terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os vivos e os mortos

[Halan Silva]


 
Talvez o melhor conto de Os dublinenses (Dubliners-1914), do escritor irlandês James Joyce (1882-1941), seja Os mortos. O cineasta John Huston (1906-1987), já bastante debilitado, o transformou em filme: The dead (1987), que em português recebeu o título Os vivos e os mortos. Como no artigo anterior, volto ao universo literário de James Joyce para tratar de um assunto alheio à temática de Os dublinenses - a situação atual da literatura piauiense.

Em 1952, ano do centenário de Teresina, o poeta H. Dobal (1927-2008) escreveu um livro de crônicas denominado Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina. Com exceção do autor, ninguém àquela época se interessou pela obra. Após peregrinar por diversos Estados brasileiros, pela América do Norte e por alguns paises do continente europeu, o poeta retornou para Teresina. Na bagagem, trouxe os originais do Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina, que guardou consigo durante cinqüenta anos. De posse desses originais, o professor Cineas Santos (1948), após acatar uma sugestão do cartunista Albert Piauí, os editou em folhetim no Jornal da Manhã (graças ao empenho incondicional do jornalista Kenard Kruel). Finalmente, em 1992, com o apoio do prefeito de Teresina, o ex-deputado Heráclito de Sousa Fortes (1950), o professor Cineas Santos conseguiu colocar o Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina no pacote editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

A sociedade é devedora insolvente dos escritores piauienses. O Estado e os Municípios, esses com raríssimas exceções, não adquirem livros de nossos escritores para o acervo das bibliotecas ou para as escolas da rede pública. As escolas privadas não costumam adotar obras de autores locais e as livrarias, salvo a Livraria Nova Aliança, mantêm sérias restrições para comercializá-las. No que concerne às edições, lamento informar que o Projeto Petrônio Portella, apesar do que esse nome representa, acabou. A Fundação Cultural Monsenhor Chaves anda claudicando, já não edita como nos tempos do professor Raimundo Wall Ferraz (1932-1995). No setor privado, após o fim da Editora Corisco, da morte do professor Marcílio Flávio Rangel de Farias (1956-2006) e da saída do professor R. N Monteiro de Santana (1925), as edições sofreram um baque. Recentemente apareceu por aqui um livreiro cearense, de Juazeiro do Norte, Leonardo Dias da Silva que, incentivado pelo romancista Assis Brasil (1930), fez um esforço tremendo e editou uma porção de escritores piauienses contemporâneos (além de tratar com respeito os nossos escritores). A ideia dele era levar os autores piauienses às escolas, mas elas se mostraram refratárias, apesar do currículo ser flexível. Tristeza: ele confessou que vai encerrar sua atividade de editor. A Academia Piauiense de Letras parece estar mergulhada num sono letárgico. Não publica a contento e não demonstra ter uma política definida em favor de nossa literatura. O conselho Estadual de Cultura, nesse quesito, especificamente, parece viver nos melhores dias de marasmo. As universidades, UFPI e UESPI, há anos estudam dois ou três autores e nada mais fazem. Nossos parlamentares são ocupados demais para perder tempo com cultura e educação. Por fim, como se não bastasse, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) desferiu o tiro de misericórdia na literatura piauiense, que foi banida do “vestibular”. Por outro lado, o ENEM deu um basta nos famigerados resumos que instrumentalizavam, banalizavam, negavam aos estudantes incautos a remota possibilidade conhecer de perto a literatura piauiense. Desamparados, os exploradores de resumos passaram a explorar os mortos publicando obras que caíram no domínio público, menos mal.

No artigo anterior afirmei com pertinácia que o requisito primeiro ou último para ser um autor bem sucedido no Piauí era ser aclamado e/ou premiado nos grandes círculos literários do país. Desfaço em parte a assertiva, pois um dos nossos melhores contistas contemporâneos resta ignorado no Piauí (a situação está ficando pior). Refiro-me ao escritor parnaibano Carlos Alberto Castelo Branco (1944), autor de Essas abomináveis criaturas de Deus (1989); de A máquina de pensar bonito, contra o medo que o medo faz (1986), prêmio Instituto Nacional do Livro, de 1984, para literatura infantil; de O pai que virava bicho (1986), prêmio Monteiro Lobato, 1985, da Academia Brasileira de Letras. Portanto, o pior lugar para os escritores piauienses é o Piauí.       

domingo, 29 de janeiro de 2012

Maria na janela, foto de Adriano Lobão Aragão, Fortaleza, 2009

sábado, 28 de janeiro de 2012

Adriano Lobão: a poética da renovação

[por Francisco Miguel de Moura]
publicado no jornal Meio-Norte, Teresina, 04 de novembro de 2011




 
Adriano Lobão Aragão, jovem de ar tímido e ensimesmado, é um poeta talentoso e dele muito se espera. Certamente, dele muito se ouvirá falar na literatura. No momento, refiro-me ao livro recente, As Cinzas as Palavras, Edições Amálgama, Teresina, 2009, onde prossegue na sua linha de aprofundamento nos clássicos - antigos e modernos – e o faz com uma poética crítica e com sabor de atualidade. Conta com outra roupagem, aquilo de que a poesia da modernidade mais gosta: a intertextualidade e a intratextualidade, traduzindo seu mundo em poesia, com discursos e sensações perpassados por outros. 

Cabe aqui uma digressão: Após o advento da obra póstuma Cours de Linguistique Generale, de Ferdinad de Saussurre (1857-1913), resultante de cursos dados aos seus alunos A. Ridlinger, Charles Bally e Albert Sechehaye, a Lingüística torna-se o estudo científico da linguagem, quando é feita a separação entre língua e fala, sendo esta o ato individual e, portanto, sujeito a fatores externos, e aquela, um sistema de valores que se opõem uns aos outros e que está depositado como produto social na mente de cada falante de uma comunidade, com homogeneidade. Mas Lingüística e Gramática não brigam, convivem no mesmo escritor, com sabedoria como faz Adriano Lobão.

O estabelecimento da Lingüística é o começo da modernidade poética, os poetas de então ganham novas formas de libertação, não mais sendo obrigados a simplesmente repetir metáforas e metonímias. O uso de tudo o que a literatura imprimiu até então enriqueceu o consciente e o inconsciente coletivos, para as variações mais estranhas, às vezes chegando ao obscurecimento do discurso. Derivadas da ciência lingüística surgem a intertextualidade e a intratextualidade, ambas já usadas nos discursos clássicos, porém de forma disfarçada.

Na poética de Adriano Lobão não faltam intertextualidades e intratextualidades. A leitura do poema Uns versos (pg.15), tornam suficientemente claras minhas afirmações: “entre linha limpa descanso sutil não se desdobra / claro enigma em superfície inerte paz abandonada / o inexato revelar de obscuras possibilidades” (e segue em todo o poema). Isto já era comum, no Brasil, a partir da Geração de 45, de onde vem H. Dobal. Mas, nas suas últimas obras, Dobal parte para uma temática e um texto mais natural, aproximado da terra e do pensamento contemporâneo de satisfação imediata. O poema Há ainda este tempo, que começa o livro de Adriano Lobão, é muito característico do discurso da citada geração e da geração do Caetano e Torquato Neto, por exemplo.

Encontramos, assim, as causas da proximidade do signo do historicismo, com outro, o da modernidade, através de seu discurso interpolado e enfático nas metáforas com metonímias, nas sinestesias com cenestesias.  Tudo isto já existia na poética barroca, como vemos no poema As odes os signos, de Adriano Lobão, o que não havia era a sociedade moderna, agora entrelaçando toda a literatura:  “estas odes que aqui se erguem como estranhos obeliscos / emanam como desencanto louvando o próprio canto / palavra perdida lançada em busca de alheio signo// este verbo disperso em distante campo de poeira / areia estéril onde não canta tágide nem musa / estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte // nem alegre lembrança vestida de esquecidas ânsias / nem rústico altar profano onde sem música se dança // aquém dos verbos de outrora além dos versos de amanhã // decantados em prosa elegia e hino assim recordam / estas odes aqui erguidas em busca de signo alheio”.

A pequena diversidade na matéria/conteúdo dos seus livros vai por conta de um estilo maturado na substância história principalmente.  Poemas bem construídos, com cheiro e sabor dos clássicos, baseados em altas leituras. O autor é professor de literatura, adivinha-se: - basta que analisemos o mundo de antíteses e paráfrases, referências e alusões, sem falar na tônica inversões/invenções... Por tudo isto e por muito que não é possível ser dito aqui, Adriano Lobão Aragão é um dos melhores poetas da geração Amálgama, deste século XXI, um milenista como diria Herculano Moraes.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Retrato de um Artista quando Jovem

[Halan Silva]



Reporto-me ao título de uma obra de James Joyce (1882-1941), A portrait of the artist as a young man (Retrato de um artista quando jovem), para falar do romancista piauiense O. G Rego de Carvalho (1930) que, em 1967, envolveu-se numa acalorada polêmica literária veiculada em dois importantes órgãos da imprensa local, os jornais O Dia e O Piauhy, à época sob a responsabilidade de Leão Monteiro e de José Camilo da Silveira Filho, respectivamente.
 
A polêmica teve início quando O. G. Rego de Carvalho, sabendo que Dom Avelar Brandão Vilela (1912-1986) pretendia criar uma faculdade de filosofia em Teresina, publicou em março de 1967, no jornal O Dia, o artigo Convite à humildade. Nesse artigo, defendeu a ideia de que somente metade das vagas de professor da faculdade de filosofia deveria ser preenchida por piauienses. Necessariamente, a outra metade deveria ser ocupada por professores oriundos da região sudeste. Para O. G. Rego de Carvalho, deveria prevalecer aqui algo semelhante ao que prevaleceu durante a fundação da Universidade de São Paulo (USP) em 1934, ou seja, a contratação de renomados professores estrangeiros, como foi o caso do etnólogo Claude Lévi-Strauss (1902-1985), do historiador Fernand Braudel (1902-1985), do geógrafo Pierre Monbeig (1908-1987), do filósofo Jean Maugüé (1904-1985) e do sociólogo Roger Bastide (1898-1974), todos integrantes da missão francesa que aportou no Brasil em 1935. Do outro lado da querela, mormente, sob pseudônimo (Vespasiano, Ayres, Conselheiro Acácio), respondiam aos artigos de O. G Rego de Carvalho importantes intelectuais da cidade: Clemente Honório Parentes Fortes, M. Paulo Nunes e Valdemar Sandes (Carlos Eugênio Porto era parte na polêmica, mas optou por não responder às críticas de O. G. Rego de Carvalho). Não tardou para que a polêmica perdesse o foco, as respostas a O. G. Rego de Carvalho passaram a não mais versar sobre questões ligadas à fundação da faculdade de filosofia, mas sobre a qualidade da obra de estreia de O. G. Rego de Carvalho na literatura, o romance Ulisses entre o amor e a morte (1953) que, em 1967, achava-se em sua segunda edição[1]. Embora tenha sido bem recepcionado por críticos e escritores consagrados, no Piauí o romance Ulisses entre o amor e a morte foi duramente atacado. No Brasil, a introdução de novas mentalidades nos meios acadêmicos parece algo quase sempre tardio e dificultoso. Em seu Antes del fim, Ernesto Sábato noticia que o filósofo Schiller (1759-1805) e o astrônomo Hartmann (1882-1959) lecionaram numa das mais tradicionais universidades da Argentina, na Universidad de La Plata.
 
A polêmica alcançou seu termo em outubro de 1967, quando O.G. Rego de Carvalho, no artigo Não Ceder, Lutar sempre, despede-se de seus leitores e anuncia sua partida para a cidade do Rio de Janeiro. A vida de O. G. Rego de Carvalho foi marcada por dois fatores, a precocidade e a atuação. Entre 1949 e 1950, na casa dos vinte anos, ao lado de H. Dobal (1927-2008) e M. Paulo Nunes (1925), dirigiu o Caderno de letras meridiano, que era o reflexo de uma onda de publicações literárias encabeçadas por jovens escritores. Em depoimento, o poeta Ferreira Gullar (1930) declarou-me que, em São Luís do Maranhão, nesse mesmo período, ele e Lago Burnett (1929-1995), lançaram três revistas: Saci (1948), Letras da Província (1949) e Afluente (1950) e, que, paralelamente, José Sarney (1930) e Bandeira Tribuzzi (1927-1977) fizeram uma revista literária intitulada A Ilha. Quando saiu o terceiro e último número do Caderno de letras meridiano, em 1950, Lago Burnett veio a Teresina e manteve um ligeiro contato com os diretores do Caderno de letras meridiano. No Rio de Janeiro, O. G. Rego de Carvalho deu curso à sua carreira literária. Publicou suas obras num dos mais importantes registros editoriais do país, a editora Civilização Brasileira, e conquistou, com o romance Somos todos inocentes (1972), obra escrita deliberadamente para calar seus detratores, que afirmavam que O. G. Rego de Carvalho só escrevia sobre si mesmo, o cobiçado prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras[2]. De volta ao Piauí, O. G. Rego de Carvalho, nos anos setenta, envolveu-se em mais uma polêmica literária, desta vez com intelectuais da Academia Piauiense de Letras (a questão versava sobre a existência ou a não existência de uma literatura piauiense). Enquanto a saúde permitiu, O. G. Rego de Carvalho revisou e cuidou pessoalmente de sua obra literária. Durante anos, sem impor nenhum ônus a seus leitores, distribuiu seus livros na intenção de difundi-los o máximo possível, uma vez que as escolas (públicas e privadas) e a Universidade Federal do Piauí não valorizavam satisfatoriamente os autores piauienses.
 
Diversamente do que costuma acontecer no Piauí, em face da boa receptividade de que dispõem, os escritores gaúchos não são constrangidos a deixar os pagos do Rio Grande do Sul ou a ganhar prêmios literários excepcionais. Confirma o que eu digo a trajetória literária de Érico Veríssimo (1905-1975), de Josué Guimarães (1921-1995), de Mário Quintana (1906-1994), de Dyonélio Machado (1895-1985), de Luís Fernando Veríssimo (1936), de Augusto Meyer (1902-1970), de Raul Bopp (1898-1984), de Lila Ripoll (1905-1967), de Cyro Martins (1908-1995), de Luís Antônio de Assis Brasil (1945), de Moacyr Scliar (1937-2011), de Caio Fernando Abreu (1948-1996) e de tantos outros que não convém citar por agora. Não tivessem Da Costa e Silva (1885-1950), O. G. Rego de Carvalho (1930), H. Dobal (1927-2008), Assis Brasil (1930), Carlos Castelo Branco (1920-1993), Francisco Pereira da Silva (1916-1985), Permínio Asfora (1913-2001), Esdras do Nascimento (1934), Mário Faustino (1930-1962), Ávaro Pacheco (1933) e Torquato Neto (1944-1972), a despeito do talento e da tenacidade, ganhado prêmios literários ou sido aclamados nos grandes círculos literários do país, talvez hoje restassem no lugar destinado à maioria dos escritores piauienses - no ostracismo. Portanto, o pior lugar para um escritor piauiense é o Piauí.
 


notas
[1] Ulisses entre o amor e morte foi incluído no volume Amor e morte (1957), edição que foi desautorizada pelo autor.
[2] Os escritores, sobretudo aqueles cuja obra merece ser lida e relida, não fizeram outra coisa que não escrever sobre si mesmo. Para Mário Quintana toda confissão não transfigurada em arte é canalhice.


sábado, 21 de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Grão, de Rogério Newton


[Adriano Lobão Aragão]




O cronista e poeta Rogério Newton, nascido em Oeiras e radicado em Teresina, autor de Ruínas da Memória (crônicas, 1994), Pescadores da Tribo (crônicas, 2001), Último Round (poesia, 2004) e Conversa escrita n'Água (crônicas, 2006), lançou recentemente Grão, seu novo livro de crônicas. A crônica puxou a conversa e a conversa segue adiante.


Por que Grão?
Fiz como nos livros anteriores: peguei uma das crônicas e dei título ao livro. Aprendi isso com os contistas da década de 70. Grão é um nome curtinho, sugestivo, tem um quê minimalista. Isso me agrada, pois ajuda a tornar o texto enxuto. E se a palavra é curta e polissêmica, melhor ainda.  Na verdade, é uma microcrônica. Levá-la para o título do livro é uma forma de me render à concisão.

Quase todos os textos do livro são voltados para o cotidiano, para uma realidade imediata. Entretanto, o texto Grão é justamente o que mais difere dos outros, seja por sua extensão mais reduzida, por sua temática e até mesmo o estilo, que se aproxima bastante do conto minimalista contemporâneo. Como você avalia esse aspecto?
Você tem razão ao aproximá-la do conto minimalista, e acho que isso atesta uma das possibilidades do gênero, que nem sempre fica adstrito ao que comumente se entende por crônica. Agora, a temática não deixa de ser ecológica (e nesse ponto essa crônica não difere de outras do livro), só que de uma perspectiva cósmica, isto é, a Terra vista do espaço, pequenina como um grão de milho. Acho que você captou bem o espírito da coisa: o vínculo direto que a crônica tem com o cotidiano não deve ser uma fronteira intransponível. Mas aí podemos indagar: qual o significado de “cotidiano”? É somente o circunstancial? A Terra completa seu giro todos os dias, dentro do oceano cósmico. Isso não é um fato cotidiano? 

Como está sendo a repercussão do livro?
A melhor repercussão que o livro poderia ter seria sua venda em livrarias e sua recepção pelo leitor e pela crítica. Que eu saiba, só há um livreiro em Teresina que tem apreço pelo autor local: é o Leonardo Dias.  Por isso, só deixei o livro na livraria dele. Entreguei também alguns exemplares ao Espaço Cultural São Francisco, no Mafuá, onde fiz um dos lançamentos. Mas confesso: não sei como distribuí-lo. Bom seria se tivéssemos um profissional que pudesse fazer esse trabalho. Como não conheço nenhum, uso o tradicional sistema amador, levando a obra aos lugares aonde vou. Gosto muito do contato direto com o leitor, de conversar com ele, saber o que ele pensa. Tenho recebido manifestações de pessoas que já me conhecem como cronista. Alguns escritores e leitores sinceros gostam do que escrevo e fazem questão de dizer para mim. Isso me alimenta. O feedback é vital para o escritor.
 
Como você avalia o atual panorama literário praticado no Piauí?
Alguns pontos de partida podem ser úteis para essa avaliação: o que se produz literariamente aqui? Como o escritor e o livro são recepcionados pela sociedade? Que instrumentos o Estado e a sociedade possuem para favorecer a criação literária, a editoração de livros e o acesso à cultura? Há o exercício de uma crítica militante? Falo de Teresina, pois desconheço a realidade nas outras cidades. Não sei exatamente quantos livros e revistas foram publicados em 2011, mas talvez tenham sido suficientes para não haver uma estagnação, como a do teatro, que vive uma situação preocupante. Duas editoras, a Nova Aliança e a Renoir, têm publicado – poucos títulos, é verdade -, mas o fato de existirem simultaneamente é algo inédito em Teresina. Acho positiva a ocorrência periódica do Salão do Livro, com todas as carências que possa ter. O surgimento da revista da Academia Onírica é um sopro de vitalidade. A continuidade da dEsEnrEdoS é também um exemplo de vitalidade e rigor, que considero indispensáveis. O fato de Assis Brasil estar residindo entre nós, participando ativamente da vida literária, é um alento auspicioso. Além de grande escritor, é um exemplo de longevidade criativa que todos nós devemos celebrar. Em relação à participação do Estado, considero-a praticamente nula, e nesse ponto acho que há um retrocesso que já dura uma ou duas décadas. Tenho muita vontade de saber como se dá o ensino de literatura nas escolas, as abordagens usadas e principalmente as consequências desse ensino. Sobre uma crítica militante, acho que nunca a tivemos. Suplementos literários de jornais poderiam ser veículos para expressão da crítica especializada, mas não os há entre nós. O crítico também deveria ser um profissional remunerado para exercer seu trabalho.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ao estudante que teve o olho direito comprometido durante manifestações populares

[Renato Zagrel]


Não é tão fácil saber
quem mais cego ficaria
se um alcaide tropeçasse
nos atos desencontrados
do exercício do poder:
se uma polícia agredindo
o direito a discordar
ou políticos olhando
sem conseguir enxergar
que não se deve furtar
o pleno direito a ver.



janeiro de 2012

Em busca de uma revista

Editor despachou pelos Correios exemplar raro da Nitheroy, de 1836. E, agora, ninguém sabe onde foi parar

JOTABÊ MEDEIROS - O Estado de S.Paulo



O editor Sergio Cohn, da Azougue Editorial (editora carioca fundada em 2001 como extensão da revista literária Azougue), fez em dezembro uma bela descoberta. Localizou no sebo virtual Alfarrabista de Vila Mendonça um exemplar raríssimo da revista Nitheroy, de 1836, que contém o manifesto de Gonçalves de Magalhães que deu origem ao romantismo no Brasil.

(...)

"Infelizmente, os Correios conseguiram extraviar o Sedex em que estava a revista, e esta se perdeu. Como você deve imaginar, os Correios estão lavando as mãos de fazer qualquer busca da encomenda, e um raríssimo e importante documento da literatura brasileira escafedeu-se", lamentou o editor. A reportagem entrou em contato com a Assessoria de Imprensa dos Correios em Brasília, que não conseguiu informar até o fechamento desta edição o que poderia ser feito.

(...)
Leia a reportagem completa no Estadão:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,em-busca-de-uma-revista,824055,0.htm

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A PRIMAVERA EM TERESINA: LUTA ESTUDANTIL, MILÍCIA HOSTIL E A CONSCIÊNCIA DEMOCRÁTICA


"A barricada fecha a rua, mas abre a via."
(Frase pichada nos muros de Paris em Maio de 1968)

  


[Joaquim das Flores]

A luta dos estudantes contra o aumento das passagens em Teresina é uma demonstração aos  homens públicos e aos empresários que Teresina não é mais uma província. A maioria de nossos governantes raciocina como se a velha cidade provinciana de outrora ainda fosse a mesma. Teresina é hoje uma cidade que precisa de grandes viadutos, não de rotatórias improvisadas. Uma cidade que demanda largas vias, semáforos, novas marginais, sinalização para passagem de pedestres em suas principais avenidas (não há uma sequer!).  Talvez por um problema de geração, comodidade ou de percepção da grandeza da cidade, os governantes de hoje não assimilaram esta nova Teresina.

Como sabemos, os empresários que detém a concessão pública das linhas urbanas de ônibus financiam as campanhas dos vereadores e do prefeito. Por isso, a decisão sobre a tarifa a ser cobrada é tomada a portas trancadas. Reúnem-se o prefeito e os empresários, decidem segundo seus interesses particulares, negociam. Trabalhadores, estudantes e usuários em geral não interferem nesta decisão, estão excluídos dela. O prefeito, ao invés de defender o interesse público, advoga em favor dos interesses privados dos empresários, que, afinal, serão sua principal receita de financiamento de campanha. Esta situação não poderá continuar por muito tempo, creio. A consciência democrática não admite decisões unilaterais, sem diálogo. A elite política e empresarial teresinense não assimilou esta nova realidade. O cidadão não aceita mais ser objeto passivo da decisão de uma elite intransigente.

Em verdade, o atual prefeito Elmano Férrer tem avançado em alguns pontos desta questão. Se estivéssemos na época de Sílvio Mendes, cujos familiares eram, e ainda são, donos de empresas de ônibus, certamente, não teríamos integração de linhas, tampouco qualquer outro benefício. Recordo-me que nas eleições para prefeito em 2004, Mendes implementou meia-passagem para todos os usuários em feriados e fins de semana. A "promoção" durou até o dia das eleições. Na manhã seguinte, já eleito, o prefeito a suspendeu.

Sílvio Mendes, como sabemos, prorrogou a concessão das linhas aos seus colegas por mais vinte anos de maneira inconstitucional, à revelia da intervenção do Superior Tribunal Federal com a então ministra Ellen Gracie. Mendes sabia que um processo licitatório com a concorrência de dezenas de empresas que operam com linhas urbanas em todo o Brasil poderia certamente eliminar as empresas locais ou diminuir drasticamente suas escorchantes taxas de lucro. Decidiu então prorrogar ilegalmente a concessão pública sem licitação. Um absurdo autoritário. Mendes era irredutível nesta questão. Não titubeou em rasgar a Constituição para fazer valer os interesses privados de sua família e do cartel de empresários-financiadores de campanha eleitoral.

Os jornais locais têm tachado os estudantes de vândalos. Não por acaso, estes jornais são propriedade do mesmo grupo de empresário e familiares afins. Estaríamos diante de um clã-parental que manipula a informação, a poder municipal e o transporte público. Elementar. A história ensina, entretanto, que todas as conquistas democráticas, onde quer que elas se dessem, foram resultado de um longo processo de luta. Foi assim na Revolução Francesa, foi assim em 1848 em Paris, foi assim na Comuna de Paris em 1870, foi assim nas Diretas Já. Os estudantes teresinenses de hoje são personagens vivos, dotados de uma consciência democrática que quer se fazer ouvir, ainda que para isso seja necessário usar da violência.

A violência é um recurso legítimo de toda luta democrática. Quem está excluído e quer se fazer ouvir deve lutar.  A promotora do caso, Clotildes Costa Carvalho, veio a TV acusar o movimento de "vândalos" de ser financiado por sindicatos de esquerda. Quer dizer então que é legítimo que os empresários de linhas de ônibus financiem campanhas para prefeito e vereadores, porém não é legítimo que os sindicatos financiem a causa dos estudantes e usuário de transporte público? O que a senhora promotora chama de legitimidade deveríamos chamar de promiscuidade política entre empresários, prefeito e vereadores. A promotora, como jurista que é, deveria saber que os sindicatos são entidades privadas — corporações — e que possuem legitimidade constitucional para representarem seus adeptos.

E já que estamos a falar de legitimidade, deveríamos nos perguntar o que levou estes estudantes à luta radical. Creio que haja uma consciência democrática florescendo entre nós, e que tal consciência levou milhares de jovens a exporem sua própria integridade física para lutar contra um sistema viciado e injusto. As razões da luta, portanto, não dizem respeito apenas ao aumento das passagens, ou à falsa integração das linhas, mas a um conjunto de questões que saturaram o cidadão teresinense. Com a facilidade de articulação coletiva através das redes sociais virtuais, esta insatisfação se transformou em luta e ação política. Quais, então, os principais pontos de saturação da consciência democrática diante do problema do transporte público em Teresina? Vamos a eles:

1) Teresina precisa ter um processo licitatório constitucional para as linhas de ônibus com ampla concorrência para as empresas de fora da cidade, empresas que possam gerar concorrência interna e melhoria da qualidade do transporte. A prorrogação arbitrária do ex-prefeito Sílvio Mendes deve ser revogada. Licitação límpida e transparente. Concorrência pública. Fim do monopólio empresarial local.

2) Os empresários se queixam da baixa margem de lucro que auferem com o transporte urbano em Teresina. O aumento das passagens seria inevitável para que a atividade continuasse lucrativa. Ora, se não é uma atividade lucrativa, então porque estes senhores não mudam de ramo? Passem a concessão para outro gestor e migrem para uma atividade mais lucrativa. Ademais, se fizéssemos um levantamento sobre o crescimento do patrimônio destes senhores nos últimos vinte anos de prefeitura pessedebista veríamos que esta atividade é lucrativa por demais. Em verdade, a concessão de linhas urbanas em Teresina não é uma atividade lucrativa, mas uma atividade de extorsão institucional, enriquecimento ilícito e um vício para o sistema eleitoral teresinense e brasileiro.

3) As linhas de ônibus em Teresina são cartelizadas. E isso é ilegal. A linha que vai do bairro Saci para o Centro é monopólio da empresa Cidade Verde. Se a empresa Taguatur quiser concorrer com a Cidade Verde nesta linha, será embargada. Em várias cidades, a concorrência é aberta. Ganha o usuário, que pode escolher qualquer uma das empresas, diminuindo o tempo de espera nas paradas. O teresinense precisa de um sistema que multiplique as opções de transporte, e não um sistema que o faça refém de uma única linha monopolizada por uma divisão em cartel.

4) As vans, quando implementadas em fins dos anos 90, foram impedidas de circular na mesma linha dos ônibus. O SETUT isolou as vans em trajetos marginais de pouca circulação de pessoas para que tais vans não tomassem os passageiros dos ônibus. Se as vans circulassem na mesma linha dos ônibus, os usuários teriam mais opções e isso também reduziria o tempo de espera. Mas a prefeitura não contraria jamais os interesses dos empresários financiadores de campanha, e o usuário sofre com isso.

5) A média de espera por um ônibus em Teresina é de 20 minutos. Este é o tempo mínimo em geral.  Pode chegar de 40 a 60 minutos em determinadas linhas. Há um índice chamado IPK (índice de passageiro por quilômetro). O IPK de Teresina é altíssimo, o que significa que o usuário viaja em ônibus lotado, em pé, sem ar condicionado, espremido numa lata de sardinha. Quanto maior o IPK, maior o lucro do empresário, maior o desconforto do usuário. Em verdade, andar de ônibus em Teresina é desumano. Não há paradas com sombra na maioria dos pontos de ônibus, os motoristas e cobradores são uns cavalos batizados mal-educados, os passageiros se amontoam como podem. A Av. Frei Serafim, principal da cidade, não possui paradas minimamente confortáveis. Os usuários se protegem do sol com pedaços de papelão, na sombra perfilada dos postes mais próximos. Uma situação humilhante. Se tivesse concorrência entre as linhas o serviço melhoraria. Mas o Prefeito não quer concorrência, quer um mercado fatiado em cartéis proporcionalmente lucrativos para seus financiadores de campanha. Os vereadores idem.

6) Os empresários se queixam da meia-passagem para os estudantes, alegam que esta concessão baixa os lucros e os obriga a repassar o prejuízo para o preço da passagem regular. Para quem não sabe, a prefeitura paga adiantado o valor relativo à meia passagem estudantil aos empresários. O valor pago é fixo e não há risco de prejuízo. Caso o estudante não use uma ou mais passagens, seja porque expirou o prazo de uso, seja por outra razão qualquer, os empresários recebem o valor estipulado. Quando os estudantes vão ao SETUT comprar passagens, o valor somado de todas os passes já foi pago às empresas de transporte. Como já disse, trata-se de um pagamento adiantado.

7) Se formos comparar o serviço de transporte público de Teresina com qualquer outra capital brasileira, veremos que estamos num atraso brutal. Teresina foi a última capital do nordeste a ter integração. Agora temos uma falsa integração, com o absurdo intervalo de uma hora para reembarque, reduzindo a quantidade de paradas para impedir que o usuário usufrua do benefício. No Rio de Janeiro, por exemplo, estudantes de escola pública fardados não pagam passagem de ônibus, a integração vale por 24 horas e algumas linhas têm ar condicionado. Isto seria inimaginável em Teresina, porque aqui os prefeitos e vereadores só trabalham para atender a seus interesses privados e dos seus financiadores de campanha.

8) Todo cidadão teresinense sonha em ter carro ou moto para não depender de ônibus para se locomover. Atualmente, de cada três habitantes em Teresina, um deles possui carro. Esta situação se agravará mais ainda nos próximos anos. A solução para remediar os engarrafamentos é fazer com que o conforto e o preço do transporte público sejam suficientemente atrativos para que o cidadão prefira se locomover de ônibus e não de carro. Já é assim em Curitiba, por exemplo. Carro custa IPVA, multa, manutenção, gasolina e estacionamento. Ônibus não têm ônus.

Pela primeira vez em 30 anos, jovens e corajosos estudantes teresinenses, levados por uma magnânima consciência democrática, resolveram agir e lutar por uma cidade melhor, mais justa, onde os cidadãos tenham voz. Teresina se recusa a ser servil e acomodada diante de um elite espiritualmente velha, autoritária e anti-democrática. Esta será uma cidade de todos. Ocupemos as ruas. Porque a "A barricada fecha a rua, mas abre a via".

domingo, 15 de janeiro de 2012

aos manifestantes presos por desafinarem o coro dos contentes

[Renato Zagrel]


Tinha pedra no caminho
impreciso da viação.
Em mal traçado destino
deixa a cidade na mão,
sentada no asfalto quente,
jogada em xadrez infausto
por alcaide que não sente
que a pedra atirada ao povo
quebra ainda mais fácil
a vidraça dos palácios.


janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ao alcaide que tumultua a própria cidade



Ao alcaide que tumultua a própria cidade
[Renato Zagrel]


Herdeiro de trono alheio,
se acha rei ou ditador,
pensa ser dono de feudo:
prefeito sem eleitor.
Desintegrando a ordem pública,
esquecendo o ano passado,
tocando a mesma balbúrdia
tropeça no próprio passo:
errar uma vez é humano,
errar toda vez é Elmano.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

dEsEnrEdoS 12




www.desenredos.com.br

a 12ª edição de dEsEnrEdoS já se encontra on line. boa leitura

nesta edição, contamos com entrevistas com Humberto Hermenegildo, Francisco Rüdiger e Thiago E / poemas de Chiu Yi Chin, Claudio Willer, Dora Gago, f.f., Renato Suttana e Thiago E / prosa de Amailton Magno Azevedo, Éverton Diego, Geovane Monteiro, João Pinto e Rogério Newton / tradução de Alejandra Pizarnik por Clarisse Lyra, Diana Der Hovanessian por Sebastião Edson Macedo, Jakob Van Hoddis por André Pinheiro / ensaios de Adriano Lobão Aragão, Davi Santana de Lara, J. Francisco Saraiva de Sousa, Lenita Bentes, Paula Cabral, Rita Dahl e Roberto Acioli de Oliveira / resenhas de Mara Vanessa e Wanderson Lima / artigos de Alfredo Werney Lima Torres, Dora Gago, Fábio Galera, Laís Romero, Maria Neli Costa Neves, Rodrigo da Costa Araujo e Rafaela Capelossa Nacked / fotografias de Luciana Rodrigues

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

cerro de las cruces






quem fez de aço os pássaros
ensinou suas asas baterem
quando em chamas

(aquele que colheu em seu trajeto
os motivos que dão aos astros
o rastro de seu itinerário)


[as cinzas as palavras, 2009]

domingo, 8 de janeiro de 2012

como o bronze de tua tez tecendo breve momento

[adriano lobão aragão]



 
como o bronze de tua tez tecendo breve momento
em leves traços movimento disperso em nitidez
no gesto fugaz que teu olhar faz mudar de intento

ir embora toda paisagem emoldure teu ser
e logo recomece sempre teu revelar-se esquivo
e doe apenas o que neste instante se possa ter

o que há de finito se refaz em seu sentido mínimo
e sozinho sinto tudo o que tua presença emana
e preenche no tempo esquivo seu enlace íntimo

no lascivo idioma que consome tua eterna dança
escrita que se decifra no bronze de tua tez





[ave eva, 2011]

sábado, 7 de janeiro de 2012

gaiolas urbanas





nas gaiolas urbanas os pássaros
de asas impúberes são recolhidos
para seus destinos

dentro de cada pássaro
uma gaiola e seus anseios


[in Uns Poemas, 1999]