segunda-feira, 18 de agosto de 2008

amálgama #2 - Fontes Ibiapina - Folclore & Regionalismo [parte1]

Bico de pena de Genes


- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.



por Abdenaldo Rodrigues e Adriano Lobão Aragão

O homem é a expressão do meio cultural em que vive. Assim foi Fontes Ibiapina: a representação viva da cultura do Piauí, autor de obras que retratam com apuro a vida no sertão através de uma literatura cheia de graça, situada entre o real, o folclórico e o mítico. As pesquisas realizadas por Ibiapina são os mananciais da produção do autor, que busca, nas relações intrínsecas do homem com o meio, matéria-prima para sua literatura.

A produção de Ibiapina está inserida na prosa regionalista contemporânea, contextualizada no Brasil a partir da década de 30, quando, segundo Alfredo Bosi, a ficção encaminhou-se para o chamado “realismo bruto”, identificado na linguagem oral, nos brasileirismos e regionalismos léxicos, onde destacamos José Américo de Almeida (A Bagaceira), Raquel de Queiroz (O Quinze), José Lins do Rego (Pedra Bonita) e Graciliano Ramos (Vidas Secas). Ante toda tradição resgatada no romance de 30 e reinventada nos anos 50 por Guimarães Rosa, temos a estréia de Fontes Ibiapina com o livro de contos Chão de Meu Deus, em 1958, tendo uma segunda edição em 1965.

Em Fontes Ibiapina, não encontramos propriamente um regionalismo mágico, mas a própria pesquisa folclórica, tanto na Paremiologia Nordestina e Passarela de Marmotas, como no restante de sua obra. Para Câmara Cascudo, “o que caracteriza essencialmente uma cultura não é a existência de padrões equivalentes aos nossos no espaço e no tempo. Uma cultura vive pela sua existência”. Desse modo, a cultura nordestina se identifica na própria realidade social. Essa afirmação se estrutura na interpretação do pensamento social de Gilberto Freyre, onde em Casa-Grande & Senzala, publicado em 1933, consegue fazer rigorosa distinção entre raça e cultura. O nordestino, diz o sociólogo, nunca foi uma raça inferior, como queria a elite etnocêntrica que, na diferença, encontrava alicerce para o preconceito. Esse pensamento elitista foi tão enraizado em nossa História, que até mesmo intelectuais como M. Paulo Nunes, comentando Casa-Grande & Senzala, na primeira edição de seu livro Modernismo & Vanguarda, embora critique o etnocentrismo, ainda vê a cultura regionalista nordestina de mulatos e cafuzos como equivalência de atraso: “Eram, isto sim, como em grande parte ainda o são hoje em dia, pessoas culturalmente atrasadas, doentes e desassistidas.” (M. Paulo Nunes, in Modernismo & Vanguarda, p.241)

É inconcebível a existência de uma cultura superior a outra, pois o termo cultura só pode ser concebido do ponto de vista antropológico, já que confundir cultura com erudição é deturpar seu significado. Daí a não existência de déficit cultural e a importância dos trabalhos de Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Noé Mendes, Pedro Silva, Fontes Ibiapina e outros não menos importantes.

O enfoque de Gilberto Freyre abriu um leque de possibilidades que confluíram para o estudo de aspectos essencialmente regionais que, aos poucos, foram incorporados à Literatura Brasileira. A linguagem oral, os costumes, as tradições e as crenças do Nordeste fizeram surgir, pela força de sua expressão, obras-primas como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Vila dos Confins, de Mário Palmério, Vida Gemida em Sambambaia, de Fontes Ibiapina, atingindo o quase “estado bruto” da realidade do sertão nordestino, almejado desde Franklin Távora, ainda no Romantismo, conforme podemos constatar no prefácio de O Cabeleira.

A ficção regionalista se expressa principalmente no Nordeste. A paisagem decadente, os problemas da seca, os costumes e as crenças dão aos ficcionistas regionalistas base para a estruturação de um espaço de conflito expressivo. A psicologia do sertão e o pensamento mítico do sertanejo transcendem a miséria e o drama da seca. Poderíamos dizer que se trata do homem em estado bruto, enfrentando a natureza: a potência do homem diante da seca, sobrevivendo. Até mesmo sua linguagem há de ser bruta; daí a identificação com pedra em João Cabral de Melo Neto (ver os poemas O Sertanejo Falando e A Educação pela Pedra) e o magistral trabalho com a linguagem do sertanejo, notadamente no personagem Fabiano, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Se em Graciliano encontramos a deficiência da linguagem em Fabiano, e a recriação da linguagem em Guimarães Rosa, em Fontes Ibiapina a linguagem também perdeu suas amarras com a norma, buscando a partir de espaço próprio mostrar a significação da fala sertaneja, sem precisar de certa adjetivação excessiva, que encontramos em A Bagaceira, de José Américo de Almeida, por exemplo. Ibiapina fundamentou sua linguagem nas construções simples, sem levar em consideração a sintaxe e a regência.

Almeida Garrett, na primeira metade do século XIX, é o precursor dos estudos das coisas populares e tradições do povo português. Seu interesse parte das influências recebidas das baladas de Walter Scott, as de Burger, e os irmãos Grimm. No Brasil, contudo, o estudo do folclore só vem à tona depois da revolução literária no Modernismo brasileiro, onde há um desprendimento da Literatura Portuguesa. Surgem, dessa forma, folcloristas como Sílvio Romero, Celso de Magalhães, Barbosa Rodrigues, Batista Caetano, Couto Magalhães, Beaurepaire Rilhas e Araripe Júnior. Mas é no Nordeste, com Câmara Cascudo e Leonardo Mota que o folclore atinge o seu auge literário. No espaço piauiense, por sua vez, pode-se citar um seleto grupo de estudiosos que desenvolveram um trabalho de significativa relevância, como é o caso de Leônidas de Sá, no século passado e, mais recentemente, Artur Passos, Pedro Silva, Noé Mendes, João Alfredo de Freitas, Raimundo Rosa de Sá e Fontes Ibiapina. Quanto a Fontes Ibiapina, foi um exímio catalogador das lendas, fábulas e adágios do Nordeste. Embora o seu estudo temático tenha como geografia determinada o Piauí, sua produção se torna universalizada, devido à força significativa do folclore, definida pelas relações do homem no seu cotidiano natural, onde as crendices apresentam um incomparável valor como manifestação social. As fábulas e lendas, ensinava Fontes Ibiapina, “têm sua razão de ser, sua causa, origem, sua utilidade econômica, moral e social”.

Ibiapina partia do princípio de que o folclore é uma manifestação espontânea, mas que se expressa em determinados segmentos sociais, onde é o povo simples das pequenas cidades, das fazendas, da periferia que desenvolve sua criatividade. Na sua obra, existe a consonância da tríade homem-terra-tradição. É através dessa mesclagem que surge um espaço folclórico próprio, capaz de mostrar o pensamento, a ação e a vivência integrados às expectativas e emoções do homem sertanejo, tornando-o sujeito de sua história.


[continua]

2 comentários:

Rabelo disse...

conheço de há muito esse texto sobre Fontes Ibiapina. Gostaria de ver algo mais crítico sobre as obras em folclore do autor. Até porque as referências freyreanas são perigosas, quando não se pesa a implicação política da obra do sociólogo pernambucano.

Adriano Lobão Aragão disse...

Caro Rabelo,

concordo contigo. Trata-se de um texto bastante antigo, no qual colaborei em sua elaboração em 1996, quando ainda estava iniciando meu curso de graduação. Se fosse escrevê-lo ou reescrevê-lo hoje, tentaria, dentro das minhas limitações, dar uma ênfase realmente crítica ao texto, e, é claro, reelaboraria as referências a Gilberto Freyre, que ficaram bastante superficiais. Porém, a questão ainda não me instigou o suficiente para tanto. E gostaria muito que alguém com mais competência neste assunto assim o fizesse.

abraço