quinta-feira, 21 de agosto de 2008

amálgama #2 - entrevista com Rubervam Du Nascimento & Naeno [parte1]

Jeferson Probo, Adriano Lobão Aragão, Rubervam Du Nascimento, Sérgio Batista e Naeno, Vale do Poti, 2002


- Publicada originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002



Naeno nasceu em São Pedro do Piauí, 1954. Músico, cantor e compositor. Autor de pérolas da música brasileira, como Morena e Incelença. Já teve obras gravadas por inúmeros
artistas, de Zemarques a Papete. Em seu último disco, Entre nós, revela a vertente sacra de sua música. Recentemente foi selecionado para o projeto Itaú
Cultural. Rubervam Du Nascimento nasceu na ilha de São Luís do Maranhão em 1954. Reside em Teresina desde os anos 70. Advogado e funcionário público, há muito tempo reinventa seus poemas. Disso resultou as edições revistas e diminuídas de seu livro A Profissão dos Peixes. Com Marco Lusbel Desce ao Inferno, ganhou o Concurso Blocos de Poesia/97. Numa manhã de sábado de carnaval, no Vale do Poti, bairro Santa Sofia, concederam esta entrevista para amálgama. Washington Ramos, Jeferson Probo, Adriano Lobão Aragão e Sérgio Batista prepararam um peixe manpará, cerveja pro Rubervam, refrigerante dietético pro Naeno, e muitas perguntas. O resultado taí.





Amálgama - Naeno, qual seria o maior problema para a música e para a arte piauiense: o pouco interesse do público, a falta de investimento ou o próprio artista?

Naeno - Pode-se atribuir essa culpa a todo mundo. Ao artista, porque não sabe fazer alguma coisa que prenda o público; ao público, porque não valoriza o que o artista faz. O Piauí é um estado que eu não sei situá-lo num contexto mais geral, de Brasil, se ele está além ou aquém. Eu acho que o Piauí é um caso raro. Um dos poucos estados, que eu saiba, que não tem uma cultura forte, uma cultura de raízes. E a que tinha largou-se por esses tempos perdidos. No Maranhão, existe essa coisa pulsante, no folclore. A Bahia, nem se fala... Mas o Piauí é que não tem, ainda.

Amálgama - Agora isso entra no âmbito da fomentação pelos poderes públicos?

Naeno - O dever do Estado seria manter certas estruturas. Eu não creio muito nessa coisa do Estado ficar dando verba pra artista. Se não houver uma estrutura, um teatro bem montado, um espaço suficiente para o artista, fica difícil. O Estado não faz essa parte. Tanto não faz que o nosso teatro é o menor do Nordeste, e só tem um em nossa capital. Essa é a falha do Governo. Mas eu não acho que o Estado deva fazer aquela coisa de ficar financiando o artista, pois cria uma coisa que até adoece o cara...

Amálgama - Cria uma dependência?

Naeno - Cria. O artista não pode ficar atrelado a isso não. Eu até admiro quem fica insistindo para a pessoa comprar seu produto, mas quando há essa insistência já passa para o consumidor a idéia de que aquilo não tem consistência muito boa, porque o que é muito bom não é oferecido assim insistentemente. E o artista faz isso. Eu conheço pessoas que vendem vinte CDs para uma única pessoa. Isso não pode. Porque o cara faz isso sabendo que o outro vai, no mínimo, engavetar dezenove e, quem sabe, ouvir um.

Amálgama - Como você vê a lei A. Tito Filho? [lei municipal de incentivo à Cultura]

Naeno
- Eu tenho queixas demais a fazer às pessoas que elaboraram essa lei. O que eles fizeram foi colocar o artista numa situação de pedinte e, o que é pior, a Prefeitura acaba usando o artista como um caçador de sonegador de imposto. Um artista como eu e o Rubervam, que já temos muito tempo de trabalho pela cultura piauiense, ainda tem que provar para alguém, para alguma instituição, o nosso valor através de um projeto. O cara faz um projeto para justificar que merece, apesar de uma obra de arte não ser mensurável, e depois de aprovado ainda vai se submeter aos olhares e à mercê dos empresários. Sendo que nesse ponto ele acaba sendo usado para ir atrás de quem não paga imposto, e ainda vai negociar. Artista não é para isso não! Torna-se um funcionário público, e dos mais importantes, porque é o cara que vai descobrir o contribuinte que poderia sonegar.

Amálgama - Isso parece estar se tornando uma queixa muito constante...

Naeno - E tem mais outra coisa. Não valoriza ninguém. O que é que ela faz? Dá o dinheiro, não quer saber da qualidade e esquece o projeto. Aí o cara faz como quer, vende ou dá para quem ele quer. Uma coisa que poderia ser feita era o seguinte: se o cara fez o primeiro disco, então venda seu disco, procure colocar ele no mercado de uma forma decente, para isso te dar algum retorno, para depois fazer o segundo disco. Mas isso não acontece. O artista pode fazer tantos quantos queira e isso gera um círculo vicioso, e só privilegia alguns. Eu conheço pessoas que têm quatro, cinco discos contemplados pela lei e que virou para eles meio de vida. Isso é horrível.

Rubervam - Não é de hoje que a relação do artista com o Estado, no Piauí, é de subserviência. Eu sempre falo, quando questiono essa relação, uma frase do Oscar Wilde: “O Estado tem que fazer o que é útil, e o artista o que é belo”. Aqui no Piauí é o inverso. O Estado não faz o que é útil e quer fazer o que é belo. Quem arma e desarma o circo aqui é sempre o Estado. Uma referência direta ao Salão de Humor, por exemplo. Dizem que vão revigorar este ano dentro do perímetro dessa “vida nova”, entre aspas, porque continua envelhecida, viciada e cooptável, a partir do momento em que você admite a arte trabalhar a favor, como suporte do poder estatal, essa arte passa a ser decadente. Ela não pode refletir o espírito necessário de rebeldia, de transformação, de beleza...

Amálgama - De liberdade?

Rubervam - De liberdade, acima de tudo, capaz de impulsionar o surgimento do novo, e recriar o pensamento do seu tempo, sem a interferência da ideologia reinante, seja ela qual for.

Amálgama - Já faz muito tempo que você começou a desenvolver sua poesia...

Rubervam
- Mais de duas décadas...

Amálgama - Mas o seu livro demorou bastante para ser editado, não?

Rubervam - É um livro que foi gestado durante todo esse período que eu trabalho com poesia. Durante algum tempo eu cheguei a escrever peça de teatro, escrevi contos, inclusive alguns foram publicados em coletâneas. De repente, descobri que viver no Piauí, é admitir um limite, e que dentro desse limite, você tem de escolher fazer uma coisa só e bem feita. Isso já é surpreendente. Então eu deixei o conto, deixei a arte cênica. O que eu utilizo hoje da arte cênica é a favor da poesia. Quando monto um espetáculo é com o objetivo de divulgar a poesia. E resolvi fazer poesia da seguinte maneira: estudando poesia. Estudando crítica literária. Lendo poetas em busca de referenciais. Eu até acho incrível quando converso com algum poeta que diz não gostar de ler poesia. Bom, então ele devia era deixar de ser poeta. Passei duas décadas escrevendo e reescrevendo A Profissão dos Peixes. Eu não publiquei livro individual nos anos 70. A primeira edição é de 1987 e isso foi proposital.

Amálgama - Tem gente que quer escrever poesia sem ler poesia. O que você acha do nível dessa produção artística?

Rubervam - Quando nós começamos, lá nos anos 70, alguns poetas e escritores montaram uma estratégia. Paulo Machado montou uma estratégia que até hoje ele está desenvolvendo. Muita gente pensa que Paulo Machado não está mais escrevendo. Tá sim. Muito mais que escrevendo, Paulo Machado está repensando o que escreve. Eu fiz isso nos anos 70. Eu montei uma estratégia que talvez não tenha funcionado como pensei na época, mas que hoje está sendo entendida por aqueles leitores ou estudiosos mais exigentes. Por exemplo, eu tinha o maior receio de entregar ao Menezes y Moraes para publicar no suplemento do jornal O Dia aqueles poemas que eu achava que, mais tarde, poderia utilizar como matriz para um livro. Por que eu fiz isso? Porque eu lia o caderno cultural publicado pelo Menezes e achava muita coisa precária. Então não vou colocar esse poema que eu acho melhor. Eu vou colocar esse outro poema. Eu desenvolvia na época, por exemplo, poemas sobre os ratos, que vinham de uma convivência muito próxima que eu tinha com os ratos, uma experiência aparentemente genial, mas desprovida de um propósito estrutural e estético e de ruptura que eu buscava. E aí eu pensei em publicar esses poemas dos ratos que são rascunhos que eu não vou incluir em livro individual algum. Então jogava lá pro Menezes. Essa estratégia marcou o que hoje é A Profissão dos Peixes, um livro com uma composição ambiciosa tanto no campo estético como lingüístico. Daí algumas pessoas às vezes enfrentarem dificuldades na leitura por falta justamente desse substrato que eu arranquei de uma matriz muito bem definida no passado. Essa questão de estratégia funcionou com poucos nos anos 70. Muitos se afobavam, jogavam com aquilo que achavam constituir algo de mais concreto na poesia e hoje deixaram de escrever, não se sabe mais o que escrevem ou onde estão. Não souberam experimentar.

Amálgama - Houve uma desagregação?

Rubervam - Também. Agora veja bem, eu sou uma pessoa que vive envolvida com essa história de poesia 48 horas por dia. É ela que alimenta o meu espírito. A barriga é o Ministério do Trabalho, que me dá tempo pra poesia. Eu jamais me sentiria bem se fosse um bancário...

Amálgama
- Olha o Naeno aí... [risos]

Naeno - Eu sou ex-bancário...

Rubervam - Mas retomando a questão, isso não quer dizer que não temos aqui no Piauí valores indiscutíveis surgidos naquela época. Tenho contatos com o chamado eixo Rio-São Paulo, com Minas Gerais e com Brasília, que é um núcleo muito forte. Tenho muitos contatos e recebo muita coisa de lá. Posso dizer que estou em dias com o que está acontecendo no Brasil a nível de poesia. A gente tem que repensar essa coisa de admitir que somos poetas e escritores municipais ou estaduais. Deixar de pensar que a produção local está abaixo do que está se produzindo no resto do Brasil, até pela dificuldade que nós temos de romper a barreira da edição e distribuição de nossos livros, daqui pra lá. É muito mais fácil romper essa barreira lá em São Paulo. Um amigo, escritor Ronivalter Jatobá, me disse: “Rubervam, se você tivesse feito em São Paulo 30% desse trabalho que você faz no Piauí, no mínimo você seria reconhecido lá no Piauí”. Veja bem, a qualidade de alguns trabalhos literários daqui está em pé de igualdade, senão superior, a muitos trabalhos que eu recebo do eixo Rio-São Paulo, de autores que saem no Caderno Mais [Folha de São Paulo], no suplemento de MG e na música é a mesma coisa. Não é à toa que o Naeno ganhou um prêmio do Itaú Cultural. Mas também não vou dizer que são muitos, que temos um poeta a cada esquina ou em cada família, isso é ilusão alimentada pela confraria da multidão letrada, que toma de conta das associações de letras, preocupada em manter fora de debate o que é produzido com qualidade na poesia.

[continua]

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