sábado, 30 de novembro de 2013

ao ouvidor geral de 1732

[adriano lobão aragão]


canção de amor cantar eu vim
mas agora, de nomes e de usança
novos e vários são os habitantes
Cardoso Balegão, sargento-mor
este que em companhia de escravos fugidos
este que semeou sangue nos sertões do Piauí
estes Pedro Barbosa Leal e Manuel de Sousa Pinheiro

canção de amor cantar eu vim
mas o ouvidor geral repete
que as mortes não eram naturais

como não era natural que
Antônio Pedro Nunes, advogado
secretário interino do governo
seja assassinado para os olhos de Oeiras
bárbaro e público
no esquecido dia 13 9 1803

e que no ano seguinte
a um homem assassinado
tenha as mãos cortadas
e uma delas pendurada
no badalo do sino da igreja
em Piracuruca

se dos registros de 1694
sendo 16 pessoas mortas
apenas uma por enfermidade

mas agora, de nomes e de usança
novos e vários são os habitantes
se no ano da graça de 1845
o júri julgou 58 crimes
1 de moeda falsa
1 contra a liberdade individual
4 de ameaças
3 de furto
1 de estupro
2 de porte ilegal de arma
23 de lesões corporais
23 de homicídios

canção de amor cantar eu vim, Musa
mas não mais que a lira tenho destemperada
e a voz enrouquecida



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Entre o amor e a morte

[Adriano Lobão Aragão]


O.G. Rego de Carvalho, autor de “Ulisses entre o amor e a morte” e “Rio subterrâneo”, faleceu em Teresina, no dia 09 de novembro de 2013. Entretanto, a morte não é capaz de silenciar o artista. Permanece, é claro, a tristeza pelo passamento de um homem admirável; permanece o luto, o respeito e a comoção pela dor da família, amigos, leitores, admiradores. Mas permanecem também seus inestimáveis escritos, que mantêm viva a sua voz. Tomemos como exemplo “Ulisses entre o amor e a morte”, publicado em 1953, que considero um livro bastante desafiador pelo fato de utilizar-se de diversas lacunas narrativas e por, à primeira e incauta vista, soar um tanto pueril para leitores supostamente mais exigentes, conforme já escutei algumas vezes, quase sempre utilizando a densidade de “Rio subterrâneo” como parâmetro. Porém, acredito que é justamente nesse ponto que está boa parte da beleza de “Ulisses...”. Pueril não é a obra, mas o universo retratado, a gradativa experiência de Ulisses, afastando-se da infância e sendo levado para um outro mundo repleto de novos desafios, entre a perda do pai e a descoberta do amor. Pueril é o olhar desse menino Ulisses, desconcertado diante de Arnaldo após uma pergunta (”– Ulisses, você já...”) completada com um gesto despudorado; estranhando o comportamento do irmão José; negando para si mesmo o nascente amor por Conceição. “Quente era a manhã, em julho” costuma ser apontado, com bastante razão, como um dos mais poéticos capítulos da obra, mas meu preferido chama-se “Amava-a, sim”. Trata-se de uma divagação de Ulisses, lutando até altas horas da noite contra seus próprios sentimentos, buscando diversos subterfúgios e negações para, enfim, render-se a uma inevitável constatação e afirmar para si mesmo que amava Conceição, “e repeti diversas vezes que a amava com loucura”. Ora, para representar de maneira tão poética as sutilezas dos ritos de passagem de Ulisses, o autor primou pela linguagem mais adequada a tal empreitada: sutil e poética.

A estrutura por vezes lacunar é outro aspecto deveras relevante. Cada momento vivenciado caracteriza-se justamente pelas fraturas provocadas pelo amadurecimento vindouro. Além, é claro, de enriquecer a obra com a cumplicidade do leitor que se vê mais envolvido com a obra sempre que se dispõe a dialogar com tais lacunas, como por exemplo no capítulo “Estava pedrando”, reproduzido integralmente a seguir, em que somos impelidos a refletir junto ao narrador, por conta do corte narrativo ao final do capítulo, acerca das mudanças corporais da adolescência: “Certa manhã em que banhávamos no Poti, atirando-nos de uma pedra no leito raso e arenoso, senti uma estranha dor no bico do peito, descobrindo-o, depois, levemente intumescido: \ – Está pedrando – disse Norberto, ao sair de um mergulho. / Maravilhado com a revelação, estendi o corpo na areia da praia, e pus-me a considerar.”


Engana-se quem menciona que devemos ler um grande autor, tal qual O.G. Rego de Carvalho, porque precisamos preservar sua memória através de sua obra. Não é o autor que necessita da nossa leitura, somos nós quem precisamos aprimorar nossa percepção das possibilidades expressivas da linguagem; somos nós quem precisamos, através dessa construção literária, mergulhar num universo de sensações, angústias, desejos e descobertas que dialoga com a própria condição de existência que nos torna humanos. E é essa experiência artística que um grande autor gentilmente materializou e que agora temos o compromisso de preservar e divulgar, para não privar as próximas gerações de um patrimônio cultural que se realiza, lírica (como em “Ulisses entre o amor e a morte”)  ou angustiosamente (como em “Rio Subterrâneo”), na difícil experiência de amadurecer. Obrigado, O.G. Rego de Carvalho. Onde quer que esteja, obrigado por ter escrito e publicado “Rio subterrâneo” e “Ulisses entre o amor e a morte”.



Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 26 de novembro de 2013
http://www.diariodopovo-pi.com.br/Jornal/pages/pdf/pdf-2013-11-26-3.pdf

sábado, 9 de novembro de 2013

Muitos poetas, poucos leitores?

Adriano Lobão Aragão 




Em julho de 2010, publiquei um texto intitulado "Ensaio de visibilidade para os olhos de um Argos", em que comento o volume da série Roteiro da Poesia Brasileira organizado por Marco Lucchesi e dedicado aos anos 2000. A referência a Argos, o mitológico gigante de cem olhos que mantinha cinquenta deles abertos mesmo quando dormia, foi extraída do próprio prefácio do livro, em que Lucchesi menciona as dimensões da empreitada que buscou realizar: um mapeamento do que de mais significativo se produziu (segundo o antologista, claro) sob a forma poética na referida década. Eis que o tema me volta à mente diversas vezes, sobretudo por conta de recorrentes observações que tenho ouvido sobre a sensação de existirem atualmente mais poetas que leitores de poesia. 

Não é de hoje que se discute isso, e há mais de uma década que, vez ou outra, sou abordado com comentários nesse sentido. Embora não tenha despertado em mim a necessidade de averiguar algum índice, e nem sei se seria possível quantificar tal situação, passei a ficar mais atento aos interlocutores e às situações em que ouço a interessante relação numérica entre poetas e leitores de poesia. Cheguei até a pensar, confesso, que pudesse ser alguma manifestação de clamor contra uma vertiginosa concorrência ou um apelo para a ampliação do mercado consumidor. Mas, como já ouvi várias vezes tal comentário de pessoas que não escrevem poemas (ou, se escrevem, não divulgam), não consigo sustentar tal hipótese para além de um ou outro caso bem específico.

Pensando em minha experiência de professor, imagino que, se os projetos relativos à poesia desenvolvidos nas diversas salas de aula espalhadas pelo país derem bons resultados, seria justamente um aumento significativo do número de escritores o que teríamos, ainda que acompanhados do devido aumento no número de leitores. Salvo raras exceções, não encontrei bons projetos de desenvolvimento de leitura de poesia para alunos de ensino fundamental que não utilizassem a produção textual como mecanismo fundamental, implicando assim a experiência autoral do texto poético. Atividades envolvendo a produção de versos calcados nas relações sinestésicas (que eu mesmo explorei em tantas aulas sobre poetas simbolistas, como forma de instigar os alunos a lerem sonetos de Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimarens e Da Costa e Silva), resultaram em esforços poéticos oriundos dos alunos mais aplicados e dos mais inclinados à produção artística (e não raramente as duas vertente estavam reunidas em um mesmo aluno). 

Se atualmente interação e participação são situações altamente valorizadas, seja na produção de objetos digitais educacionais, seja na reestruturação de currículos e projetos político-pedagógicos de escolas e secretarias de educação, seja na mídia que migra cada vez mais para a internet, seja em mecanismos como o Facebook e o WhatsApp, exemplos de alicerces de interação e participação imediata, em nada me surpreende que a sensação da existência de mais produtores que consumidores tenha se efetivado como uma realidade.

As origens de tal situação talvez decorram das propostas modernistas de 22 que aproximaram do cotidiano a estrutura e a temática da poesia, talvez da pluralização dos meios de divulgação arraigadas nos anos 70, ou, quem sabe, das estimulações construtivistas implementadas por alguns professores, talvez até da ascensão dos estudos culturais e da supressão da valorização crítica como mecanismo de consagração. O fato é que, se nas últimas semanas por diversas vezes fui questionado sobre tal situação, tenho certeza de que daqui pra frente tal sensação só irá aumentar. Aos que mergulharem nesse labirinto, desejo muito discernimento e um bocado de sorte para encontrar e compartilhar o que de melhor possa estar sendo produzido nesse exato momento, onde quer que esteja.



Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 05 de novembro de 2013

sábado, 2 de novembro de 2013

4º SALIPA - Salão do Livro de Parnaíba




O Salão do Livro de Parnaíba (Salipa) é um evento anual, já na sua 4º edição, realizado pela Prefeitura de Parnaíba com apoio da Fundação Quixote, a mesma entidade que realiza o Salão do Livro do Piauí (Salipi). O Salipa é considerado a maior festa literária da região da Rota das Emoções por ter o maior número de atividades simultâneas e por reunir, na programação de palestras, escritores consagrados no Piauí e no Brasil.



Programação

Quinta-Feira (7/11)

18h30 – Abertura
19h30 – Conversa com ZUENIR VENTURA
(Jornalista e escritor / Rio de Janeiro)

20h30 – Show Musical
VAGNER RIBEIRO E VALOR DE PI
(Teresina)


Sexta-Feira (8/11)

8h – "Sexualidade - Noções, tabus e preconceitos"
ANTÔNIO NORONHA
(Médico / Teresina)

10h – "A poesia que é reza – A criação poética no sincretismo religioso"
JOSÉ GALAS FILHO
(Poeta e jornalista / Parnaíba)

14h – "A Criação Poética"
ISRAEL CORREIA
(Poeta, Prof. Msc. UFPI, membro da APAL / Parnaíba)

16h – "Gramática, literatura e preconceito linguístico"
JOÃO BENVINDO
(Prof. Dr. da Ufpi / Teresina)

19h – Conversa com AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
(Escritor e professor / Rio de Janeiro)

21h – Show Musical
VAVÁ RIBEIRO
(Teresina)


Sábado (9/11)

8h – "Literatura e História: práticas discursivas e construção de sentido sobre a cidade de Parnaíba (PI)"
FRANCISCO NASCIMENTO
(Prof. Dr. da Ufpi / Parnaíba)

10h – "O cinema como ferramenta de valorização da cultura local"
CÍCERO FILHO
(Cineasta / MA)

14h – "Periódicos literários e as novas práticas de produção e divulgação da literatura"
THIEAGO E e DEMETRIOS GALVÃO
(Poetas e editores / Teresina)

16h – "A paixão pelo teatro e o Grupo Harém”
FRANCISCO PELLÉ
(Ator / Teresina)

19h – Conversa com MARINA COLASANTI
(Escritora / Rio de Janeiro)

21h – Show Musical
GRUPO AQUARELA
(Parnaíba)


Domingo (10/11)

8h – “Evandro Lins e Silva – O homem e sua obra”
FIDES ANGÉLICA OMMATI
(Advogada, professora universitária, membro da APL / Teresina)

10h – “Literatura contemporânea brasileira”
ANDRÉ PINHEIRO
(Prof. Dr. da Ufpi / CE)

15h – "Poesia e memória em H. Dobal"
ADRIANO LOBÃO ARAGÃO
(Poeta e mestre em literatura / Teresina)

18h – Conversa com FABRÍCIO CARPINEJAR
(Escritor/Porto Alegre)

20h - Encerramento
20h30 - Show Musical
ARQUIVO SONORO
(Parnaíba)