quarta-feira, 27 de junho de 2012

Mallarmargens, poesia e arte contemporânea


[Adriano Lobão Aragão]



Fundada por Mar Becker e Wesley Peres, e tendo como editores, além de Mar e Wesley, Alexandre Guarnieri, Nuno Rau, Paula Freitas e Viktor Schuldtt, a Revista de Poesia e Arte Contemporânea Mallarmargens (http://www.mallarmargens.com) iniciou suas atividades na web em abril de 2012, tendo como objetivo aglutinar o melhor da poesia contemporânea nacional e internacional e propiciar ambiente amigável para troca de influências e diálogo literário entre os autores, bem como proporcionar visibilidade aos mesmos e facilitar o contato com o meio editorial. Envolvendo uma grande quantidade colaboradores, a pluralidade e diversificação parece ser uma forte marca da revista, embora sempre retome seu motivo inerente: a poesia. Conversamos com Mar Becker sobre Mallarmargens, contando com colaboração de Wesley Peres e Adriano Wintter.     


Por que Mallarmargens?
"Mallarmargens" surgiu quando pensávamos no perfil que gostaríamos de imprimir à revista. O termo alude a Mallarmé e sua poética, da qual se originaram inúmeros movimentos de vanguarda, incluindo aqueles que existem hoje, como a poesia visual. Mallarmargens, portanto, sintetiza bem a proposta da revista: abarcar poéticas contemporâneas, não estabelecer limites (porque as 'margens' se alargam, se expandem para além do que podemos mensurar)...

Em outras palavras, oferecer um amplo olhar sobre o que é escrito em poesia atualmente. Ah, e, claro, é um significante que produz ondas, cheio de ressonâncias: armar, margens, mal, mal armar (uma ressonância irônica, pois em poesia se trata de bem armar — apesar que pode ser também armar o mal, como o Maldoror de Lautréamont), gens (o que remete à gênese), armar as margens da origem, e ainda tem o mar, que é oposto a margens.

Depois percebemos que esse nome se relacionava diretamente às vanguardas brasileiras. Augusto de Campos, no livro "Mallarmé", de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari (editora Perspectiva), inseriu uma obra intitulada "Mallarmargem", na qual realiza um trabalho gráfico, compondo uma foto do poeta francês.

Há algum tipo de direcionamento?
Sim, há direcionamento. O que queremos dizer é que esse direcionamento não redunda na escolha de uma poética em detrimento de outras, por exemplo. Existem critérios a que obedecemos na seleção dos textos, mas esses critérios abarcam – tanto quanto possível – os diversos segmentos da poética contemporânea.

E a repercussão de Mallarmargens, como tem sido?
Imensa. Na verdade, nunca pensamos que atingiríamos tanto público: as estatísticas apontam uma média de 3 mil visualizações diárias. Hoje, somam mais de 80 mil. É um número altíssimo, sobretudo para uma revista que tem pouco mais de um mês de existência. Foi surpreendente descobrir que, ao contrário do que supõe o mercado editorial, existe de fato um grande número de escritores e leitores de poesia, e não só no Brasil – Mallarmargens conta com a colaboração de pessoas de diversas partes do mundo (Portugal, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Angola, Itália, Espanha...), seja com poemas de sua autoria, seja com traduções de poetas renomados.

E como vocês avaliam a atual cena poética contemporânea?
Positivamente. Há muita gente escrevendo. A internet facilita o acesso e as trocas, o que é bom – Mallarmargens surgiu nesse contexto de diálogo virtual, por exemplo. Talvez pudéssemos falar em 'cenas poéticas', dado que não há um paradigma estético ou escola/movimento dominante entre os poetas hoje. O interessante é ver que a qualidade pode conviver muito bem com a pluralidade.

[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 27 de junho de 2012]

domingo, 17 de junho de 2012

Literatura - leitura, escrita, ensino


Na manhã de sábado, 16 de junho, durante o 10º SALIPI, ministrei palestra intitulada Literatura - leitura, escrita, ensino. Ao longo da conversa com a plateia, comentei os seguintes fragmentos que ajudaram a nortear o tema:


_ Pergunta de aluno: “Professor, a gente estuda literatura pra quê?

I
“A verdade é que não tenho revelações a oferecer. Passei minha vida lendo, analisando, escrevendo (ou treinando minha mão na escrita) e desfrutando. Descobri ser esta última coisa a mais importante de todas. “Sorvendo” poesia, cheguei a uma derradeira conclusão sobre ela. De fato, toda vez que me deparo com uma página em branco, sinto que tenho de redescobrir a literatura em mim mesmo. Mas o passado não é de valia alguma para mim. Assim, como disse, tenho apenas minha perplexidades a lhes oferecer. Estou perto dos setenta. Dediquei a maior parte de minha vida à literatura, e só posso lhes oferecer dúvidas.”

Jorge Luis Borges: “O enigma da poesia”, in Esse ofício do verso, tradução de José Carlos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p.10

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II
 “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.”

Jorge Luis Borges: “O livro”, in Borges oral & sete noites, tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.11
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III 
“Vivemos numa era de ciência e de abundância. O amor e a reverência pelos livros como tais, próprios de uma época em que nenhum livro era duplicado até que alguém se desse ao trabalho de copiá-lo a mão, não respondem mais, obviamente, “às necessidades da sociedade” ou à preservação do saber. Precisa-se com urgência de uma boa poda, se é que o Jardim das Musas pretende continuar a ser um jardim.
O MÉTODO adequado para o estudo da poesia e da literatura é o método dos biologistas contemporâneos, a saber, exame cuidadoso e direto da matéria e contínua COMPARAÇÃO de uma “lâmina” ou espécime com outra.
Nenhum homem está equipado para pensar modernamente enquanto não tiver compreendido a história de Agassiz e do peixe:
Um estudante de curso de pós-graduação, coberto de honrarias e diplomas, dirigiu-se a Agassiz para receber os ótimos e últimos retoques. O grande naturalista tomou um peixinho e pediu-lhe que o descrevesse.
Estudante: – Mas este é apenas um peixe-lua.
Agassiz: – Eu sei disso. Faça uma descrição dele por escrito.
Depois de alguns minutos o estudante voltou com a descrição do Ichtus Heliodiplodokus ou outro termo qualquer, desses usados para sonegar do conhecimento geral o vulgar peixe-lua: família dos Hellichtherinkus, etc., como se encontra nos manuais sobre o assunto.
Agassiz pediu ao estudante que descrevesse de novo o peixe.
O estudante perpetrou um ensaio de quatro páginas. Agassiz então lhe disse que olhasse para o peixe. No fim de três semanas o peixe se encontrava em adiantado estado de decomposição, mas o estudante sabia alguma coisa a seu respeito.”

Ezra Pound. Abc da Literatura. Tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes. 10.ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2003. p.23-24
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IV
“É esse engajamento total que resulta nos vários modos de resposta: marginalia, anotações breves, correções de texto, emendas, transcrições. Tomadas em conjunto, todas essas respostas geram uma continuação do livro que está sendo lido. A pena atuante do leitor escreve “o texto em resposta ao outro” (vale lembrar as distintas conotações da palavra “resposta”, do latim reposta). Essas repostas podem variar do fac-símile – que é a aquiescência total –, passar por reações favoráveis ou desfavoráveis a determinadas ideias e chegar à negação absoluta, ao ‘contratexto’. Muitos livros foram escritos como verdadeiros anticorpos a outros livros. Entretanto a verdade principal que se extrai de tudo isso é a seguinte: existe latente em todo ato de leitura consequente a compulsão de se escrever um livro em reposta. A definição de um intelectual é simples: é um ser humano que tem na mão um lápis quando está lendo um livro.”

George Steiner. “O leitor incomum”, in Nenhuma paixão desperdiçada. Tradução de Maria Alice Máximo. Rio de Janeiro: Record, 2001. p.20
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V
“Na prática, o que primeiro observo em muitas turmas não é exatamente a sedução pelo poético, mas um certo temor reverencial, como se as pessoas se sentissem lidando com um discurso quase intimidador no seu hermetismo, e a cuja complexa inteligibilidade supõem que jamais terão acesso. Sob esse ângulo, a poesia parte de uma dupla desvantagem frente à ficção: não é preciso ser “especialista” para se entender ou acompanhar uma história. O poema, em geral, não possui enredo; fica-se com a falsa impressão de que não há nada a acompanhar, e, portanto, não há meio de se falar alguma coisa sobre coisa alguma, como se a lírica fosse prosa por subtração, desfalcada dos elementos que sustentam a narratividade da ficção. A narrativa nos acompanha desde a infância, somos imemorialmente imersos num universo de histórias: as familiares, as comunitárias, as ficcionais, não apenas nos livros, mas também nas revistas, nos filmes, nas telenovelas. A ficção vem a nós; a poesia, nós temos de buscá-la. Daí, invariavelmente, seu caráter diferenciado, exigindo uma postura frente à linguagem que não é regida pelos mesmos mecanismos que regem a ficção. Categorias como personagem, ponto de vista e narrador costumam ser irrelevantes para a análise do poema, sem que muitas vezes, apavorados, saibamos o que pôr em seu lugar. Surge, então, a tendência de refugiarmo-nos na mera descrição externa do poema, arrolando características técnicas que, no máximo, seriam relevantes para um começo de conversa, mas nunca para substituir-se a uma análise. Damos a interpretação por encerrada quando, a rigor, ela sequer começou.”

Antonio Carlos Secchin. Memórias de um leitor de poesia. Rio de Janeiro: Topbooks, 2010. p.17-18 
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VI
“A literatura é, pois, uma forma de ligação com o passado, uma forma de re-vivificá-lo. De aprender com ele, sim, mas mais que isso: uma forma de nos apropriarmos dele, de nos colocarmos como seus herdeiros. A literatura fala pelo passado e faz o passado falar pelo presente.
É compreensível, portanto, que ela tenha sido vista, ao longo dos tempos, como um dos elementos principais da civilização, que é a continuidade, a herança e a atualização do passado no presente. E se no patrimônio do passado incluirmos as línguas clássicas e as línguas nacionais que, a partir do século XIV começaram a se tornar línguas literárias, então fica ainda mais fácil compreender porque, entre todas as artes, foi a literatura a que mais se identificou com o conceito de cultura, de civilização e de nacionalidade.
Ensinar literatura, portanto, em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial.”

Paulo Franchetti. Ensinar Literatura para quê?, in revista dEsEnrEdoS, ano I, número 03, Teresina, novembro de 2009. p.7



terça-feira, 12 de junho de 2012

Ler Nélida Piñon




Nélida Cuiñas Piñon nasceu no dia 3 de maio de 1937, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, filha de Olivia Carmen Cuiñas Piñon, brasileira filha de galegos, e Lino Piñon Muiños, comerciante, natural de Borela, município de Cotobade (Galiza). Na década de 1910, seu avô materno, Daniel Cuiñas, chega de Carballedo (Cotobade) "para conquistar o Brasil". Em 1947, aos dez anos, mudou-se com pais e avós maternos para Borela, onde permaneceram por dois anos. Na aldeia galega, a forte presença da natureza, o modo de vida camponês e o imaginário galego iriam influenciar bastante a obra que Nélida viria a produzir anos depois, principalmente seu romance A República dos Sonhos.

Desde seu primeiro romance, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, a linguagem da autora é apontada como inovadora e hermética. Em 1978, em depoimento para a Folha de S. Paulo, Nélida declararia que buscava expressar-me através de uma linguagem nova, de uma sintaxe pessoal. Lutei por isso porque, desde menina, compreendia que tinha de subverter a sintaxe bem comportada, pois as palavras que nela estão, são, de modo geral, também muito bem comportadas. São palavras oficializadas, institucionalizadas, estatutizadas. Então, eu busquei um caminho que subvertesse essa noção de realidade que me implantavam.”

Entre Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo e A República dos Sonhos, editado em 1984, Nélida publicou os romances Madeira Feita Cruz, 1963; Fundador, 1969; A Casa da Paixão, 1972; Tebas do Meu Coração, 1974; e A Força do Destino, 1977, além de livros de contos. Em todas essas obras, a autora imprimiu seu estilo peculiar, sua sintaxe desafiadora e uma apurada visão do universo feminino. Tais aventuras linguísticas e estéticas exigiram da autora um rigoroso procedimento de produção, um compromisso exaustivo de escrita e reescrita em busca da expressão exata que respondesse artisticamente a seus anseios enquanto escritora ciente da necessidade de uma voz própria.

É importante frisar que, além da narrativa em si elaborada por Nélida, sua trajetória como escritora e personalidade pública confirma-se como uma das mais expressivas e louváveis carreiras, configurando-se como um inestimável exemplo da plena emancipação feminina. Entre outros méritos, destacamos sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 27 de julho de 1989 (instituição que promoveu ao longo de sua história lamentáveis episódios calcados em um machismo inadmissível para uma entidade voltada para o âmbito cultural, como a impugnação da candidatura de Amélia Bevilácqua e as sucessivas décadas sem que nenhuma mulher fosse admitida em seus quadros); ainda em 1989, recebe o título de Personalidade do Ano, deferido pela União Brasileira de Escritores, participa do Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, em Lisboa, e em abril viaja aos EUA para o lançamento de The Republic of Dreams, traduzido por Helen Lane. Em 1991, assume a Cátedra Henry King Stanford em Humanidades, na University of Miami, ministrando cursos semestrais de Literatura Comparada, atividade que se estendeu até 2003. Em 1992, a University of Miami organiza o International Symposium “The World of Nélida Piñón”, nos dias 3 e 4 de abril, no Lowe Art Museum, Miami. Em 1996, foi eleita presidente da Academia Brasileira de Letras, primeira mulher a ocupar a presidência da Casa de Machado de Assis. Coube a Nélida a responsabilidade de coordenar, com exemplar maestria, a celebração do centenário da ABL, em 1997. No ano seguinte, foi nomeada Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres, comenda do governo francês. Também recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), concedido pela primeira vez a uma mulher em 503 anos, além de conquistar o Prêmio Príncipe de Astúrias-Letras, pela primeira vez concedido a autor de língua portuguesa. Entretanto, nenhuma dessas láureas concedias à autora supera a maior homenagem que se possa fazer a quem se dispõe a mergulhar profundamente na criação literária: ler, comentar, discutir e divulgar sua obra. Nélida exige muita atenção e reflexão de seus leitores, mas gentilmente oferece, como uma verdadeira musa da narrativa plena de significados, a oportunidade de nos tornarmos melhores leitores.
 
 
[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 12 de junho de 2012]