domingo, 29 de abril de 2012

ainda havia carambolos nos muros

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Poema inédito publicado no jornal O Dia, caderno Metrópole, Teresina, 29 de abril de 2012, na coluna Intacta retina, que há algum tempo, através do ávido labor de Thiago E (e das ilustrações de Joniel Veras), vem colocando a poesia na pauta dO Dia.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Superaventuras Marvel nº 17








Dentre os diversos bares ou restaurantes que meu pai administrou na vida, houve um no bairro São Cristóvão no qual às vezes eu passava as tardes de domingo para que pudéssemos ter um pouco mais de contato, pois sua atividade nos bares impedia que convivêssemos cotidianamente em casa. Desde pequeno, admirava sua paciência, sua preocupação com os detalhes em cada coisa que fazia, sua dedicação ao trabalho. Isso foi no final de 1983, e em breve eu completaria sete anos. E gostava sobretudo de ter aprendido a ler. Para mim, era essa a minha descoberta fundamental, uma chave que me levava para além dos desenhos que havia nos quadrinhos, e minha mãe não precisava mais dizer o que neles estava escrito. Ela comprava gibis da Disney, embora eu nunca tenha gostado muito da Disney. Exceto alguns desenhos animados do Pato Donald, mas tinha certa ojeriza pelos seus quadrinhos. E era justamente esses famigerados quadrinhos os que ela constantemente comprava, e me entregava-os aportuguesando bastante o nome do personagem: Donaldo. Mas o ato de trazer-me aquelas revistas era algo fabuloso que expressava sua preocupação em manter-me interessado na leitura. E muito me agradou quando um dia ela deixou de comprar coisas da Disney e adotou o Maurício de Sousa. Cascão, Cebolinha e Mônica, depois o Horácio, principalmente, (pois tornou-se o meu personagem favorito) tratavam de um universo que eu considerava bem mais próximo e atraente, e o vício por suas histórias foi por mim muito bem-vindo. E eu levava sempre alguma revista para ler nas tardes em que eu passasse nos bares de meu pai. Curiosamente, ali me parecia um lugar bastante propício para tal atividade, naqueles tempos.

E um dia eu conheci os quadrinhos da Marvel. Devo isso a dois de meus primos, um de cada lado da família. Marcelo Lobão era bem mais velho do que eu, tinha revistas de super-heróis e sabia desenhá-los, estas eram duas coisas que eu passei a almejar: 1) ter revistas como aquelas, com histórias do Conan, do Warlock, dos Vingadores, do Punho de Ferro. Basicamente, algumas Heróis da TV, editadas pela Abril, e alguns poucos títulos editados pela RGE. É interessante lembrar que nunca me identifiquei com o Homem-Aranha. Até o Hulk me parecia mais interessante. 2) saber desenhar aqueles personagens. Na verdade, eu queria muito saber desenhar pelo menos alguma coisa com um mínimo de qualidade.

O outro primo era o Raul Aragão, com quem passava alguns finais de semana na casa dele, lendo revistas de super-heróis e jogando videogame Odyssey. Mas o que interessa neste momento aconteceu numa tarde, quando Raul e eu estávamos no bar, e meu pai nos disse para irmos até a banca de revistas (nunca consegui chamá-las de “bancas de jornais”) e cada um poderia escolher uma revista. Raul voltou com um exemplar do Capitão América. Eu fiquei hipnotizado com a capa de Superaventuras Marvel n.º 17, a edição de novembro de 1983, revelando quatro personagens que eu sequer havia ouvido falar, mas que de imediato me cativaram: Pantera Negra, Homem-Coisa, Sonja e, sobretudo, o Demolidor, escrito e desenhado por Frank Miller. Tudo ali me atraía. Do título das histórias ao enredo, dos heróis aos vilões, do desenho às cores, era um novo mundo que se abria misterioso e fascinante. “Espinhos na Alma”, onde o majestoso Pantera Negra, o herói africano, enfrentava um medonho vilão cujo corpo era coberto por espinhos. “A Origem do Homem-Coisa”, um ser estranhíssimo que sente o medo das pessoas. “A Chave Maldita”, a sensual guerreira Sonja, uma ruiva em trajes sumários, enfrentando um gigante mecânico em um remoto mundo bárbaro. Mas a história que me deixou mais intrigado foi “Demônios da Mente”, com um herói cego buscando recuperar sua capacidade de sentir o mundo com uma espécie de radar cerebral. Atirava flechas no alvo enquanto relembrava sua infância, enfrentava seus traumas, seus medos personificados em um monstro abjeto. Na verdade, ele enfrentava a si mesmo. O Demolidor passou a ser instantaneamente meu herói favorito, e Frank Miller o autor a ser louvado. E naquela tarde de novembro de 1983, naquele bar, nenhuma outra revista ou brinquedo seria mais importante para mim que as Superaventuras Marvel n.º 17. 

Curiosamente, o desejo de ter revistas instaurou-se em mim de maneira tão forte quanto o ato de ler. Algumas vezes, até em maior intensidade. Eu sentia-me bem com o fato de poder ter revistas, de serem minhas. Esse sentimento de posse me acompanhou pela vida, esse desejo de comprar cada vez mais revistas, depois discos, filmes, livros, principalmente. Mas nem isso era suficiente. Eu sentia que precisava experimentar ser também um autor de tudo o que despertasse meu interesse. Não me bastava ler uma revista, eu precisava também escrever e desenhar minhas próprias revistas, e o objetivo maior, que nunca eu conseguiria alcançar, era justamente o estilo e a linguagem daquela Superaventuras Marvel, daquele Demolidor, daquele Frank Miller. Acho continuaria tentando até hoje, se um dia não tivesse descoberto o irremediável vício da poesia. Mas essa já seria uma outra história.


[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 24 de abril de 2012]

segunda-feira, 23 de abril de 2012

desenho em nanquim disperso desenho

[adriano lobão aragão]


desenho em nanquim disperso desenho
livre linha escrita de sombra e luz
teu rosto às vezes em riso sereno
suave saudade tristeza produz
teu pranto às vezes ameno distante
seus laços estende em torno da mão
e suave acolhe uma lágrima errante
de tinta e encanto teus traços serão
quem sabe rascunho ou leve rabisco
um traço presente onde ausente estás
quem sabe o risco guardado destino
pressente um olhar e um riso se faz
quem sabe a vida nos traços que imito
deseje o instante deixado pra trás


[in as cinzas as palavras]

sábado, 14 de abril de 2012

dEsEnrEdoS 13





editorial






Recentemente, o editor Rogério Pereira concedeu uma entrevista a Josélia Aguiar sobre os 10 anos do Rascunho. A certa altura da entrevista, ele afirma com seu senso de humor impagável: “A ignorância está entranhada na vida do Brasil. Ser ignorante é muito fácil, muito mais cômodo. Dói menos. Nossa classe média é alfabetizada, mas não lê. Ou lê para se distrair. Portanto, um bando de analfabetos. Nossos políticos, com algumas boas exceções, são todos clones do Tiririca: usam gravata Armani, terno Ermenegildo Zegna e carregam no bolso o livro de piadas do Costinha. Para tirar sarro da nossa cara, obviamente. Leitores surgem o tempo todo. Somos uma imensa minoria. Mas com bastante ânimo. Colaboradores também. O Rascunho não consegue abrigar todos que desejam colaborar com o jornal. E não pagamos um centavo pelos textos. É incrível como existem pessoas malucas”.

Compartilhamos com Rogério Pereira – e raro será o editor de veículos similares que discorde – duas certezas ali enunciadas. A primeira delas, a de que nossos leitores formam uma “imensa minoria”. No nosso caso, que não deve diferir muito do Rascunho, os leitores são basicamente escritores, pesquisadores ou escritores-pesquisadores.  à primeira vista, pode-se pensar que se trata de uma parcela ínfima dos letrados, mas não é. A Internet, na medida em que borra as fronteiras entre produtores e receptores, multiplica a cada dia a comunidade dos escritores, como comprova, entre outros fatores, a expansão da blogosfera; some-se a isso o fato de a pesquisa se expandir no Brasil como nunca, produzindo fenômenos como o aumento assombroso dos cursos de pós-graduação. Este processo de democratização é ambíguo, mas é inegável que ele nos traz o consolo de saber que nosso esforço tem uma direção certa, isto é, tem um público em potencial. E esse público – essa “imensa minoria” – chega até nós espontaneamente, é fiel (cobra inclusive se uma edição demora acima do previsto para sair) e sabe que os papéis na revista são altamente reversíveis: o leitor desta edição é autor na próxima e vice-versa.

O outro ponto da fala de Rogério que destacamos, compartilhando do seu espanto, é como existem tantas “pessoas malucas” dispostas a colaborar. O número crescente de trabalhos recebidos tem levado a equipe da dEsEnrEdoS a um misto de euforia e, se assim podemos dizer, de saudável apreensão. Não tem sido fácil ser justo na avaliação de tantos trabalhos, e para ninguém é agradável ter de deixar este ou aquele texto fora da revista. Mas, enfim, um veículo democrático, que franqueia seu espaço à crítica e à criação, que recebe com a mesma modesta satisfação colaborações de variados gêneros e diversas entonações de linguagem, deve assumir essa tarefa como um prêmio. Um prêmio que, como todo êxito da dEsEnrEdoS, deve ser creditado não a este ou àquele sujeito em particular, mas a essa imensa minoria que a constitui, independente do papel que exerça.
  
Os Editores 



contato
lobaoaragao@gmail.com
wandersontorres@hotmail.com



[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 13 - teresina - piauí - abril maio junho de 2012]

sexta-feira, 13 de abril de 2012

quem, sentado contigo, face a face

[adriano lobão aragão]


quem, sentado contigo, face a face
ouve de perto a tua doce fala
tendo os olhos nos astros, ó Safo
e os pensamentos nas águas

sentado à beira contigo, ó Lídia
bem sabes
destes séculos todos
para que fosses nosso, ó mar
assestamos a quilha contra as vagas

são infelizes pois seu trabalho é penoso
e também sabes:
homens habitam a água longe da terra
em pleno oceano
            como todos sabemos
conjugar esses verbos:
rezam de mãos erguidas para os deuses
enquanto suas entranhas são horrivelmente sacudidas

há cousa, Aristéas, como ver um Paiaiá
repastam-se a tripa fora e copulam nela
na disputa da satisfação desses apetites
entrematando-se
sentado contigo, face a face

outro caminho leva à província
– montando Sírio – cavalga o pai ensinando o filho





[in: Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

terça-feira, 10 de abril de 2012

“Poemas cuaze sobre poezias”




Cleyson Gomes nasceu em Campo Maior, no ano de 1982, mas reside em Teresina desde os sete anos de idade. Além de publicar seus poemas e afins no blog saladapoeticalia.blogspot.com, teve seu livro Poemas cuaze sobre poezias publicado e agraciado com o Prêmio Cidade de Teresina, Concurso Novos Autores, realizado pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves (Teresina-PI). É com o autor desses poemas, ou cuaze poezias, que nesta semana conversamos.


Adriano Lobão Aragão - "Poemas cuaze sobre poezias" é um título bastante estranho, não? Como você chegou a essa construção?
Cleyson Gomes - Pra responder a essa pergunta, irei contar uma historinha. Quando terminei de escrever o "p. c. s. p", mostrei para um colega. Ele, depois de ler o primeiro poema (poemas das 7 fases), disse: "cara, isso é quase poesia!". Eu: "como assim?!". Ele: "parece com o poema do Drummond...". Eu: "rapaz, isso é intertextualidade.". Ou seja, pro meu colega, "esse negócio de poema intertextual e metalinguístico não passa de 'quase-poema'"; e como o livro é intertextual e metalinguístico, resolvi, em homenagem a meu colega, batizar o livro de Poemas Quase Sobre Poesias e "brincar" no/com o título, modificando a grafia das palavras QUASE e POESIAS. O cuaze com "c" e "z" é justamente para representar/materializar o advérbio QUASE – aquilo que é "aproximadamente", aquilo que é "pouco menos" – e o poezias com "z" é a representação de "quase-poesias". Dessa des-construção, ou melhor, dessa "desautomatização da linguagem" nasceu o título "poemas cuaze sobre poezias" que, até então, causa estranhamento. Mas a idéia (em desacordo com o acordo ortográfico) é essa, causar estranhamento mesmo, levando o leitor a buscar novas percepções, sair do rotineiro; pelo menos amenizar os automatismos da linguagem cotidiana. É como diz o Chklovski: "A finalidade da arte é dar uma sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização [ostranenie] dos objetos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objeto, aquilo que já se 'tornou' não interessa mais a arte." (CHKLOVSKY, 1971, p.82)

Adriano - A intertextualidade permeia sua obra. Seria essa uma marca fundamental da sua poesia?
Cleyson - Talvez não diria marca, mas uma "pitada". No "p.c.s.p.", sem dúvida, posso dizer que a intertextualidade é uma marca, já nos outros livros (inéditos) a intertextualidade aparece em um ou dois poemas ou até mesmo é inexistente. Cada livro que escrevo, através do processo de "(trans)piração", se diferencia um do outro, ou seja, num livro você vai encontrar o predomínio da metalinguagem, noutro, por exemplo, o "p.c.s.p.", a intertextualidade. Sem falar dos variados temas, como o erotismo, a loucura etc, presentes em meus poemas. Procuro não "marcar" minha poesia, mas dividi-la em "marcas".

Adriano - Como tem sido a repercussão do Poemas cuaze sobre poezia?
Cleyson - Para um autor desconhecido e um país onde as pessoas leem menos de dois livros por ano, até que tem sido boa. Crítica, por enquanto, positiva. Por exemplo, os e-mails que recebo semanalmente elogiando o "p.c.s.p". Tenho vendido livros para várias partes do Brasil – São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Brasília – através do meu blog. Esse livro tem me proporcionado muitas amizades/contatos com pessoas das cinco regiões do Brasil, como o poeta e jornalista Romar Beling, a poetisa gaúcha Daniela Damaris e o poeta Valter Lima. Isso é mais do que gratificante.

Adriano - Qual o lugar da poesia nos dias atuais?
Cleyson - Por ser uma arte minoritária – no dizer do Octavio Paz –, a poesia, creio eu, não só no Brasil, mas em qualquer parte do mundo, está o final da fila. Como o "inútil" não serve, não é utilitário, então acaba não tendo importância para a grande maioria das pessoas.

Adriano - Então, por que razão ainda se escreve poesia?
Cleyson - Vou te responder com uma pergunta. Pra que viver?

Adriano - Tem certeza de que uma coisa implica a outra?
Cleyson - Pra mim, poesia e vida estão interligadas. Vivo intensamente a poesia; poesio intensamente a vida. Certas coisas não se explicam. E o porquê de se escrever poesia... Escrever poesia é "vontade de potência".



[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 10 de abril de 2012]  

segunda-feira, 2 de abril de 2012

METRÔuroboros

ilustração: Alexandre Guarnieri
 
METRÔuroboros
[Alexandre Guarnieri]

para Songül Boyraz e Peter Höll


haveria Tinguely criado d'algum Oroboro um robô

(ou mito), o moto perpétuo, ininterrupto híbrido?

os carris indestrutíveis por sobre cujas margens sedimentadas de

argila (feldspato e bentonite em sutil granulometria) reside,
automática, a antiga solidão desse bicho, que, se oriundo d'alguma
literatuta oculta, agora sofre um retrofit no signo, torna-se
híbrido: metrô e mito: Trem-Serpente, da Quetzalcóatl à Cobra-Canoa,
de Equidna à Unktehila, uma rara espécie de quimera, de que
quaisquer outros seres referentes seriam o único e mesmíssimo
espécime (pele vítrea e escamas de inox, há o Dragão de Vagões);
adquiriu por milênios um aprendizado curioso (ao tornar-se discípulo
de um camaleão de mercúrio), o dessa estranha blindagem capaz de
disfarçá-lo, indistinguível de um elemento completo do trem elétrico
mais moderno, e como Jonas houvera habitado as entranhas de um
mamífero marinho, eis seus estômagos, cheios de gente (vivendo lá por
dentro aventuras terríveis, entre o necessário transporte público
e um épico terreno); seus tro ncos unidos por torçais, aparentemente
metálicos, são ônibus de um comboio subterrâneo; no hábito alimentar
do ávido animal, famígero pela fome, cabem (anônimos) todos os
trabalhadores em trânsito na hora do rush urbano; seu ventre contínuo
eriça (as mandíbulas na barriga) sobre os trilhos íntimos onde
escorrega pelas vértebras, regurgitando carícias doloridas movidas à
energia limpa; seu grito (inaudível da superfície da metrópole porque
vestida em seu casaco isolante de asfalto) é algo entre um silvo de
fábrica e um estrondo de corrediça sem graxa; brinca com esferas e
alcachofras de minério, caça as próprias plumas de poliuretano; o
looping do réptil mordendo a própria cauda, ou a cabine bicéfala do
maquinista siamês, habitando, simultâneo, dois postos de comando,
colocada em rota da colisão consigo mesma (entretanto suspensa,
sempre, porque apenas em potência); monstro que persegue eternamente
(para alcançá-la jamais/ nunca chegar lá) sempre a luz adiante, no fim
do único túnel.


METRÔuroboros**

for Songül Boyraz e Peter Höll***


by any chance at all, would Jean Tinguely have built, from an Oroboro,

a robot (or myth), the perpetual motion, an uninterruptible hybrid?

the indestructible rail tracks, over which margins, sedimented with

clay (feldspar and bentonite in fine granulometry) lies automatically
the long lasting seclusion of this creature, which if arisen
from some occult literature, now undergoes a retrofit in its sign,
becomes a hybrid between the Underground and the myth: the Serpent-Train;
from Quetzalcóatl to the serpent -shaped canoe, from Equidna to Unktehila,
a rare specimen of chimera, of which any other similar beings would be
exactly the very same specimen (vitreous skin and stainless steel
scales, there exists the Wagons Dragon); over the millennia, it
acquired a curious learning (when it became a disciple of a mercury
chameleon), a strange armouring, capable of concealing its appearance,
making it indistinguishable from a complete element of the most modern
electric train; and just as Jonas inhabited the abdomen of a marine
mammal, its stomachs, full of people (living inside them terrible
adventures between the very need for public transport and an human
epic saga); its torsos, interlocked by halters, apparently metallic,
resemble buses of an underground convoy; in the feeding habit of the
greedy creature, notorious for its hunger, fit all (anonymous) workers
commuting at rush hour; its continuous abdomen bristles (the jaws in
its belly) over the intimate rails, on which it slides through
vertebras, regurgitating painful fondling powered by clean energy; its
cry (inaudible from the metropolis surface due to the asphalt coat it
wears), is something between a plant whistle and the blare of a
greaseless side slide; it plays with spheres and ore artichokes,
chases its own plumes of polyurethane; the loop of the reptile biting
its own tail or the bicephalic cabin of the Siamese driver, in
collision course with itself (nevertheless, every time rendered
ineffective, because it is only an occurrence in potential), indwelling
simultaneously two steering positions; monster that eternally pursues
a never-ending bright light, the same spot ahead (and at no time
reaches it/ never gets there) at the end of the lonely tunnel


 
**[tradução de Clarisse Cardoso]
*** [criadores da instalação "Oroboro"
<http://www.songuelboyraz.com/o_ouroboro.htm>