segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Palavra e silêncio: a "luta vã" no Piauí


Meu trabalho em sala de aula sempre me levou a conhecer pessoas instigantes que me fazem reavaliar e aprimorar constantemente meu ofício de professor. Aprendi bastante com alunos, colegas de trabalho, gestores, funcionários e, é claro, com os livros que me acompanham em todas essas jornadas. Além de ter utilizado em sala de aula a coleção Português: Linguagens, tive a honra e o privilégio de trabalhar com William Roberto Cereja, atuando como assessor pedagógico de sua obra no Piauí, Maranhão e Ceará. Foi uma excelente jornada de aprendizado, interrompida neste ano, pois tive que me desligar da Editora Saraiva por conta de novos compromissos profissionais no IFPI que me exigem dedicação exclusiva. Mas eis que, hoje, o professor William me surpreende ao escrever em seu blog,Português Cereja, sobre meu livro as cinzas as palavras. A jornada continua.

http://portuguescereja.editorasaraiva.com.br/palavra-e-silencio-a-luta-va-no-piaui/




Palavra e silêncio: a "luta vã" no Piauí
William Roberto Cereja



Já conhecia a prosa criativa, inusitada e dialógica de Os intrépitos andarilhos e outras margens, do jovem professor e escritor piauiense Adriano Lobão Aragão. Contudo, surpreendi-me com seu novo livro de poemas as cinzas as palavras (Editora dEsEnrEdoS).

Nesse livro, Aragão adota uma dicção entre clássica e moderna,  fazendo uso de uma linguagem enxuta e despojada. A quase totalidade de seus poemas situa-se no coração daquilo que se vem chamando de modernidade (no sentido da tradição baudelaireana ou valeryana): a metalinguagem, a poesia emparedada entre o silêncio e a palavra. O silêncio é o não canto, já cantado por Drummond e outros poetas modernos. E a palavra, muitas vezes, sem poder cantar o tempo presente, canta a própria palavra ou o próprio canto poético, especialmente neste caso, aquele ancorado na tradição luso-brasileira.

O dialogismo, tão fortemente presente em Os intrépitos, também se faz presente em As cinzas. No diálogo com Camões, temos, por exemplo, a referência a um tempo heroico passado, que já não se pode cantar, como já se via na fase lírica final de Camões:

           este verbo disperso em distante campo de poeira
           Areia estéril onde não canta tágide nem musa
           estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte
                                                                           (“As odes os signos”, p. 15.)

Também as reflexões em torno da passagem do tempo e das mudanças do próprio eu lírico deram origem ao poema “então”, quase uma paródia do poema camoniano “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”:

         em perene forma permanece em idade e fortuna
         tudo que no tempo não muda nem tempo nem vontades
         nem mentira nem verdade penetra a forma profunda

         [...]

         somente em mim depositou-se irrelevante reverso
         de não mais crer nos versos dessa inútil lira agridoce.
                                                                     (“então”, p. 19.)


Drummond está explicitamente evocado em “não cantaremos o amor”. Embora o tempo não seja de guerra, diz o poeta: 


         Ainda que nos fosse permitido
         não cantaríamos o amor

         [...]

         e ainda que em nossos túmulos
         habitem novamente flores amarelas e medrosas
         não cantaremos este amor
         que resultou inútil
                                                               (“não cantaremos o amor”, p. 59.)


Assim, cantar o impossível canto é a única opção para o poeta, que, perplexo diante de seu tempo e das armadilhas da linguagem, mais uma vez prefere a palavra ao silêncio.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Kannet Levyt

Rita Dahl


Uma das maiores gentilezas que se pode conferir a um escritor é a leitura atenta de seus escritos. Sou absolutamente grato a cada uma das pessoas que dedicaram alguns minutos de suas vidas à leitura de algum poema meu. É por isso que não tenho palavras para agradecer a gentileza da poeta finlandesa Rita Dahl, que, além da leitura de as cinzas as palavras, se dispôs a traduzir para seu idioma pátrio alguns de meus poemas. Logo abaixo, a versão finlandesa do poema “as capas os discos”. 

KANNET LEVYT

eilen näin kauppakujalla myynnissä lehmän levyn
jonne katosin monia outoja peltoja sitten
vinyylin juovien moottoripyörän ja sinfonian väliin

eilen näin vanhuksen taulussa kantamassa polttopuita
koristaen seinää albumin tuhottu kansi
lyijyn ilmalaivan valaistu pimeys

eilen näin valkoisen albumin, jonka voi käsittää vuosien kuluttua
hälvenneiden väriensä sävyinä
ja pintaan painettuna kovakuoriaisen salaisena nimenä

mutta hiljaisuudessa sen äänet herättävät
sonorisen kuvan joka tulee esiin verkkokalvon muistista

(adriano lobão aragão: as cinzas as palavras, desenredos 2014, käännöksen [tradução]
 rita dahl)

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AS CAPAS OS DISCOS

ontem eu vi o disco da vaca à venda na galeria
onde há muito naqueles campos estranhos me perdi
entre os riscos do vinil motocicleta e sinfonia

ontem eu vi um velho em um quadro carregando lenha
adornando em parede destroçada a capa de um álbum
e a iluminada escuridão de um dirigível de chumbo

ontem eu vi o álbum branco que depois de muitos anos
pude perceber as matizes dispersas de suas cores
e seu discreto nome de besouro impresso em relevo

mas há muito dispostos em silêncio seus sons evocam
sonora imagem retida na retina da memória