terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

CINEMA E LINGUAGEM

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha


 A mostra Cinema e Linguagem continua nesta terça-feira (dia 28 de fevereiro), às 18h30, na Casa da Cultura (localizada no centro de Teresina, próximo à praça Saraiva). Desta vez, será contemplado o cinema inventivo de Glauber Rocha. O cineasta baiano é considerado, pela maioria dos nossos críticos e intelectuais, um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Desde muito cedo se envolveu com a política e com as artes em geral, tornando-se um importante movimentador cultural do país.

Glauber Rocha se negou a copiar o cinema europeu, como muitos de nossos cineastas o fizeram em sua época. Dessa forma, ele se propôs a criar uma estética inovadora e uma visão crítica de nossa realidade social e política. Sua linguagem fílmica, avessa aos padrões da decupagem clássica, é repleta de experimentalismos e reveladora das contradições do universo latino-americano. Deus e o Diabo na terra do sol, filme lançado no ano de 1964 e indicado à Palma de Ouro no “Festival de Cannes”, é um marco do “Cinema Novo”. Além disso, é uma das principais realizações cinematográficas do diretor baiano.

Aguardamos sua presença no universo glauber-rochiano!



DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1963, Glauber Rocha) 
DIA: 28 DE FEVEREIRO DE 2012
HORÁRIO: 18h30
LOCAL: CASA DA CULTURA (PRÓXIMO À PRAÇA SARAIVA)

ENTRADA FRANCA
CINE-DEBATE APÓS A EXIBIÇÃO

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Alfred Tennyson

Home they brought her warrior dead
[Alfred Tennyson]

Home they brought her warrior dead:
She nor swoon’d, nor utter’d cry:
All her maidens, watching, said,
“She must weep or she’ will die.”

Then they praised him, soft and low,
Call’d him worthy to be loved,
Truest friend and noblest foe;
Yet she neither spoke nor moved.

Stole a maiden from her place,
Lightly to the warrior stept,
Took the face-cloth from the face;
Yet she neither moved nor swept.

Rose a nurse of ninety years,
Set his child upon her knee
Like summer tempest came her tears –
“Sweet my child, live for thee.”


* * *

Devolveram-lhe seu guerreiro morto:
[traduzido por Adriano Lobão Aragão]

Devolveram-lhe seu guerreiro morto:
Ela, porém, não desmaia nem chora:
E todas as damas velam em coro,
“Precisa chorar ou estará morta.”

Depois teciam discreto elogio,
Dizendo-lhe digno de ser amado,
Amigo sincero, nobre inimigo;
Mas dela, gesto ausente, silente o lábio.

Deixa, então, uma donzela seu posto,
E do guerreiro inerte, levemente,
Retira o fúnebre véu de seu rosto;
Mas dela, silente o lábio, o pranto ausente.

Rose, uma criada de longeva idade,
Sobre os joelhos seu filho descansa –
Vêm lágrimas em árdua tempestade
“Viverei para ti, minha doce criança.”

domingo, 26 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Elisa Biagini, poesia e tradução


Ao longo do mês de janeiro, iniciei uma série de traduções de poemas da escritora italiana Elisa Biagini, a ser publicada em breve na revista eletrônica dEsEnrEdoS. Elisa mora em Florença, Itália, após uma longa temporada nos EUA. Autora de seis livros de poesia, sua obra já foi traduzida para vários idiomas e publicada em diversos jornais e revistas na Itália e em outros países. Também atua como tradutora e artista visual. Seu trabalho pode ser acompanhado no site: www.elisabiagini.it. Conversando com a autora, por e-mail, é óbvio que poesia e tradução foram os temas recorrentes, conforme apresentamos a seguir.   


Como teve início o seu envolvimento com a poesia?
Comecei a escrever poesia quando eu tinha 12 anos... Nunca pensei em narrativa: o instinto me levou subitamente a esta forma de expressão mais concisa e intensa. Eu tive um forte desejo de "dar um sentido" a tudo que me circundava, de compreender. Por um tempo, escrevi "copiando" Eugenio Montale, Sylvia Plath e R. M. Rilke, e então eu finalmente encontrei minha voz, com cerca de 20 anos.

E como você definiria a poética de Elisa Biagini?
Espero que: densa e intensa, necessária.

A poesia é feita de “inspiração” ou “transpiração”? No Brasil, essas expressões são muito utilizadas em relação ao trabalho com a poesia.
Diria que “inspiro” realidade e “expiro” poesia.

Após morar alguns anos nos Estados Unidos, como essa experiência interferiu em sua poesia?
Foi muito importante porque eu pude conhecer o trabalho de muitos poetas talentosos (que eu em parte traduzi). Comecei a escrever e confrontar-me em inglês, e tive a oportunidade de mergulhar na vida cultural de Nova York. Tudo isso permitiu que minha poesia crescesse muito, nos temas e na forma.
  
Discute-se muito acerca dos dilemas da tradução, sobretudo em relação ao texto poético. Em sua opinião, a poesia é traduzível?
Não há uma resposta para essa pergunta: fazer uma tradução que seja precisa, correta, que respeite a musicalidade da língua e suas nuances é impossível (ou pelo menos muito raro, e também depende de que língua a que língua se proceda). Porém, deve-se tentar sempre, porque a poesia deve ser compartilhada tanto quanto possível e então, se possível, tentar reproduzi-la em sua própria língua, pelo menos no conteúdo. Pessoalmente, prefiro as versões que se aderem o máximo possível ao original, sem muita “inventividade” da parte do tradutor.    

Então, na tradução de seus poemas, incomodaria o desenvolvimento de uma versão guiada por uma “transcriação” do tradutor?
Sendo traduzida, eu tento ser compreensiva com o trabalho do meu tradutor e ajudar tanto quanto possível. Naturalmente, depende também do idioma-alvo... o quanto o conheço e o quanto posso segui-lo... Mas sou sempre grata quando alguém quer traduzir meu trabalho em sua própria língua. Entretanto, é verdade que traduzir é, em parte, reescrever, com todos os riscos que se seguem.

Em relação à poesia, como você avalia o mercado editorial italiano?
Na Itália, temos poucas editoras de poesia: as editoras dizem tanto que “poesia não vende”, então por que fazer um esforço? Sabemos que isso não é verdade, porque quando um autor faz um bom trabalho, sempre há resultados. Nesta era de progressiva barbárie, há cada vez menos atenção à cultura... muito menos à poesia!

Acredito que vivemos uma situação parecida no Brasil. Enquanto houver poesia, haverá esperança?
Eu diria que sim... se entendermos a poesia como uma forma de expressão que faz perguntas e não dá respostas, que nos ajuda a refletir melhor e a dar um sentido ao mundo.   



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 23 de fevereiro de 2012]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

1950, Silverstone

1950silverstone.blogspot.com


Caros amigos, além do Ágora da Taba, do Transmission, do Árdua Lira, do Mais dEsEnrEdoS e outros escondidos por aí, apresento-lhes meu mais novo blog (por enquanto), 1950, Silverstone, dedicado a uma visão bem-humorada (será mesmo?) da Fórmula 1. Inté.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da gênese de Beira rio beira vida

[Halan Silva]


à memória do professor Benedito Nunes (1929-2011)




Tenho diante dos olhos uma brochura datada de 1965. É a primeira edição de Beira rio beira vida (Edições o Cruzeiro), do romancista piauiense Assis Brasil que, no dia 18 de fevereiro de 2012, irá completar oitenta anos de vida. A capa traz a imagem de um porto com um círculo amarelo que me lembra o sol de Parnaíba.  O tempo cronológico possibilita-me viajar em direção ao passado e especular a gênese desse romance singular na literatura brasileira. A tiragem de dez mil exemplares aponta para o sucesso de Assis Brasil que, em 1964, arrebatou com Beira rio beira vida o prêmio literário mais importante do país - o Prêmio Nacional Walmap (Waldomiro Magalhães Pinto).

Olho fixamente para a brochura de Beira rio beira vida. Súbito, ela me transporta ao universo do Nouveau Roman, movimento literário francês dos anos 1953-1970, que muitos ainda confundem com um movimento de vanguarda. Em suma, o que o Nouveau Roman propõe é a desconstrução dos elementos estruturais do romance tradicional: a trama, o personagem e o lugar do narrador. Na linha de frente do Nouveau Roman, atuaram Alain Robbe-Grillet, Nathalie Sarraute, Claude Simon, Michel Butor e Marguerite Duras, que se enquadram no que se pode chamar de autor-crítico e de crítico-autor. Ao escrever um romance, esses escritores punham em prática concepções individuais acerca da estética do romance.  Assis Brasil, que é um autor-crítico e crítico-autor, ao escrever Beira rio beira vida, sem negar as conquistas do romance moderno, encontradas, por exemplo, em autores como James Joyce, William Faulkner e Franz Kafka, incorporou elementos estéticos peculiares ao Nouveau Roman. A leitura do romance La modificacion (Éditions de Minuit, 1957) de Michel Butor (1926), filosófico que migrou para a literatura (poesia/crítica/romance), foi determinante durante o processo de feitura de Beira rio beira vida. La modificacion é um romance desprovido de trama, escrito na segunda pessoa do plural Vous. Ação resume-se na viagem de Léon Delmon, que toma um trem em Paris e segue para Roma, onde pretende se encontrar com sua amante. Na viagem, que dura 21h, ele dialoga com passageiros, pensa na família e muda de plano. Nesse romance realista, há somente um personagem, dado que a esposa, os filhos e a amante só existem no pensamento de Léon Delmon.  Em La modificacion, o autor torna o leitor participativo. Deliberadamente, Michel Butor faz com que o leitor assuma o lugar do autor no ato da leitura.

Essa brochura amarelada pela pátina do tempo suscita-me uma pergunta inevitável: há uma trama em Beira rio beira vida? Observo o narrador e os dois personagens-narradores, Luíza e Mundoca, eles mantêm um diálogo permanente (só interrompido pelo narrador) e me põem diante de uma ação que afasta para longe a possibilidade de uma trama (na acepção tradicional do termo). Luíza e Mundoca recuam no tempo, deparam-se com o passado marcado pela prostituição e pela marginalização. Na palavra dos narradores não se percebe onisciência. À sua maneira, cada um dos três narradores conta parte da ação (é ponto de vista na narração). No que tange ao tempo, penso estar diante de um romance anacrônico; pois não há início, apenas o começo da ação, que se desenvolve num ponto avançado da narrativa. O romance não termina, retorna ao começo da ação (a narrativa é circular). Em Beira rio beira vida, contrastam duas modalidades de tempo: o tempo cósmico, perceptível no movimento exterior da natureza (o subir e o baixar das águas do Parnaíba) e o tempo psicológico, configurado na experiência da sucessão dos estados internos dos personagens-narradores Luíza e Mundoca. O tempo cósmico é prospectivo e irreversível, não permite movimento de recuo em direção ao passado. Por sua vez, o tempo psicológico é sempre reversível, permite recuos em direção ao passado ou avanços em direção ao futuro. Em Beira rio beira vida, há uma unidade de lugar. O cenário ou o teatro do mundo é a cidade de Parnaíba dos anos quarenta, que os narradores, como se fossem demiurgos, reconstroem na memória. Como em La modificacion, Beira rio beira vida dispõe de poucos personagens, basicamente dois: Luíza e Mundoca. Os personagens Cremilda, Jessé, Nuno e Darcy Mavinier, por exemplo, só existem na memória de Luíza e de Mundoca.  O personagem Darcy Mavinier, que fora levado do mundo real para ficção, insere Beira rio beira vida no Roman à Clef. Ao escolher o tema da rejeição social, ao romper com a onisciência e a centralidade do narrador, ao optar pela ação em prejuízo da trama, ao abolir o traço psicológico dos personagens, ao assumir o tempo anacrônico e a unidade do lugar, Assis Brasil renuncia aos cânones do romance tradicional e assume um lugar de destaque no realismo da contemporaneidade, que muitos pensadores preferem chamar de Pós-Modernidade.  




domingo, 12 de fevereiro de 2012

as capas os discos


Jornal O Dia, Teresina, 12 de fevereiro de 2012. Caderno Metrópole, coluna Intacta Retina.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

há ainda este tempo

[adriano lobão aragão]



há ainda este tempo
que nada deixa amadurecer

há ainda esta tarde depois dos dias

e esta esfinge escavando esquecidos enigmas
como se os refizesse reviver

há ainda este tempo
de se viver somente assim
a repetir os gestos
em que costuram em si
o fim do início e o início do fim

esta mesma face esquerda
doada em dízimos às dezenas

há ainda estes dias



[in as cinzas as palavras]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Insólito, de Demetrios Galvão


foto: Maurício Pokemon

Poeta e historiador nascido em Teresina, Demetrios Galvão lançou no final de 2011 sua mais recente obra, o livro de poemas Insólito. É sobre sua poesia insólita e outras contravenções que segue a conversa.


Adriano Lobão Aragão
- Por que Insólito?       

Demetrios Galvão - Gosto da palavra insólito primeiramente por sua sonoridade – breve, encorpada; segundo, porque a própria palavra realiza o seu significado e produz uma imagem bastante interessante, além do que é uma palavra pouco usada, o que lhe dá um ar vigoroso e ao mesmo tempo misterioso; terceiro, pela coincidência de já existir no conjunto dos poemas do livro um texto intitulado “insólito”, que funciona como se fosse um verbete, é um poema que começa assim “insólito: carregar cemitérios e ferrugens nos bolsos...”. Dá a impressão que o poema constrói o significado da palavra. Assim, é como se o poema produzisse novos sentidos para a palavra “insólito”, mas ao mesmo tempo, dialogando com o significado dela que quer dizer, na acepção do dicionário, “o incomum, o não habitual, o estranho”; por último, que o significado de “insólito” diz muito sobre a minha construção poética – a produção de imagens não habituais, estranhas. Pois me debruço sobre a criação de imagens-poéticas que foge do corriqueiro em um diálogo direto com as estratégias surrealistas de transfiguração do real. Então, faço o estranho virar a experiência do estranhamento, essa é uma das propostas do livro, como bem aponta o poeta Rubervam Du Nascimento na apresentação do livro.

Adriano - Trata-se de uma busca pela desautomatização da palavra?

Demetrios - Sei bem que os textos criam imagens e que as imagens também produzem textos. Mas no meu caso as imagens ocupam um lugar central e o meu esforço é em produzir imagens não habituais, através de um trabalho de deslocamento, de tirar as coisas que comumente tem lugar certo, estabelecido na prateleira cartesiana – nomeado, classificado, selecionado,... Dito isso, o estranhamento que procuro criar resulta de um trabalho de curto-circuito na linguagem – junção de mundos distantes para a feitura de um outro. Tento mobilizar a linguagem não para a realização do óbvio ou do “realista”, isso não me interessa. Mas pelo contrário, para transfigurar essa “realidade” e inventar  outros mundos através da linguagem.

Adriano - Em que aspectos a poesia de Insólito se diferencia de Cavalo de Tróia (2001) e Fractais Semióticos (2005)?

Demetrios - Cavalo de Tróia é um livro em que a mensagem é mais forte que a linguagem em si, no caso, a poesia era só o meio. A escrita, na época, estava engajada com questões sociais, protestos, movimento Anarco-punk e poesia marginal. Esse foi um livro completamente artesanal, que eu fazia em casa com a ajuda do meu irmão e vendia em shows de rock, na universidade e em encontros de estudantes. Fractais Semióticos é um diálogo muito direto com os escritos beats, aquelas coisas de viajar e escrever sobre a estrada etc. Nesse livro, começa a existir uma preocupação com a linguagem. No período em que escrevi os poemas de Fractais Semióticos (2001 – 2002), conheci alguns poetas de Fortaleza e consolidei para mim, a ideia de ser poeta. Esse é um livro que tem poemas que vou levar para o resto da vida, pois há uma relação forte de poesia e experiência – experimentação. Insólito é algo que considero mais denso. Nesse momento, me preocupo bem mais com a linguagem e com as estratégias de criação, e o meu diálogo se torna mais próximo com o surrealismo. Insólito é um investimento poético-estético planejado. Mas em todos os meus livros, estou muito implicado nos textos, a primeira pessoa é presente – há um sujeito produzindo ações, há um envolvimento no campo das emoções. O percurso que se desenha é de uma maior compreensão do papel da linguagem, articulando intensidade e o fluxo espontâneo.

Adriano - Então, poesia e vida são indissociáveis?
 
Demetrios
- Na minha produção, poesia e vida estão intimamente relacionadas. Procuro articular a experiência (vida) e o experimento (linguagem), a intensidade das ações e do desejo e a densidade construída na/pela linguagem. É como digo em um de meus poemas: “é preciso alimentar a loucura que carregamos na mochila”, e esse alimento é o campo do sensível a que estou inserido: são as imagens cotidianas que me atravessam, são as linguagens artísticas que consumo, é a minha companheira, são os meus gatos, os peixes, o cheiro do café – logo as questões que envolvem vida e linguagem criam um campo de comunicação e ressonâncias que resultam em uma costura íntima entre vida e poesia – poesia/viva. Interessa-me essa contaminação ente os campos, até porque são indissociáveis. Nessa primeira década dos 2000 ficou muito em evidência um modo de fazer poesia em que o sujeito e o sentimento foram retirados do texto, resultando em um artefato insípido – terrivelmente limpo, sem rugas, sem ruídos, na qual a única marca humana é a própria linguagem. Não me atrai essa poesia em que a linguagem se torna um fim em si mesmo, onde o texto poético parece mais uma charada sem resposta – hermética demais.
 
Adriano - Há diversas sinestesias, assim como referências musicais e até mesmo astrológicas. Como esses aspectos influenciam vida e poesia?

Demetrios - Interessante como tudo que está à nossa volta se torna material para poesia. As sinestesias que você menciona são inevitáveis em meus poemas, pois o que me atravessa e interfere na minha percepção sensorial termina ocupando um lugar no momento em que escrevo. As cores, os sabores e os cheiros são mencionados constantemente, como por exemplo: “sinto o cheiro de teus movimentos coloridos violando minhas brânquias”, ou então “tua alma de planta ornamental tem gosto azulado”. Mas as experiências sensoriais são (re)produzidas poeticamente de forma atravessada, deslocando suas correspondências originais. Com relação às referências citadas dentro dos meus textos, elas são muitas e diversas principalmente no que diz respeito à música. Sou uma pessoa que se movimenta pela música, por trilhas sonoras e, desse modo, a música e a atitude de algumas bandas e estilos musicais influenciam muito minha escrita como, por exemplo: The Doors, Velvet Underground, Radiohead, Elliot Smith, Tom Zé, Afrossambas, Nação Zumbi, percussão de terreiro e por aí vai. Escrevo na maioria das vezes, mas nem sempre, no ritmo do rock e imaginando os quadros de Chagal, as fotografias de Brassaï, as pinturas de Basquiat e automaticamente entremeando com os acontecimentos do meu cotidiano e da minha vida. Utilizo as referências da música, da pintura e do cinema para compor uma teia semântica em que uma área empresta sentido a outra e assim embaralho as coisas produzindo imagens insólitas – “como peixes cegos vagamos por cidades esquecidas e praças ensolaradas que Pollock desmantelava com seu pincel de canivetes”. Certa vez, o poeta Roberto Piva disse em uma entrevista que “uma poesia sem música, sem jogo de cintura, é uma poesia rígida”, e ele tem toda razão. Nessa dança de salão ou de terreiro é o som que mistura os elementos da alquimia do verbo.

Adriano - Como está sendo a repercussão do Insólito?

Demetrios - Ainda é cedo para avaliar, porque o lançamento ainda está recente. As ressonâncias de um livro de poemas demoram a acontecer. Penso que é no decorrer de 2012 que Insólito vai criar seus caminhos. No início de fevereiro vou fazer uns 2 lançamentos em Fortaleza e depois em Pedro II – com o tempo ele vai se espalhar e ganhar os seus leitores. Mas de todo modo, tenho ouvido coisas boas e espero que as pessoas gostem do livro.

Adriano - Você faz parte do grupo literário Academia Onírica. Como se dá esse convívio artístico em relação à sua produção literária?
 

Demetrios - Tem sido muito importante o exercício de trabalhar em coletivo, pois a Academia Onírica é formada por 6 pessoas que articulam os eventos e os demais trabalhos (revista, cd, zine), contudo têm mais pessoas envolvidas nesse projeto (músicos, fotógrafos, artistas plásticos, videomakers, escritores) e o legal é que o debate em torno das linguagens artísticas é bastante amplo. Essa teia que a AO vem construíndo desde janeiro de 2010 tem proporcionado para todos nós uma maior circulação e visibilidade de nossos trabalhos coletivos e individuais. Interessante que depois que formamos o grupo, todos foram mais instigados a escrever e logo a produção de aumentou, bem como o nosso diálogo ficou mais próximo, passamos a contribuir um com o outro de modo íntimo. Às vezes escrevo um poema e mostro para o Thiago E ou o Valadares e eles dão alguma ideia e as coisas seguem. O contrário também acontece. Alguns detalhes de Insólito foram pensados dentro desse contexto e até mesmo o lançamento, que aconteceu com um recital e a participação dos amigos da AO.