quinta-feira, 26 de junho de 2008

Um olhar

Estes muros e pedras espalhavam seu urbano esquecimento pela rua antiga, onde ainda se pode encontrar um silêncio pétreo e uma saudade. E todo esse tempo pode ser restaurado nas retinas de Francisco, quieto e esquecido do mundo por muitos instantes, como a eternidade.

Talvez ainda consiga perceber camisetas desfilando a cara do candidato no peito, entre esquálidos cachorros mendigando votos de caridade. E um menino entre os cachorros, pelo mercado, acompanhando as compras da mãe. Uma de suas obrigações diárias.

Um dia, ele pôde ver uma moça tomando banho nua no quintal vizinho. Sem nome, sem passado, sem roupa, aquele corpo despertava uma estranha satisfação de estar vivo, acompanhada do receio de querer mais que olhar e, como pena, a visão do paraíso envolver-se em pudores.

Ter sido descoberto por ela quase lhe custou a alma fugir do corpo, mas de que adiantaria fugir se a acompanha um leve sorriso de cúmplice silenciosa?

A tristeza só baixaria suas mãos quando souberam de seu filho curiando mulheres nos quintais alheios, quem sabe o que mais?, motivo de taca e de vergonha. Apanhar calado.

Um rosto arrastando seu constrangimento não vê o olhar solidário da moça que jamais conseguirá reconhecer enquanto vestida.

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