumo Crendices, Supertições e Curiosidades Verídicas do Piauí (1993), e os inéditos Gente da Gente, Desfile de Malucos, Mentiras ou não o Povo Conta, Terreiro de Fazenda, Ponta de Terreiro e Almas Penadas. Existe ainda a peça popular em três atos O Casório da Pafunsa (1982), além de ensaios e dicionários.

Pela inexistência de um estudo crítico profundo da volumosa obra de Fontes Ibiapina, podemos dizer que a crítica literária foi ingrata com o escritor, conforme observou Francisco Miguel de Moura no posfácio de Literatura Piauiense; escorço histórico. Cid de Figueiredo, da Universidade de Botucatu, São Paulo, afirma que “não faz idéia de que riqueza infinda o Piauí era portador, de que notável registrador do linguajar do nordestino e de quão notável retratador dos costumes piauienses havia por essas plagas. (...)”. Esse comentário foi extraído do posfácio do romance Nas Terras do Arabutã (1984). Nesse mesmo posfácio, Jon M. Tolman, da University of New Mexico, nos Estados Unidos, escreveu que achava que “muitas expressões contidas no livro (Paremiologia Nordestina) são gerais no Brasil e prestam-se muito bem a fins docentes. A Passarela de Marmotas também tem o seu lado cultural. Acho que vou datilografar algumas para as minhas aulas de português (...)”. Aqui notamos que a potencialidade didática da obra de Ibiapina é valorizada até por um estrangeiro. Então, por que não é dado a Fontes Ibiapina o reconhecimento que sua obra merece? Uma das respostas para essa questão encontramos em Alcenor Candeira Filho, no Jornal da Manhã, Teresina, de 06 de junho de 1982:

“(...) Apesar da atenção que lhe têm dedicado alguns de nossos intelectuais, a verdade é que a obra de Fontes Ibiapina, que já é relativamente extensa, não alcançou ainda um nível sequer razoável de compreensão e de interpretação a ponto de o regionalismo do nosso escritor nunca ter sido estudado, ainda que perfunctoriamente, em qualquer de suas manifestações, das quais a mais importante está positivamente no pitoresco da linguagem. Essa carência pode ser atribuída, certamente, ao fato de Fontes Ibiapina viver no Piauí, longe dos grandes centros literários. Morasse no Rio de Janeiro ou em São Paulo, a obra de Fontes Ibiapina já teria sido, sem qualquer dúvida, esmiuçada pelos editores e pelos críticos literários que comandam o sistema de promoção e reconhecimento dos intelectuais brasileiros”.

O escritor faleceu a 10 de abril de 1986, em Parnaíba. A família prestou-lhe homenagem depois de sua morte, criando a Fundação Fontes Ibiapina. Funcionou na rua Desembargador Freitas, no centro de Teresina, com acervo composto por revistas, jornais, fotografias, diplomas e documentos, além de sua obra, incluindo inéditos e objetos pessoais. Vida Gemida em Sambambaia foi reeditado há pouco tempo pela editora Corisco, que este ano também reedita os contos Trinta e Dois e Tangerinos. A Universidade Federal do Piauí incluiu, na sua lista de obras indicadas para o Vestibular 2003, o romance Palha de Arroz, o que já estimula uma nova edição. Mas é imprescindível o resgate de toda sua obra e a preservação de seus inéditos. Ou seria melhor dizer o resgate de nossa própria cultura?

Um comentário:

JESUALDO disse...

Por este ser um blog piauiense, vejam esse videoclipe, por favor.
http://www.youtube.com/watch?v=18iGdnH1HTQ