sexta-feira, 22 de agosto de 2008

amálgama #2 - Entrevista com Rubervam Du Nascimento e Naeno [parte2]

Rubervam Du Nascimento e Naeno, Vale do Poti, 2002


- Publicada originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.


[continuação da postagem anterior]


Amálgama - O Piauí não aposta em seus valores culturais?

Rubervam - Na verdade, o Piauí precisa sair do atraso econômico para ter um desenvolvimento cultural. Não vejo como ter uma arte forte em uma economia frágil. Daí essa dependência do artista em relação à lei A. Tito Filho, por exemplo. Tem artistas que chegam a posar na televisão defendendo tal Governo, que é passageiro, como são passageiras são as obras medíocres que esses Governos realizam. Quer dizer, o artista não pode deixar se levar por isso. Ele está compactuando com essa situação econômica miserável, que é absorvida e alastrada pelo comando político medíocre. Nós temos uma arte forte. Não podemos desprezar a poesia de um H. Dobal, que é um baita poeta, que pode estar batendo nos poetas lá do Sul, com livros festejados nas Bienais. Para termos uma arte, uma literatura forte, o artista, o poeta deve ser independente para poder exercitar o seu universo criativo.

Naeno - O músico tem uma outra obrigação: se inteirar da literatura para se aprimorar musicalmente.

Amálgama - A classe artística brasileira, e piauiense também, é uma classe que está atrás de um pai cultural. Quando o Collor, figura desastrosa de que ninguém gosta, fechou a Embrafilme e retirou vários incentivos culturais, foi execrado. O pessoal da arte realmente quer um paizão?

Naeno - Essa coisa é interessante. É bem brasileiro e é terrível. É por isso que não se sobressai, não se destaca lá fora. É mais conhecido pelo lado pitoresco do que pelo lado técnico. Um filme que mostra o Brasil, que mostra a realidade brasileira, não é um filme técnico, compatível com os filmes produzidos em Hollywood. O brasileiro nunca vai alcançar aquela beleza de Hollywood porque um filme que o Governo financia é feito de uma forma pequena. Façanha irresponsável, tecnicamente. O brasileiro só produz atrelado a isso. Enquanto a arte for institucionalizada, ela não sai a cara do povo, ela não vai levar ao potencial do artista, mas às tendências que o governo quer. A censura é uma coisa nojenta, tacanha, uma das coisas piores que pode existir no mundo. Mas, no caso brasileiro, foi o tempo em que os artistas mais produziram.

Amálgama - O Chico Buarque de hoje é o mesmo daquela época?

Naeno - O Chico não é mais o mesmo. O que falta é a ira do Governo e o cara trabalhar contra. Quando melhorar essa situação econômica no Piauí, vai melhorar a arte, o povo vai ter novas aspirações, os artistas vão produzir mais e não ficarão tão acanhados, tão medrosos.

Amálgama - Não se vende livro para analfabeto...

Rubervam - Não se vende, é verdade.

Amálgama - Nem para liso...

Rubervam - Claro. Agora essa questão do paizão cultural é tão terrível que pode refletir em algo pior, que é essa busca do pai espiritual que torna o artista tão dependente que passa a repetir o pensamento dos ideólogos de plantão e, indiscutivelmente, a arte vai lá pra baixo. Quer dizer, ele é incapaz de qualquer manifestação que mexa com aquele coro chamado pelo Torquato Neto de coro dos contentes.

Amálgama - Desenvolver outros raciocínios, por exemplo? Não só escrever por escrever?

Rubervam - A gente precisa retomar os postulados de 22, sendo um deles a pesquisa de novas linguagens para ver se a gente consegue construir algo mais consistente. Estive conversando com o Silviano Santiago, um crítico literário que mora no interior de Minas Gerais, essa coisa de fazer arte e poesia para que o povo entenda. “Ah, o livro do Rubervam a gente não lê porque ninguém entende o que ele quer dizer...” Como se poesia tivesse essa preocupação de contar história. O campo semântico do conceito, das explicações, não pertence à poesia.

Amálgama - O que pertence à poesia então?

Rubervam - Na verdade, o caminho a ser trilhado é o da busca de referenciais. Por isso que eu fico puto quando vejo pessoas se dando ao luxo de deixar fora da literatura piauiense poetas como Mário Faustino e Torquato Neto. Eu li uma entrevista de um senhor acadêmico onde ele falava que o Torquato Neto não é poeta porque não existe poesia no que ele escreveu. Uma avaliação, no mínimo, equivocada.

Amálgama - Quando surgiu o compositor Naeno e quais foram suas influências musicais?

Naeno - Ainda pequeno, com 10 anos, comecei a cantarolar. Essa qualidade do artista é natural, é um dom de Deus mesmo. No ginásio comecei a compor meus primeiros trabalhos que refletiam o que eu ouvia, Luiz Gonzaga, Trio Nordestino. Depois passei a ouvir a Tropicália de Caetano e Gil...

Amálgama - Naeno, o grande sucesso da música Morena estigmatizou muito sua obra?

Naeno - Não, não. Porque eu não deixo. Eu não sou compositor só de Morena. O piauiense nunca se arriscou a descobrir coisas novas. Ele só valoriza o que já foi testado, retestado e comprovado no mundo todo.

Amálgama - Então você concorda com aquela tese de que pra se ter valor aqui é preciso que se obtenha reconhecimento lá fora?

Naeno - Infelizmente é assim. No Maranhão você vê que o Nonato, músico dos anos 70, fez sucesso primeiro no Maranhão para depois fazer fora de seu Estado. O Pinduca fez sucesso primeiro no Pará para depois fazer no mundo. Agora nós, não. Tem que fazer sucesso primeiro lá! O Climério, Clésio e Clodo fizeram sucesso porque o Fagner gravou. Ninguém conhecia Torquato Neto no Meduna. Conhecia o Torquato através do que Gil e outros contam dele.

Amálgama - Será por isso que o Waly Salomão disse: “Poetas, saiam do Piauí”?

Naeno - Ele está falando uma experiência dele. Ele, pra fazer sucesso, teve que sair da Bahia. Porque naquela época era assim. Hoje, a técnica que eles usam em São Paulo para gravar um CD você dispõe aqui no Piauí. Mas é necessário que o povo valorize o artista do Piauí, não só pelo fato de ser conterrâneo, mas ler, ouvir e assimilar a sua arte. Até a Ônix Jeans vende para fora, mas o Piauí não compra Ônix não, bicho...

Rubervam - É verdade, é verdade...

Naeno - É uma das etiquetas mais famosas do Brasil, mas o Piauí não usa Ônix Jeans.

Rubervam - E tem a história do cara que foi pra São Paulo e comprou uma dúzia de camisas. Quando olhou a etiqueta, disse: “Porra, é da Ônix Jeans!”

Naeno - Foi o Ari Magalhães. [interrompendo] Eu tenho uma posição radical que tenho comprovado ao longo do tempo. O piauiense não se valoriza. E se não valorizar, não há remédio para nós. E se continuar assim, é ficar como rapariga fazendo música pelo mundo, pra quem quiser, que encontra paulista mas nunca encontra piauiense. Que história é essa? Se a gente vai pra São Paulo os caras ficam de queixo caído. Na minha inércia de piauiense, na minha casa, mandei uma música para São Paulo e os caras me escolheram entre 7.500 trabalhos. Eu fiquei entre os doze selecionados. Consegui o que muitos baianos não conseguiram. O que é isso? É a coisa incontestável da obra boa. É o que o Rubervam tem e que, modestamente, eu tenho. Que o Aurélio Melo tem, que o Geraldo Brito tem, entendeu? Nós fizemos nossa parte, cumprimos nosso papel. Eu já cantei nesses bares de Teresina e os caras pedem uma música do Djavan enquanto a minha música nem sequer é aplaudida.

Amálgama - O que leva o piauiense a não valorizar seus artistas?

Naeno - É que o Rubervam falou e vou passar a falar disso: a questão econômica mesmo.

Rubervam - É interessante esse aspecto que o Naeno está colocando. O que a gente tem ouvido muito ultimamente é sobre a busca da identidade piauiense, a chamada piauiensidade, palavra até difícil de pronunciar. Uma coisa que a gente precisa repensar. Por exemplo, o poeta que resolve colocar Teresina como feição do seu trabalho é um poeta sofredor. O Paulo Machado é o poeta de Teresina. Eu vou ser franco aqui, tenho maior dificuldade de escrever sobre Teresina porque o substrato do material poético que escolhi não é daqui.

Amálgama - Mas em A Profissão dos Peixes você não fala da praça São Benedito?

Rubervam - Mas ali é uma travessia. Você pode ver que aquela do rio de carros delimita o momento em que me coloquei como cidadão piauiense por conta própria. O meu centro imagético de Teresina é o balão da São Benedito. Quando eu leio o dicionário de Piauiês, do Paulo José Cunha, porra!!!, me dá uma certa satisfação em morar no Piauí. Descubro como nossa identidade está escondida debaixo do chão, na fala escondida de seu povo. Ou a gente desperta essa piauiensidade, assim chamada, pelo falar, pala música, ou então não vamos encontrar nada. E pior, nenhum bem-estar social será alcançado. A pobreza não interessa à arte. O que interessa à arte é o belo. E o belo supera tudo que é pobre. Daí a dificuldade da gente entrar nesse mundo pela pobreza. Não é facilitando, fazendo música brega, fazendo poesia chamada de fácil, essa coisa que eu não sei que diabo é. Não é por aí.

Naeno
- Fazer o que o povão quer.

Amálgama - Ser vendável?

Rubervam - Ser comercial e vendável. Daí o que Naeno falou agora há pouco. A arte não é mensurável. Eu até gosto quando poesia não vende, quando o editor diz que não edita poesia porque não vende. A indústria discográfica manda e desmanda na liberdade de criação do artista.

Amálgama - E a sua criação?

Rubervam - Eu vou retomar a matriz de A Profissão dos Peixes. O substrato é um baú de ossos, que...

Naeno [interrompendo] - Pode ver que o baú sempre reflete acúmulo de experiência do passado.

Rubervam - Isto, isto. Então minha mãe, que é filha de Inca, me disse: “Olha, tua avó tem um baú e você precisa ver o que tem dentro dele.” E esse baú me foi repassado pela minha mãe. Dentro dele tinham ossos de meus antepassados, vasos de cerâmica, cartas de um tio do Egito que hoje não sei onde ele está agora, Certidões de Nascimento e Óbitos. A Profissão dos Peixes foi retirada justamente desse material, o substrato de tudo isso. No livro há trechos dessas cartas, datas das certidões. Eu transformei o material do baú em material poético. O lugar onde encontrei o baú de ossos, é uma ilha chamada Upaon-Açu, que nada mais é que o começo da ilha de São Luís do Maranhão. Quando você atravessa a ponte, aquela primeira cidade, que antes era uma vila e que eu já havia transformado, em A Profissão dos Peixes, em Estado, cuja capital, Mandubé, era a estação de trem, onde eu brincava quando criança. Era uma vila de pescadores e, inclusive, meu pai e meus tios eram pescadores. E meu avô, que veio lá do Peru, comprou umas terras, alugou alguns paióis de sal, comprava peixe e exportava, não sei pra onde. Então A Profissão dos Peixes é esse material transformado em matéria de poesia. Eu não poderia fazer este livro se não tivesse encontrado esse material mágico, se não tivesse nascido num lugar riquíssimo em histórias de visagens, mortos ressuscitando, andando de madrugada pela estrada de ferro, carregando bêbados que iam parar num lugar sem fim, que depois descobri tratar-se da Pasárgada de Manuel Bandeira, porque lá habitava um rei encantado do qual não só me tornei amigo e depois seu contestador. E isso tudo eu trouxe pro livro. A última parte do livro, Aqui Segundo São Sebastião, trabalha o momento em que a gente queria saltar da ilha para uma outra realidade, e a gente não conseguiu. Não conseguimos ultrapassar esses limites não só na ilha de Upaon-Açu, como não conseguimos ultrapassar no Piauí, na arte, na economia, na política, na cultura. Algo muito poderoso nos interrompeu e continua nos interrompendo de ter a terra prometida.

Amálgama - Naeno, o seu último disco é religioso. Isso destoa do restante de sua obra ou é apenas um amadurecimento?

Naeno - Ou então é o que se fez ao longo do tempo e não poderia deixar de viver.

Amálgama - A influência religiosa é uma coisa recente?

Naeno
- Não. Eu acho que em todo nordestino isso é uma coisa de princípios, de berço. Eu tenho padre na família, então isso é coisa que eu vivo há muito tempo.

Amálgama - Então por que só agora surgiu esse disco religioso?

Naeno - Foi por causa do meu tio, o padre Toni, que quis produzir o CD e eu me prontifiquei de destinar as vendas em prol das obras dele.

Amálgama - O que o projeto Itaú Cultural acrescentou à sua carreira?

Naeno - Deu uma reanimada na minha auto-estima. Me submeteu a um público que eu não conhecia e me deu a comprovação da validade do meu trabalho. Entre os paulistas eu tive uma receptividade muito boa.

Amálgama - A banda Narguilé Hidromecânico também foi escolhida pelo Itaú Cultural. Como você avalia o trabalho deles?

Naeno - É um pessoal novo fazendo música que foge do convencional, fazendo uma coisa alternativa, inusitada e de pesquisa também...

Amálgama - Como as referências à Maria da Inglaterra?

Naeno - Maria da Inglaterra é uma pessoa que o Piauí nunca valorizou devidamente. Brincam com ela como quem brinca com folha de palmeira e depois joga no mato.

Rubervam - Aqui esse mal é recorrente. Ou se brinca com o que é grandioso ou se despreza. Escalam para programas culturais a mesmice e a ingenuidade, aquilo que é forte não, porque a maioria dos profissionais que lida com a cultura é constituída de pessoas que não querem continuar estudando, não querem ver coisa nova, não se arriscam. Quando organizei a mostra de poesia visual aqui, em 1994, chamei a Maria da Inglaterra para uma apresentação. Veio um pessoal que eu trouxe de Natal, de Recife, e o Jomar Muniz de Brito me disse: “Meu Deus, essa mulher é ouro aqui no Piauí. Como é que é tratada essa mulher?” Eu respondi: “Você nem imagina. Eu a incluo em programação desse tipo, mas não é todo mundo que tem essa coragem e disposição, pois além de tudo trata-se de uma cantora humilde”. Eu a apresentei nessa mostra como a única cantora piauiense de nome internacional. [risos]

Amálgama - Rubervam, como surgiu essa coisa de edições revistas e diminuídas de A Profissão dos Peixes?

Rubervam - É instigante. Eu encontrei o Carlos Volgt, um poeta do Rio de Janeiro, e ele me chamou num canto lá na biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, e falou: “Você nem imagina como outro dia eu passei uma noite inteira sem dormir pensando nessa história do teu projeto de revisar e diminuir o teu livro. Porque a gente conhece mais é o autor que revisa, mas aumenta. Diminuir não. Me fala direito o que é isso que você tá pretendendo?” [risos] A idéia de revisar e diminuir tem um lance de admitir que poesia tem muito a ver com o caos, com a desleitura de tempos. Busco na poesia o que o poeta Wallace Stevens descreveu como a “síntese de uma excepcional concentração”, entre aspas, cujo suporte principal para atingi-la, é o trabalho exaustivo com o material poético à disposição.

Amálgama - Rubervam, até onde o caminho revisto e diminuído vai chegar?

Rubervam
- No momento em que você determina um projeto de revisar e diminuir um livro, você pensa no processo de comunicação que pode ser despertado a partir do envolvimento do leitor com o autor e a novidade que isso pode provocar naqueles que buscam na recriação artística algo mais denso e original. Num poema de nome Rapsódia para El Mulo, Lezama Lima, extraordinário poeta cubano, comparou o ofício do poeta com a figura de um animal obstinado, que marcha em direção ao abismo. Como o poeta, em sua busca constante, o mulo padece em sua marcha, mas resiste com seu passo seguro até cumprir seu destino. Assim é o poeta, até encontrar o misterioso silêncio de sua pedra-peixe. Eu determinei cinco edições revistas e diminuídas. O livro vai diminuindo mesmo. Nunca aumentarei. Já estou com a terceira edição quase pronta e talvez a editora Sete Letras, do Rio de Janeiro, a edite. Determinei a última edição como um imenso cartaz, onde irá refletir apenas a pedra-peixe, e a pedra-peixe é a orelha do livro, é uma nova linguagem, uma outra leitura.

Amálgama - A pedra-peixe é um fóssil?

Rubervam - Aquela pedra é um fóssil. Estava dentro do baú. Eu a perdi uma vez transportando numa temporada que passei no Rio de Janeiro. Eu a despachei e quando cheguei em Teresina, a pedra havia desaparecido. Foram encontrá-la em Natal.

Amálgama - Então ela é a sua Muiraquitã?

Rubervam - É verdade. [risos] Hoje ela está dentro de uma redoma de vidro que levo para onde quer que eu vá. Carrega, em sua forma e conteúdo, os olhos e as escamas do peixe-pedra que continuam muito vivos, uma simbologia propulsora porque completa o mito da criação em mim e nos outros, ao mesmo tempo que desmantela a idéia da transitoriedade humana. Seremos imortais se virarmos todos pedra-peixe, ou seja, se retornarmos à nossa origem perdida.

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