quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Piauí contando história




Vagner Ribeiro contando história. foto: Danilo Medeiros


No início de 2012, juntamente com Alfredo Werney, Danilo Medeiros, Éverton Diego, Laís Romero e Zorbba Igreja, realizamos uma entrevista com o músico Vagner Ribeiro, que estava prestes a lançar seu primeiro CD, “O Piauí contando história”. Foi um bate-papo bastante animado e longo, a ser publicado na íntegra na próxima edição da revista eletrônica dEsEnrEdoS. A seguir, apresentamos um breve fragmento dessa conversa.

Adriano Lobão Aragão – Mas e aí, o Piauí tá carregado de que mesmo? O que é que o Piauí tem?

Vagner Ribeiro – O Piauí, ele tem... rapaz, o Piauí... Eu já entrei muito nessa onda de viajar... O Piauí é como se tivesse um grande diamante bem encravado, bem no meio do Piauí, e por esse diamante estar aí, a superfície vem toda áspera, vem toda cheia de espinhos, que é próprio da natureza. Quando tem uma coisa muito preciosa, ela cria mecanismos de defesa. Daí a explicação dos espinhos na rosa. Se rosa fosse sozinha, ela facilmente era depredada, né?, pela facilidade de colher. Eu acho que o Piauí, ele tem essa coisa, ele tem muita coisa que ainda vai ser descoberta. Eu não sei se é no subsolo... também... ou é... a gente sabe disso... Mas eu acho que no interior das pessoas tem muito isso. E vamos sair do Piauí. Hoje eu já saí do Piauí, entendeu? No meu trabalho, esse que eu tô fazendo agora, eu já não falo mais “cultura piauiense”, eu falo “cultura brasileira”.
               
Adriano – Mas esse teu CD...

Vagner – ... esse é Piauí, esse é Piauí, é.

Adriano – É... e esse teu trabalho se chama justamente “O Piauí contando histórias”.

Vagner – ...contando histórias.

Adriano – Foi uma espécie de despedida?

Vagner – É, exatamente. Despedida assim... pelo contrário, eu não tô abandonando a ideia “Piauí”, eu tô é aprofundando. Eu acho que pra aprofundar o Piauí em termos de lugar, lugar no Brasil, eu tenho que falar de cultura brasileira. Acabou de dizer que eu sou piauiense, porque eu sendo piauiense, eu ainda vou tá puxando “olha gente, olha pro Piauí”. E eu acho que eu não tô mais nessa. E o Piauí não deve mais pensar assim, entendeu? Nós estamos em uma federação que tem os mesmos direitos, pelo menos na cartilha. E é assim que deve ser, então, eu já rodei em muitos lugares do Brasil, e as pessoas dizem “olha que legal essa música nacional aqui e olha aqui o regional.” É aquela história que o Alceu Valença fala muito, que todo mundo ganha prêmio nacional e ele ganha prêmio regional. Nada contra.

Alfredo Werney – Você acha que isso diminui um pouco a...

Vagner – [interrompendo] Não é que diminui, mas eu acho que é uma questão de educação, eu acho que é uma questão de... de educação que falta, sabe, conhecimento mesmo. Sabe, quando alguém diz assim “Teresina é capital do Piauí?” querendo desdenhar, pra mim, dá vontade de dizer “olha, minha filha, o Acre é longe pra caramba, mas eu sei que Rio Branco é a capital do Acre (risos), aprendi isso na sexta série, sétima série, é básico isso em geografia. Então, não venha com essa onda, não, né? Vai estudar. Sei lá, eu acho que o... é assim que a gente faz. Eu nunca usei o discurso “o povo não valoriza a cultura”, nunca usei, sabe? Porque eu acho que não é por aí, o povo valoriza sim, o povo gosta. Agora, nós que produzimos, às vezes, fazemos isso muito mal. Eu acho que o Piauí, algumas vezes, fez muito mal ao mostrar sua cultura aí, sabe? Eu vi muita coisa assim... não é por aí. Vou te dar um exemplo, uma vez eu estava numa excursão de um desses retiros de leis nacionais aí... e o cara defendendo “ah lei, não sei o quê...” aí um cidadão, um cara, um dos nós (risos), ele disse “olha porque a cultura do Piauí é a cultura mais não sei o quê, mais... mais...”, eu fiquei ridicularizado. Não é, cara. Não existe um mais. Isso é ocidental, isso é uma ideia capitalista, uma ideia de dizer que “o mais barato ou o maior, o melhor.” Cara, esquece o mais, o melhor, o maior, faz o bom, daí já vai ser suficiente. Então, a pior coisa que esse cara disse lá, o músico, e ele falou isso. Até um outro cara, muito simpaticamente, disse “você conhece a cultura de Santa Catarina?” O cara disse assim, né, pra dar um toque nele. Como é que ele pode falar que o Piauí é a melhor cultura se ele não conhece Santa Catarina, ele, certamente, não conhece São Paulo, o Rio de Janeiro e... é por aí, sabe? Então, eu disse, realmente... Então, não é defender Piauí, Piauí demais que nós vamos defender...

Alfredo - Bairrismo, né? Você é contra o bairrismo?

Vagner - Nesse sentido aí sim, cara. Quando exagera, acho que todo exagero, pra mim, ele não serve, não.



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 23 de outubro de 2012] 

sábado, 6 de outubro de 2012

Três perguntas para o tecladista Vinícius Bean

[Adriano Lobão Aragão]




Atuando há mais de uma década no cenário musical de Teresina, o tecladista Vinícius Bean participa atualmente das bandas Acesso, Cojobas e André de Sousa & Mojo Band. Ao longo da semana passada, conversamos sobre música autoral, projetos e profissionalização. A seguir, alguns fragmentos desse diálogo.


Adriano Lobão Aragão - Como você avalia o atual cenário da música autoral no Piauí?

Vinícius Bean - Eu entendo a música autoral no Piauí como um ciclo. Nós estamos, na minha percepção, na curva ascendente (novamente) desse ciclo... No início dos anos 2000, havia uma efervescência musical bem grande por aqui, muitas bandas autorais estavam aparecendo e produzindo muita coisa legal. Narguilé Hidromecânico (que já vinha de antes um pouco), Acesso, Roque Moreira, Fullreggae, Os Caipora, e tantos outros vieram dessa leva. Alguns anos depois, já por volta de 2006, essa produção deu uma diminuída. Foi a época em que se viu muita banda cover aparecendo por aqui. Eu mesmo participei (e ainda participo) de algumas... Mas eu percebo que, de um, dois anos pra cá, a produção de música autoral está surgindo novamente, há novas bandas com trabalho próprio, e algumas que já estão na noite há muito tempo, mas que só recentemente lançaram trabalhos próprios. Você vê, nessa leva, o Validuaté, Aclive, Regaplanta, fora as bandas que mantiveram a produção desde o topo do ciclo anterior, como Batuque Elétrico, e por aí vai. Há, também, uma cena muito forte no blues de Teresina, nos últimos anos. Mojo Band, Clínica Tobias Blues e BR 316 são os melhores exemplos dessa leva. Além disso, há mais bares para bandas autorais tocar do que há 2, 3 anos, e isso tudo movimenta a cena. Não que dê pra viver somente disso, mas, pelo menos, há produtores de eventos e festas que estão voltando a colocar para movimentar essa cena autoral, e isso é muito importante.


Adriano - Profissionalmente, é possível viver de música no Piauí?

Vinícius - Isso é muito relativo... Dá pra viver sim, mas desde que se vire um operário da música... Não se pode ter preconceito com estilos de música. É profissão, então tem que levar a sério o que aparecer. De música autoral, especificamente, não lembro de nenhum artista que viva no Piauí, atualmente, que sobreviva estritamente das suas composições e shows contendo mais da metade do set de músicas próprias... Eu mesmo, posso dizer que passei alguns anos da minha vida vivendo praticamente da minha musica, mas eu era jovem, não tinha filhos e morava na casa dos meus pais. E isso faz toda a diferença.


Adriano - Em sua trajetória musical, quais os momentos mais marcantes?

Vinícius - Meu jovem, momentos marcantes, tem tantos que tenho medo de citar e esquecer de algum... mas vamos lá: No Piauí Pop de 2004, simplesmente todo mundo que tava lá (umas 20 mil pessoas), cantando nossas músicas (da banda Acesso)... pra um artista que trabalha com suas próprias músicas, é uma sensação que não tem preço! No mesmo Piauí Pop, em 2006, tocamos (banda Acesso) no palco principal do evento, nesse momento tivemos um misto de consolidação do trabalho com um pouco de "volta por cima", alguns artistas nacionais citaram o nome da nossa banda nas suas coletivas, falando bem do trabalho, e isso foi absurdamente gratificante pra gente como banda. Mais recentemente, com a Mojo Band, participamos do festival Rock Cordel em Fortaleza, e tivemos uma receptividade muito boa, que rendeu (e está rendendo) bons frutos. Aliás, eu me sinto um privilegiado, de certa forma, especialmente em se tratando de Piauí Pop, porque tive a oportunidade de tocar no palco principal em quase todos os anos do evento, de 2005 até 2008, com vários artistas diferentes, de estilos diferentes. Lembro que em um dos shows com o Teófilo, no palco principal, o Toni Garrido (do Cidade Negra), subiu pra cantar uma música com a gente... Outro momento muito importante na minha carreira foram as participações no Ceará Music, em Fortaleza... em todas tivemos experiências muito legais, tanto de contatos firmados, quanto de abertura de horizontes. Me sinto um privilegiado, também, pela quantidade de discos que gravei, com vários artistas diferentes... Acesso, Edvaldo Nascimento, Teófilo, Anno Zero, Radiofônicos, Madame Baterflai, Cojobas, André de Sousa & Mojo Band, Clínica Tobias Blues, entre outros (me perdoe quem eu não citei). Tiveram também os prêmios: também com a banda Acesso, ganhamos alguns prêmios legais, tipo Chapadão, Prêmio Clube, foram experiências bem bacanas. Além disso, tive a oportunidade de tocar com alguns artistas mais famosos, de expressão nacional, como Marcelo Bonfá (Legião Urbana), Fernando Magalhães e Rodrigo Santos (Barão Vermelho), Afonso Nigro (Dominó), Tico Santa Cruz (Detonautas), André Matos (Angra / Shaman), mais recentemente alguns artistas de blues e jazz, tipo Kenny Brown, Atiba Taylor, Harmonica Hinds, entre outros. São experiências bem interessantes, e muitas delas promovem certas realizações engraçadas. Imagine que eu toquei com o Fofão! Hehehe... Mais recentemente, também, não posso deixar de citar as apresentações com o Cojobas, que sempre são marcantes, seja pelo público que assiste, seja pela estrutura dos shows, seja pelo cuidado que nós temos com a parte musical... isso tudo fica marcado, positivamente, pra sempre. São alguns fatos e situações que estou lembrando no momento, mas há situações marcantes em todas as épocas da minha vida musical, e ainda virão mais algumas (assim espero).


[Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, coluna Toda Palavra, 02 de outubro de 2012]

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

na glória de tua força perdida na ânsia do herói

[adriano lobão aragão]


na glória de tua força perdida na ânsia do herói
derrotado se constrói a divindade que te louva
levado à mesma forca que sendo erguida se destrói

perdida a força do herói o que em nossa lira se canta
guarda no andor de santa caminho em terra de homens sós
onde em ferro se constrói todo canto que ao fogo espanta

há música e há dança onde uma musa leve se mova
meretriz que se louva quando um herói sem esperança
entrega a própria lança na rude batalha em que morra

entre as marcas e a força do profano e do sagrado
destes heróis armados que uma brisa distante encanta




[in entrega a própria lança na rude batalha em que morra]