sexta-feira, 1 de agosto de 2008

amálgama #1 - Entrevista com Elio Ferreira e Lisete Napoleão - parte2

Elio Ferreira

Lisete Napoleão, fotos de Sérgio Batista

Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002.



Amálgama - Elio, como foi o episódio no qual você ficou nu durante uma apresentação em Campina Grande?

Elio - Em Campina Grande foi o seguinte...

Lisete
[interrompendo, risos]- Não estava no script...

Elio - Não estava. Não havia nada premeditado. Mas é a questão do contra-lei, né? Era aquela coisa de criar um clima que dissesse da nossa angústia da época. Então a coisa foi acontecendo...

Amálgama - Foi no dia do massacre no Carandiru?

Elio - Foi no dia do massacre no Carandiru! Eu tinha visto na televisão e eu disse: que país é esse? Em que mundo nós estamos vivendo? Eu passei a viver toda a circunstância da poesia. Aquela relação de fazer o contra-lei e você incorporava não apenas o poema como um indivíduo que a poesia te fazia aquilo.

Lisete - Tu fizestes isso em sã consciência? Não tinha tomado nada?

Elio - Não, não... Isso aí é à parte... [risos]

Lisete - É muita coragem... [risos]

Elio - Mas quando você pinta a cara, você não é mais você. Parece que baixa um fogo assim, em cima de você. Dos seus ancestrais, sabe? Quando o poeta fala, ele fala por muitas vozes, não é só por ele não. É muita gente falando através dele.

Amálgama - Mas lá na hora, como foi?

Elio - Na hora, foi o seguinte, eu disse: “que país é esse onde acontece esse tipo de coisa?” E eu comecei a declamar: “eu não sou o presidente, eu não sou o governador...” aí começaram a aparecer as imagens do Brasil, um bocado de sacanagem, de miséria, de violência...

Lisete - Mas essa alucinação era real?

Elio - Era o que eu estava falando na poesia. Era uma coisa real. E eu me perguntava: “que país é esse?” Aí desci as calças e peguei no saco e mostrei pro pessoal. “Que país escroto é esse?” Aí as meninas gritavam: “professor!!!” e botavam a mão no rosto, assim, mas ficavam vendo tudo com os olhos entre os dedos... [risos]

Lisete - Viram a coisa preta, Elio! [risos]

Elio - Mas não é que você faça a coisa pra chocar. É uma coisa que acontece... A coisa foi crescendo...

Lisete - O meu questionamento é esse.

Amálgama - O que a Lisete quer saber é se você estava drogado.

Elio - Em primeiro lugar, quando eu vou para as minhas performances, eu não bebo.

Lisete - Mas, Elio, veja bem. Era um público enorme. Qual era o público?

Elio - Tinha umas cinco mil pessoas, não tinha não? Tinha não. Era o Encontro Nacional de Letras...

Amálgama - O ENEL de 1992, em Campina Grande.

Elio - Em São Paulo, na USP, também aconteceu outro lance assim, parecido. O que agredia não era só tirar a roupa. Era também o texto. Na Paraíba, quando eu ia pra praça, o pessoal começava a gritar: “eu vou comer a tua mãe, eu vou comer o teu pai...” [cantando, trecho do poema Canibal, do livro O Contra-Lei]

Amálgama - Então a poesia embriaga?

Elio - Embriaga. A poesia te envolve. Porque a poesia do contra-lei não é só o texto poético. Há a incorporação de um personagem. Viver a poesia na dimensão em que escrevo.

Lisete - Mas lá [em Campina Grande] estava o professor Elio...

Elio [interrompendo]- Não! Professor não! Professor é na sala de aula. Eu sou o poeta!

Lisete - Mas você estava representando a universidade...

Elio [interrompendo]- Não! Eu sou o poeta. O Elio é o professor lá na sala de aula. Se eu saí de lá, eu sou mais eu, eu tô rua, eu sou outra entidade.

Lisete - Se você estivesse representando a universidade, deveria ter tido a postura de professor.

Elio - Mas eu sou é o poeta. A entidade é outra coisa. O cara é administrador de empresas, ou é empresário, mas faz uma peça de teatro. Lá no palco, ele é o ator ou é o empresário? Eu tô em casa, eu estou com minha família, eu sou um pai de família. Mas se eu tô na rua falando poesia eu sou o poeta. Eu não sou mais pai de família.

Lisete - Mas se eu for a um seminário representando a Universidade Estadual do Piauí, ali eu sou a representante da universidade, eu sou a professora Lisete.

Elio - Enquanto estiver em sala de aula!

Lisete - Não. Enquanto eu estiver ali, inclusive sendo financiada com passagem paga, com estada paga pela universidade.

Elio - Mas o dinheiro não é da universidade, o dinheiro é do povo, é do Brasil...

Lisete - Mas se eu for para um teatro...

Elio [interrompendo]- Mas o meu trabalho como professor é na sala de aula.

Lisete - Você estava nu na conferência como professor ou como escritor?

Elio - Eu estava como professor e como convidado, poeta, a falar poesia! Eu estava na pauta como poeta, pra falar poesia. Eu não tirei a roupa na sala de aula. Eu tirei num espaço propício pra fazer arte!

Amálgama - A agressividade de sua poesia nasce de uma frustração social?

Elio - O que eu falo não sou eu que falo. Talvez o que as pessoas gostariam de dizer, ou o que as pessoas dizem. Para os meus poemas, eu tiro muito o que as pessoas dizem na rua. Eu sou negro, venho de uma classe social pobre, no nordeste, no Piauí, Floriano. O que você escreve é tua vida. Machado de Assis dizia que o menino é pai do homem. Eu convivi em oficina de ferreiro. Minha família era toda Ferreira, meus tios, minha mãe era flandeira, meu pai ferreiro, e eu cresci naquele som do metal e do palavrão, que quando você tá puto com alguma coisa você xinga. Então procurei alguma coisa que dissesse da angústia e do sofrimento do povo, da realidade que eu vivia. Uma maneira mais forte de tocar as pessoas.

Amálgama - E como está sua poesia hoje?

Elio - Minha poesia hoje não está mais dentro daquele tom. É um momento que você cria uma espécie de ser que você incorpora. Você escreveu aquela fase, você esgotou aquilo ali. É uma coisa de momento.

Lisete - Eu acho que houve um amadurecimento. Acho o Elio mais maduro, mais consciente.

Elio - Eu preciso dizer de uma maneira que marque o meu tempo. Uma coisa que veja o mundo com a linguagem das pessoas da minha época. Do meio em que eu convivo. Eu vivo num momento difícil em que as pessoas estão buscando se situar no mundo, num lugar ao sol, e o mundo tem que ser pra todo mundo. Por que essa grande visão na miséria total, sem acesso a escola para uns, e outros com tanto? Então o contra-lei era isso. Porque a lei estava muito errada! [bem enfático] E ainda está muito errada. E eu vivi numa estrutura que eu conhecia muito tudo isso. Eu trabalhei em repartição pública, eu nunca fui só professor, porque não dava pra comprar meus livros. Eu fui educado numa família em que meu pai era ferreiro, mas se comprava livro e tinha biblioteca em casa. Minha mãe ensinava a ler, também era professora, por isso lá em casa era cheio de gente. O "poemartelos" fala disso, e é muito de memória, porque eu pegava também muito o mito do povo. Houve um crime muito hediondo na minha cidade. O cara matou outro e pinicou todinho. O que eu sei dessa história é que aparecia o demônio na casa dessas pessoas e o cara que fez esse crime era casado com uma tia minha, e sofreu muito por isso. No "poemartelos" eu falo dessa coisa. Muito som, muito martelo. Imitar o som do ferro. Eu criei uma poesia sonora pra ser falada imitando o som do ferro.

Lisete - Hoje você usa muito o estilo do Rap, não é?

Elio - O Rap foi um momento do Contra-lei. Quando eu escrevi "O Contra-lei", não tinha nenhum contato com o Rap. Comecei a ter no final de 94. Aí o pessoal do Rap, do Hip-Hop, viu meu livro e dizia: “Professor, vamos cantar isso aí ”.

Amálgama - Então, na verdade, a inclusão do Hip-Hop ao Contra-lei foi posterior ao livro?

Elio - Foi posterior. Depois eu publiquei a segunda edição já com esse contexto. Mas eu acho que já tinha alguma coisa de Rap no ouvido, por causa da poesia pra ser falada, porque quando você escreve, além das coisas do passado, tudo que há de presente no som você coloca no seu texto. Eu gostava de escrever ouvindo blues, jazz, música popular brasileira. Era sempre assim, ouvindo vários tipos de música.

Amálgama - Mas foi o Rap que incorporou isso de maneira bem característica para sua poesia.

Elio
- Exato.

Amálgama - Então como você vê a essa situação de respeitar uma MPB que torce o nariz para o Rap?

Elio - Eu não sei por quê. Pois o Hip-Hop é um ritmo, um ritmo negro, dos negros que viviam nos guetos dos Estados Unidos, na periferia, e Rap quer dizer o quê? Poema em ritmo. Poema pra ser cantado.

Lisete - Mas eu acho que há essa marginalização porque eles levam geralmente à anarquia, à droga, à...

Elio - O Rap não tem nada disso! O Rap é o contrário. O Hip-Hop...

Lisete - Mas as gangues e as confusões que tem no Rio de Janeiro...

Elio - Aquilo é o funk. É outra história.

Lisete - Mas há uma mistura, pois inclusive é muito parecido.

Elio - Junta-se o Rap ao Hip-Hop. O Hip-Hop é um movimento educativo. É a visão de educar. "Faça a Coisa Certa", lembra do [filme de] Spike Lee? Está diretamente ligado a isso, a educar. Tirar o sujeito da pior. Mas é claro que existe o Rap gangster, também. Não vou dizer que só há bons. Mas a força toda do Hip-Hop é tirar o cara da lama.

Lisete - Mas o próprio Hip-Hop tem também as gangues.

Elio - Não. Não tem não. O Hip-Hop é o seguinte: são pessoas educadas, gente da periferia, meninos que estudaram a história do negro, a condição de...

Lisete - Inclusive o Gabriel O Pensador faz isso...

Elio - Mas o Gabriel O Pensador não é do Hip-Hop. Ele faz Rap, mas não é do Hip-Hop, do movimento. Hip-Hop é um movimento que, em primeiro lugar, é música para divertir, para conscientizar, para educar, para contar a sua história, do momento, da periferia. Os Racionais mostram o cara quando entra no tráfico, mas também quando se dá mal no final. É instrutivo. É a consciência ideológica. Estudar a questão do negro, a questão social da miséria. Evitar entrar no mundo do álcool, da droga, porque aquilo vai te levar para um caminho que pode ser sem volta. Mas o Rap também pode se aproximar pra dialogar com as gangues, porque a gangue é apenas um fator social.

Amálgama - Não seria então a música que leva à criminalidade, ela só reflete...

Elio - Reflete a realidade. A condição de ser. Por que o sujeito está no crime? Porque não teve oportunidade, na periferia, para ele. É algo altamente político, algo revolucionário. É pra brincar, educar e pensar sempre. É a mesma situação o negro e o pobre. A visão é essa. Mas não se abre espaço na grande mídia para o Hip-Hop. Não se abre para Racionais, para Câmbio Negro, para Rio Radical Rap, que tem até um cara do [bairro de Teresina] Monte Castelo, que eu sempre converso com ele, o Yuri, no Rio de Janeiro. A polícia de Minas Gerais deu o maior cacete e quase mataram o cara, deixaram o cara jogado lá porque tinha um verso dele que dizia “Foda-se a polícia, foda-se a polícia”.

Amálgama - Lisete, e como anda a pesquisa folclórica?

Lisete - É um trabalho que estamos desenvolvendo desde um curso em Belo Horizonte, que foi Leitura e Produção de Texto. Naquela época eu viajava muito pelo interior, trabalhando pela UESPI.

Elio - Eu acredito que nossa base, nossa cultura está sempre no interior...

Lisete - E eu tenho difundido isso pra fora. Eu recebi agora em Lisboa um cavaquinho, que é um prêmio cultural de lá pelos trabalhos que faço. Eu confesso que além de ser uma defensora e uma pessoa que trabalha com a literatura piauiense, eu sou uma das pessoas que dá a vida e o sangue, qualquer coisa, para que a gente continue trabalhando a cultura de um modo geral. Eu não me preocupo se ela está elitizada ou não. Eu só me preocupo se ela chega ao povo. Que o povo, com isso, consiga fazer uma análise crítica. A nossa cultura é riquíssima e apaixonante. O meu trabalho me ajuda a descobrir isso cada vez mais.

Amálgama - Elio, a poesia já te ajudou a comer alguém? [risos]

Elio - Sacanagem. Minha mulher deve estar lendo isso. [risos] Mas eu só posso dizer que ela é apaixonante.

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