segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

uns2poemas: O arado, Zila Mamede



MAMEDE, Zila. O arado. Natal: Editora da UFRN, 2005.

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BANHO (rural)

De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.

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BOIS DORMINDO (II)

Os bois dormem ainda. Já cansaram
de ver que o chão em pasto não rebenta.
Do sono é que lhes vem o encantamento
pois nele o verde verdinovoaponta.

Eles abrigam (quando adormecidos)
nos olhos, o rumor, a nostalgia
das noites invernais, as correntezas
onde iam beber água de manhã;

o cheiro dos estrumes que largavam
pelas queimadas, quando rasteavam
trilha tapera transbordando chuvas

de maio. São os bois. Não os despertem.
No sono seu ruminam madrugadas
que a terra seca não lhes pode dar.


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Zila Mamede nasceu em Nova Palmeira, Paraíba, em 1928. Faleceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 1985. Poeta e bibliotecária, dirigiu a Biblioteca Central da UFRN, que hoje leva o seu nome. A primeira edição de O arado foi publicada em 1959. É autora, dentre outros, de Rosa de pedra (poesia, 1953); Salinas (poesia, 1958) e Navegos (poesia reunida, 1978).  

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

avispoética: Címbalos, lutas e olhares, Emerson Araújo



ARAÚJO, Emerson. Címbalos, lutas e olhares. Teresina: Quimera, 2015.

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sem título

antes de cair
numa insensata apatia
venho de público
requerer junto a ti
um direito postulado pelo coração
o direito de ser
num finito espaço de tempo
teu animal de estimação.

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Esta presença ainda dói...

Na palma da mão a sombra a barulhar
Não é mar, nem onda
Apenas sombra
Fugacidade a toda prova
Labirinto, em mim só mais um cantar.

Esta lã de ovelha nova sobre a mesa
Não foi sonho nem som
Címbalo do homem que chora
Toalha vermelha em noite de alecrim
A pulsar na pele, azeitona, festim.

Ainda dói, esta presença...
Palavra dura no tear entre dedos
Na reviravolta da madrugada seca
No medo posto medo
Na manhã das manhãs
Que me corrói.


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Emerson Araújo é natural de Tuntum, interior do Maranhão. Professor de língua portuguesa, especialista em educação, jornalista, licenciado em Letras e bacharel em Direito. Fez a vida profissional e intelectual em Teresina, PI, onde lecionou em vários colégios da capital. Desde 2009, voltou a residir em sua terra natal, exercendo atualmente funções relativas ao magistério estadual e municipal. Autor de Vendedor de picoléCompanheiros de estradaTopadaAs pedras de Aurora16 movimentos acima da escuridão. Participou das antologias Baião de todos e Estas flores de lascivo arabesco.